Jeso Carneiro

Helder venceu para o Senado, mas seu projeto de poder foi derrotado. Por Isaac Lisboa

Helder venceu para o Senado, mas seu projeto de poder foi derrotado. Por Isaac Lisboa

Não sou cientista político, nem tenho a pretensão de fazer uma análise acadêmica das eleições deste ano. Escrevo como cidadão que acompanha a política paraense e se permite formar opinião sobre os acontecimentos do nosso estado. E minha conclusão é clara: apesar de eleito senador, Helder Barbalho é, politicamente, o principal responsável pela derrota do projeto que ele próprio construiu para continuar comandando o governo do Pará.

Durante anos, Helder concentrou ao seu redor praticamente todas as forças políticas que considerava relevantes. Reuniu partidos, prefeitos, deputados, antigos adversários e lideranças das mais diferentes origens.

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Construiu alianças, promoveu cooptações e consolidou uma estrutura de poder que transmitia a impressão de uma hegemonia quase incontestável. Parecia acreditar que, como uma espécie de “Rei do Norte”, poderia reunir não apenas a classe política, mas também os votos dos paraenses.

As urnas mostraram que não. Hana, sua candidata ao governo, foi derrotada. E não estava sozinha: tinha o PT na vice e uma gigantesca composição política ao seu redor. Portanto, não foi apenas Hana quem perdeu. Foi derrotada a estratégia de Helder para
permanecer no comando político do estado por intermédio de sua sucessora.

Helder venceu para o Senado, mas sua vitória pessoal não apaga essa derrota política. O eleitor aceitou Helder senador, porém não lhe entregou o direito de escolher quem continuaria governando o Pará. Se o barbalhismo fosse realmente invencível, teria vencido também a eleição para o governo.

Tinha estrutura, governo, prefeitos, parlamentares, partidos, sua candidata e o PT na vice. Mesmo assim, perdeu.

A eleição mostrou que alianças construídas nos gabinetes não significam votos automaticamente transferidos nas urnas. Nenhum governador é dono dos votos dos prefeitos que o apoiam, nenhum partido é proprietário de sua militância e, sobretudo, nenhuma família é dona do voto dos paraenses.

Mas existe outro personagem que precisa refletir profundamente sobre essa eleição: o PT do Pará.

O partido aceitou a vice de Hana e participou da composição construída por Helder. Na disputa para o Senado, muitos petistas também votaram nos candidatos dessa aliança. Na minha leitura, o voto petista teve importância para a eleição de Helder e Chicão. O PT colocou nessa composição aquilo que possui de mais valioso: sua militância, seus votos, sua história e sua presença social.

Por isso, eu posso afirmar que o PT do Pará é muito maior que os Barbalhos. Já elegeu uma governadora, possui história própria, militância e força social. Não nasceu como apêndice do MDB e não precisa de autorização de nenhuma família para voltar a apresentar ao Pará um projeto próprio de poder.

O problema é que o PT paraense parece ter esquecido o tamanho de sua própria história. Aliança é uma coisa; subordinação é outra. Um partido dessa dimensão não pode servir apenas para fornecer militância e votos aos projetos dos outros, ajudar a eleger senadores aliados e se contentar permanentemente com a condição de vice.

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Há ainda outro resultado que merece atenção: Lula venceu no Pará no primeiro turno. E, na minha avaliação, essa vitória não pode ser creditada ao poder político de Helder.

Lula venceu fundamentalmente por sua própria força eleitoral, pela identificação que possui com parcela expressiva dos paraenses, pelo PT e pela militância petista que foi às ruas defender sua candidatura. Não vi, no primeiro turno, um empenho de Helder proporcional à enorme estrutura política que construiu no estado.

E existe uma contradição muito simples: se Helder tivesse tamanha capacidade de transferir votos, por que essa mesma força não foi suficiente para eleger Hana?

A candidata de Helder perdeu. Lula venceu. Isso deveria provocar uma reflexão dentro do próprio PT sobre a dimensão de
sua força política e sobre a necessidade de preservar sua autonomia no Pará. Agora chegamos ao segundo turno presidencial, e essa aliança será submetida ao seu verdadeiro teste.

Helder está eleito senador. Chicão também. Os petistas participaram dessa composição e muitos deram seus votos aos candidatos ao Senado. Agora quem precisa de votos é Lula.

Helder colocará efetivamente sua força política nas ruas? Mobilizará prefeitos, deputados, vereadores e lideranças? Percorrerá o estado pedindo votos para Lula? Ou sua participação continuará muito aquém do tamanho da força política que afirma possuir? Agora é a hora da reciprocidade.

Não basta declaração protocolar, fotografia ou manifestação ocasional. Se essa aliança realmente funciona nos dois sentidos, Helder tem agora a oportunidade de demonstrá-lo fazendo campanha, pedindo votos e colocando sua estrutura política a serviço da reeleição de Lula.

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E o PT precisa observar atentamente o que acontecerá. Pode fazer alianças com Helder. Pode dialogar com o MDB. Pode construir convergências. O que não pode é ajoelhar politicamente diante do barbalhismo.

Helder venceu para o Senado, mas seu projeto sucessório foi derrotado. Lula venceu no Pará, na minha leitura, por sua própria força, pelo PT e pela militância que carregou sua candidatura.

A eleição demonstrou que os Barbalhos podem perder, que o barbalhismo não é invencível e que o Pará não pertence a nenhuma família.

Talvez tenha chegado a hora de o PT paraense recuperar aquilo que jamais deveria ter colocado em segundo plano: sua identidade, sua autonomia e sua altivez. E, no segundo turno, a pergunta que fica é muito simples: os petistas ajudaram quando Helder precisou. Agora que quem precisa é Lula, o que Helder fará?


∎ Isaac Lisboa Filho, santareno é advogado. Leia também dele: O Fundeb, a vinculação remuneratória e a responsabilidade constitucional do gestor municipal. E ainda: Terceirização e precarização: uma crítica à gestão municipal de Santarém na educação pública.

∎ Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião do JC. A publicação deles obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros, prioritariamente, e de refletir as diversas tendências do pensamentos contemporâneo.

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