Jeso Carneiro

Poesia. Fel

Gotas de fel

Não cantes: sempre fica
à tua língua apegado
um canto: o que faltou ser enviado.

Não beijes: sempre fica,
por maldição estranha,
o beijo a que não chegam as entranhas.

Reza, reza que é bom; mas reconhece
que não sabes, com tua língua avara,
dizer um só Pai Nosso que salvara.

E não chames a morte de clemente,
porque, na carne que a brancura alcança,
uma beirada viva fica e sente
a pedra que te afoga
e o verme voraz que te destrança.

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De Gabriela Mistral, poeta chilena.

Leia também:
O engano, de Alfonsina Storni.
A poesia é como pão, de Roque Dalton.

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