
Ela podia se chamar Mel num fim de tarde, Cléo numa segunda à noite, Dana quando atendia chamada de vídeo com vinho e voz de veludo, Luísa no perfil pessoal, Jessica no perfil de trabalho, Lola com “h” mudo nas conversas onde não queria ser levada a sério demais.
O nome era só embalagem, o que valia era o gesto de curadoria, escolher o filtro, ensaiar o tom, modular a presença, a identidade faz-se móvel por tática dentro de um contexto que ter muitos nomes é uma forma de não ter dono, uma forma de existir sem precisar pertencer.
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O que ela vendia? Difícil dizer, mesmo para ela; não era sexo, porque o corpo era apenas parte da equação, nunca inteiro; não era afeto, porque o carinho vinha sem promessas e sem sobra. Talvez fosse companhia, estar com alguém por algum tempo com tanta intensidade que parecesse amor, mas com a leveza de quem sabe que vai desaparecer logo após o pix cair.
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Era a entrega breve, calibrada, inteligente, um tipo de presença-ritual, de aparecer para o outro como se materializasse um desejo que ele mesmo não sabia nomear, e depois sumia, porque o mais raro que ela oferecia não era o toque, era o timing.
Dizia com firmeza ortodoxa que estava nessa “por opção”, não era GP, nem se encaixava no rótulo de influencer, era outro tipo de presença, um corpo com roteiro próprio, uma narrativa que se escrevia nas margens do esperado, uma que habitava um entre-lugar que não pedia apenas ação; silêncio e pix confirmado eram fundamentais.
Suas regras eram poucas, funcionavam como cláusulas invisíveis de um contrato não assinado, nada de perguntas sobre o passado, nada de expectativas sobre o futuro, e jamais uma lágrima digitada em forma de textão; estava ali para o agora e só, sua frieza era de quem já foi quente demais e cansou de se queimar.
“Bônus”, esse era o termo que usava, por isso não “cobrava”, no entanto era óbvio que estar com ela custasse alguma coisa; entre idas e partidas, sumia como uma artista de truque bem feito, só sentia o vazio depois e voltava quando queria, sempre com a dose certa de mistério, como se nunca tivesse estado ao lado.
Os stories é sua vitrine ritual, uma xícara de café cercada de luz morna, uma legenda de três palavras, uma playlist com ar de quem sabe exatamente o que o outro quer ouvir sem precisar perguntar, ela não se oferecia e sim oferecida pela própria aura.
Os directs eram onde tudo começava e nada se resolvia. “Você está disponível?”, sempre o outro que iniciava, ela respondia com emoji, às vezes dois, nunca ponto final. Sabia que o desejo masculino/feminino se alimenta da ilusão de que ainda tem alguma escolha, de que ainda pode conduzir a narrativa. E era ai que deixava pistas, controlava a situação como quem acende uma vela em ambiente escuro, com calma, intenção e domínio do fogo.
Era a possibilidade de estar ao lado de alguém que já não pedia amor apenas presença dosada, olhar leve, silêncio confortável; tinha desaprendido o amor como necessidade e reaprendido como moeda, sabia convertê-lo em passagem de ida, em cobrança discreta, em um abraço sem assinatura.

Inteligência emocional de quem entendeu cedo demais que sentir demasiadamente é risco, e que estar sempre disponível é convite para o outro querer mudar sua forma, ela não queria ser transformada; queria ser lida e deixada em paz. Sabia ser carinhosa, com doçura quase ensaiada; era gentil, às vezes divertida como quem oferece riso por elegância, mas havia um limite que ela mesma nunca anunciava, apenas sentia.
Quando o outro piscava demais, ou tentava fixar um olhar prolongado, ela estava longe, mesmo que o corpo ainda estivesse ali, depois desaparecia como quem fecha um aplicativo sem drama, sem aviso, sem ruído; não por maldade, mas por sobrevivência, para ela, continuar era mais perigoso do que partir.
E ele, o outro, podia ser o que fosse, com 44 anos e divórcio recente, ou com 62 e uma aposentadoria bem planejada; podia vir com terno bem cortado, carro blindado, currículo extenso. Mas vinha sempre com o mesmo erro, não sabia mais o que fazer com o próprio afeto, trazia a presença como oferta, cheia de peso, de expectativa, de passado em forma de bagagem.
Queria encantá-la com histórias, planos, estabilidade, no entanto ela já tinha aprendido a não se comover com promessas que vinham datadas, e isso o desarmava porque ela não queria alguém, apenas o necessário para suprir o agora. Ela é filha de um tempo que a ensinou a sentir em parcelas, um pouco por segurança, um pouco por estilo, quase nada por descuido; aprendeu cedo que amar demais fragiliza, expõe, compromete e maltrata.
Então, calculava o afeto como quem regula a temperatura da água antes de entrar, nunca quente o suficiente para queimar, nunca fria demais para afastar. Oferecia o bastante para que o outro acreditasse na possibilidade de algo real, mas guardava o resto como quem sabe que entregar tudo é um luxo que já não se pode dar e nem cobrar.

Um gesto, um emoji, um silêncio bem colocado, não havia excesso, nem vazamento, seu amor era estratégia de contenção, sobrevivência emocional em tempos de exposição constante. Era o que restava quando o desejo não podia mais viver com ingenuidade, nem o afeto se podia mais oferecer sem pensar no custo.
Amava, sim; mas como quem ama só para manter alguma parte de si viva e em pé, quando tudo o mais ao redor se converteu em jogo de narrativa, podia ter tantos nomes e versões de si mesma, que pouco importava se existisse ou não, porque ela já estava dissolvida na curadoria dos perfis, nos filtros escolhidos com cuidado, nos bios calculados em palavras-chave.
Talvez fosse só um avatar bem gerenciado, um ponto de fuga criado para escapar da armadilha de sentir demais, mesmo assim, ela existia mais do que muitos que ainda acreditam no amor como um fim em si mesmo. E foi ali, entre um café frio esquecido na bancada e uma notificação que piscava no celular, que nasceu aquilo que se pode chamar de “economia do quase-amor”.
Um território de fronteiras turvas, onde o afeto não é mentira, mas também nunca chega a ser inteiro, um campo de trocas simbólicas e calculadas, habitado por subjetividades estratégicas que aprenderam a performar o vínculo como quem dança na beira do abismo com beleza sem cair. Esse mapa invisível, esses habitantes cautelosos, seus algoritmos emocionais que programam a presença e disfarçam a ausência.
No fundo, todos estamos tentando responder às mesmas perguntas: quem ama? quem paga? quem performa? quem lucra? E o mais desconfortável talvez seja perceber que nenhuma dessas perguntas está fora de nós, no fim das contas estejamos esperando que alguém nos ame como um story de 15 segundos, com intensidade suficiente para doer, mas nunca o bastante para durar.
Hoje, o verdadeiro desafio está em perceber o medo da ausência e quando a encenação substitui o sentimento; nesses dias velozes de entre-lugares, meio físico e meio virtual, o afeto não brota como consequência humanista, ele é roteirizado como fim capital.
Sabe-se o momento certo de mandar uma mensagem, o tipo ideal de reação, a quantidade aceitável de vulnerabilidade por postagem, a intimidade é script silencioso operado por toque, delay e curadoria emocional. O gesto espontâneo não deve existir, é corrigido pelo medo de exposição, se oferece exatamente o que não se sente, aquilo que parece aceitável sentir: um design responsivo.
O engajamento infiltra-se no desejo, responde-se rápido para não parecer distante, é… não tão rápido assim para não parecer carente, as emoções passaram a funcionar como notificações, se demoram, causam ansiedade; se somem, são ignoradas, há um receio latente de ser percebido como intenso demais, ou pior, irrelevante.

E assim o afeto espontâneo quando não editado, assusta; quando não é postável, é anônimo ou visto como excesso, a verdade é que o afeto perdeu espaço para a estética do instante, do editável. E nesse ritmo ansioso, afasta-se quem sente de verdade e aproxima-se quem performa melhor, no final, o que se ama mesmo é a sensação de ser escolhido por quem sabe desaparecer no tempo certo.
Na superfície do toque digitalizado, persistem microesperanças, um emoji com subtexto, uma curtida que parece mais quente, uma ausência que silencia mais do que qualquer presença, são fragmentos tênues, imperceptíveis que ainda sustentam o desejo de conexão, dentro das redes sociais são perdas de tempo, porque o que se negocia não é mais o amor pleno é o “quase”, o “talvez”, o “por enquanto”.
O afeto em sua forma contemporânea, passou a ser uma tecnologia de contenção, o sentimento calculado sem excesso, a cada vez que um relacionamento começa com um arroba e termina com um bloqueio, confirma-se que o amor, embora vivo, passou a funcionar como aplicativo instalado por impulso, usado com entusiasmo e excluído sem aviso quando ocupa espaço demais.
Já não se vive o tempo do afeto, vive-se sua utilidade, o outro deixa de ser sujeito e vira ícone, enquanto responde mantém-se “visível”; ao silenciar é arrastado para a lixeira emocional. A lógica de uso substituiu a lógica do vínculo, e assim seguimos amando como quem aceita termos de uso sem ler, clicando em “concordo” antes de entender o que de fato está sendo entregue.
Não há hereges nesse novo mapa, apenas sobreviventes emocionais tentando manter-se inteiros num campo afetivo volátil, onde a solidão se combate com presença estratégica e a carência se disfarça com stories. Possivelmente, sejamos todos cúmplices e vítimas de um sistema que nos ensinou a desejar com prudência, a gostar com intervalo, a amar em parcelas, e no fundo, é essa dosagem que nos esvazia, o medo de sentir demais e perder tudo; o medo de não sentir nada e continuar.
Quem sabe a grande lição desse movimento virtual seja reaprender a se mover sem plateia, sem a ansiedade de parecer o bastante, sem a obrigação de render bons momentos em vídeo. Pode ser que “amar à moda antiga” ou “alugar um como antigamente” ainda exista, mas num compasso mais calmo.
Num tempo que escapa das métricas, sem pressa, em que duas pessoas se reconhecem pelo silêncio confortável entre elas; um tempo em que o toque não precisa provar nada, em que o sumiço não é estratégia, em que a ausência também é parte do estar; a espera não é garantia, no entanto desligar as notificações para voltar a respirar, é.
Assim, se ainda for possível amar, será fora da lógica da entrega instantânea, pode ser num desvio, num gesto pequeno demais para virar post, num olhar que não precisa legenda, mas não será um amor heroico, revolucionário nem certeiro. Será distraído, quase desajeitado, que não se importa em falhar, desde que não desapareça, e quando vier, nem pareça afeto de primeira; vai se insinuar como quem não quer durar e, por isso mesmo, pode ficar.


❒ Josué Vieira, santareno, é professor, escritor, poeta e pesquisador sobre Sociedade, Cultura e Amazônia. Mora em Manaus (AM). Leia também dele: Katy, um reino além da consciência. E ainda: Desesperos, morte e silêncio na Colônia Vertical dos Perdidos.
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excelente texto, tema atualissimo e boa análise desse quase outro mundo extremamente real na vida cotidiana das redes sociais e afetos virtuais.