
A eleição para o Senado é uma disputa sui generis, sobretudo nos anos em que o eleitor precisa preencher duas vagas. No Pará de 2026, com exceção ao cargo de senador, a maior mobilização nas urnas foi para a presidência da República: de cada 100 eleitores inscritos, 78 se transformaram em votos válidos.
A maneira como o TSE divulga os resultados pode dar a falsa impressão de que os senadores foram eleitos com um volume reduzido de votos. Isso ocorre porque o eleitor dispõe de dois votos e não pode repeti-los no mesmo candidato. Para padronizar a análise e facilitar a compreensão, adotaremos como base de cálculo o total de votos válidos para governador e proporções comparativas.
Helder (MDB) ultrapassou a marca dos 51%, enquanto Chicão (União Brasil) registrou 44%.
Para cada 100 votos depositados para governador, apareceram 196 votos para senador. O comportamento das urnas mostra que foi como se 96 eleitores tivessem escolhido dois candidatos e apenas 4 optado pelo voto único.
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A mecânica dos “matches”
Em vários estados, o “desenho” do modelo eleitoral favoreceu chapas puras ou partidos do mesmo arco de alianças. Quando uma base eleitoral se mantém coesa, consegue eleger a dupla completa.
Quais “casamentos” o eleitor fez? Todos os possíveis e imagináveis, porém, alguns foram frequentes e outros foram bem raros.
O TSE não divulga no detalhe como foram feitos os “matches”, mas os dados consolidados nos permitem projetar onde as dobradas se encontraram.
A dupla Éder Mauro (PL) e Zequinha Marinho (Podemos) apresentou uma sintonia quase perfeita: para cada 100 votos conquistados por Éder Mauro, Zequinha obteve 95. A direita não apresentou um terceiro nome e tampouco deu margem para a consolidação de candidaturas de centro.
Para cada 100 votos obtidos por Flávio Bolsonaro no estado, Éder Mauro obteve 92; Zequinha, 87; e Dr. Daniel, 108. Ou seja, o espectro social atingido pelo governador eleito foi mais plural que de seus aliados.
No campo governista, a parceria se apresentou como uma chapa solidificada no bordão do trio “É Helder, é Hana, é Chicão”. Para cada 100 votos obtidos por Helder, Chicão recebeu 86; e Hana (MDB), 82.
A grande maioria dos votos dados a Chicão certamente veio de Helder — embora em um nível inferior à adesão observada na dupla da direita. É no eleitorado restante que mora o enigma deste artigo.
O fator Celso Sabino e o comício no Theatro da Paz
Correndo por fora, Celso Sabino (PDT) construiu uma espécie de “candidatura avulsa”. Ele advogou o nome de Helder para o primeiro voto, mesmo sem a recíproca do bloco emedebista.
O ponto alto da tensão pelo segundo voto ocorreu no comício com a presença de Lula em frente ao Theatro da Paz, em Belém, a seis dias do pleito, marcado pela troca de farpas ao microfone entre Celso e Chicão.
Na mesma oportunidade, o presidente da República verbalizou que iria colocar os presidentes nacionais do PT e do MDB para debaterem a questão. Acabou que nenhum dos dois postulantes cedeu.
Sendo o único candidato do “top 5” a utilizar ostensivamente a imagem de Lula em sua campanha, Sabino conquistou quase 12% dos votos válidos (tomando por base a votação para governador), somando 527 mil votos.
Para onde foi o outro voto do eleitor de Celso?
Com certeza, a menor fatia caminhou em direção a Éder Mauro ou Zequinha Marinho.
Se somarmos os candidatos do PSOL e da UP, chegamos a 134 mil. Isso poderia explicar no máximo um quarto dos destinos, mas ainda sobrariam pelo menos 370 mil votos no ecossistema eleitoral.
O voto útil
Éder Mauro permaneceu na vice-liderança durante quase toda a apuração. A virada de Chicão ocorreu por volta das 21:40h. Menos de 17 mil votos separaram os dois políticos. Isso equivale a 3% do eleitorado de Celso.
Nas vésperas da eleição, os institutos de pesquisa divergiram muito nas projeções para governador, mas concordaram com o mesmo cenário para senador: Helder acima das nuvens e um empate técnico pela segunda cadeira entre Chicão e Éder Mauro.
Tal fato fez com que uma minoria relevante do eleitorado de Celso apostasse sua última ficha no presidente da Alepa, na esperança de impedir a vitória do PL. Uma decisão de véspera e sem entusiasmo.
Além disso, na reta final, lideranças do PT reforçaram o voto estratégico no 444, independente de quem fosse o primeiro voto. Nesse mesmo sentido, some-se também o discurso de Helder focando em pragmatismo, diante do Theatro da Paz. Reverberou.
Em diálogo com vários observadores da política paraense, o maior destino do outro voto de Celso foi Helder e, em segundo lugar, Chicão — em um percentual bem maior que 3%.
Respondendo à pergunta do título: sim, empiricamente, podemos afirmar que o voto útil aos 45 do segundo tempo desempatou o placar em favor do senatoriável do União Brasil.
∎ Alan Lemos é contador e cursou mestrado em Ciência Política na UFPA (Universidade Federal do Pará). Lei também dele: Saiba por que o PSB elegeu só 1 vereador em Santarém e o Podemos nenhum em Belém e ainda: O 80/20 no centro da disputa para vereador.
∎ Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião do JC. A publicação deles obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros, prioritariamente, e de refletir as diversas tendências do pensamentos contemporâneo.
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