A flecha range os dentes. Por Gonzaga Blantez

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A flecha range os dentes. Por Gonzaga Blantez

Na atual conjuntura, onde o tempo tece e destece a malha da existência, um arco maleável se apruma. Não é de madeira bruta, nem de metal impiedoso, mas da fibra tênue da esperança, forjada nas dores silenciosas que moldam a alma. Ele se ergue, um ponto de fuga no horizonte turvo, prometendo o voo, a ruptura, a busca por um além que a vista cega não alcança. A flecha, afiada não na ponta bruta, mas na intenção, range os dentes. É um som gutural, um lamento contido de possibilidades não abraçadas, um frêmito de aço e alma que anseia pela libertação. Cada fibra da flecha vibra com a urgência do disparo, com o peso de tudo que a empurrou até este instante de tensão insuportável.

Enquanto isso, os crentes confabulam. Não são apenas os de fé ancestral, mas todos aqueles que depositam sua crença em algo: na ordem estabelecida, no caos inevitável, na revolução que tarda, ou na paz que parece inatingível. Sussurram verdades parciais, medos compartilhados, esperanças vazias. Suas vozes, um coro desarmônico, ecoam nos corredores do poder e nas vielas do esquecimento, desenhando mapas de um futuro incerto, traçando rotas que nem eles mesmos ousam trilhar até o fim. Há um calor úmido nessas palavras, uma urgência contida, mas também a frieza do cálculo e a distância da empatia.

Eles tecem e re-tecem narrativas, cada nó um novo compromisso, cada desfazimento uma nova ferida.
O alvo incerto. Ah, o paradoxo da busca sem destino claro! Não há uma maçã vermelha no centro de um círculo pintado, nem um inimigo frontal a ser derrubado. O alvo se move, se distorce, se esconde nas frestas da percepção. É um ideal etéreo, uma justiça sonhada, uma verdade que se esquiva. Ele se manifesta ora como um eco distante, ora como uma sombra alongada que dança sob a luz do conhecimento que nunca é pleno.

Essa incerteza é o fulcro da agonia moderna, a beleza trágica de uma existência guiada por bússolas que giram sem norte fixo. E a cada tentativa de aproximar-se, o alvo se retrai, revelando um fino desafeto. Não é ódio, nem rancor, mas uma dissonância sutil, um desencaixe delicado que impede a fusão, a comunhão plena. É a distância entre o que se sonha e o que se alcança, entre a palavra e o seu real significado. Um véu quase invisível de desapontamento que cobre as interseções da vida.

Todo exposto ao desconexo. A realidade se estilhaça em mil fragmentos, cada um contendo uma parte da verdade, mas nenhum a totalidade. Somos colecionadores de cacos, tentando remontar um vaso que nunca existiu em sua forma original. A coerência se dissolve sob a força centrífuga do individualismo, da informação superabundante, da velocidade vertiginosa que não permite a assimilação. Tudo que era ligado por um fio lógico, por um propósito comum, agora flutua em uma névoa de possibilidades infinitas, onde a bússola moral perde seu norte e as certezas se tornam líquido. O dente morde a língua.

Um autocontrole forçado, a palavra não dita que se retorce na garganta, o grito abafado pela conveniência, a verdade que se cala para preservar uma frágil paz. É a dor da omissão, a chaga da renúncia, a batalha travada nos limites da própria boca, onde o veneno da raiva se mistura com o néctar do silêncio. Um ato de autodisciplina que, paradoxalmente, gera uma ferida interna, um pequeno sangramento na essência do ser.

Enquanto isso, a fala se conjuga, mas não harmoniza. Ela se molda, sim, às regras gramaticais, às exigências da comunicação, mas seu conteúdo fura a harmonia estabelecida, a ordem aparente. É a voz dissonante que questiona, a frase ácida que ironiza, o clamor insurgente que perturba o sono dos justos. Há uma violência inerente em cada palavra que desafia, em cada conceito que subverte a normalidade.

O verbo, em sua potência, torna-se arma, bisturi, arado que revolve o solo árido da complacência. E nesse embate, fora de contexto, reside o preço que se paga. A incompreensão, a marginalização, a solidão do profeta que vê além, a cruz do visionário que se recusa a ser cego.

É o custo da autenticidade, o ônus da verdade insubmissa, o exílio autoimposto daquele que ousa viver para além dos limites traçados pela sociedade. A quebra de um pacto constitucional, a rejeição de um status quo que, para ser mantido, exige sacrifícios individuais.

E nesse desdobramento, esse preço arcado, atinge a maioria. Não é uma aniquilação física macabra, mas a dissolução de seus valores, de suas referências, de sua hegemonia sutil que permeia todas as camadas da vida. A opulência se torna obsoleta, o acúmulo sem sentido, o consumo desenfreado uma herança vergonhosa. O privilégio se revela um fardo, a estabilidade uma miragem, o conforto um cárcere dourado.

O que antes era sólido, agora se liquefaz; o que era inabalável, oscila. A burguesia, não como classe social isolada, mas como mentalidade dominante, como sistema de pensamento que valoriza o ter acima do ser, a aparência acima da essência, começa a desvanecer. Não por uma revolução sangrenta, mas por um desgaste silencioso, uma perda de sentido que corrói suas fundações.

A beleza efêmera do luxo se contrapõe à rude verdade da escassez, a segurança forjada em números se desfaz diante da incerteza existencial. A bolha se rompe. E na esteira desse apagamento, um novo vazio surge, convidando à reinvenção, à redescoberta de valores mais profundos, mais humanos, mais conectados à terra e à verdadeira essência da vida.

É a aurora de um novo poema, escrito não com tinta, mas com a pele e o sangue daqueles que pagaram o preço e que, no vazio do inoposto, buscam um novo e possível recomeço, um novo arco, uma nova flecha, um novo alvo a ser lançado no vasto mar da incerteza.


❒ Gonzaga Blantez é cantor e compositor amazônico, nascido em Alenquer (PA). Mora em Santarém (PA).

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