Adultização: um perigo para as crianças que pode partir dos próprios pais. Por Silvan Cardoso

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O influenciador digital Felipe Bressanim, o Felca, publicou no YouTube, no dia 6 de agosto de 2025, um vídeo intitulado “adultização” que, em três dias, chegou a incríveis 20 milhões de visualizações. O vídeo é uma denúncia sobre exploração de menores de idade em conteúdos de internet, tendo como destaque o influenciador Hytalo Santos, que faz imagens de meninas menores para serem exploradas de forma sensual.

O vídeo de Felca, de cerca de 50 minutos, quebrou o tabu desse assunto que muito se tinha medo de tratar publicamente. A barreira quebrada pelo jovem influenciador paranaense fez com que as redes sociais de Hytalo Santos fossem bloqueadas e as investigações sobre ele, feitas pelo Ministério Público, fossem ainda maiores.

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O vídeo também possibilitou que outros influenciadores se motivassem a tratar do tema com mais firmeza e confiança, devido a sua complexidade e de haver envolvimento de pessoas criminosas e sobre a possibilidade de serem ameaçadas de morte.

Uma das observações de Felca relacionadas à adultização são atitudes inocentes dos pais, que podem ser alvos de pedófilos: a exposição das suas crianças e adolescentes nas redes sociais. Uma simples foto ou um vídeo, mostrando o cotidiano da criança, ela dançando, mostrando seu rosto e seu corpo, pode ser algo muito perigoso para a família.

Já é bastante comum pai e mãe fazerem fotos desde os ultrassons dos seus filhos, querendo mostrar o sexo dos bebês para as pessoas que os seguem nas redes sociais. Com o passar do tempo, vão mostrando o processo de crescimento dos pequenos e, quando menos esperam, estarão caindo na armadilha de pedófilos, que poderão estar acompanhando e monitorando essas crianças.

Especialistas alertam sobre essa exposição exagerada das crianças, principalmente quando colocam os seus nomes verdadeiros nas redes sociais e, principalmente, quando colocam os nomes da cidade, do bairro e da rua onde moram. Com essas informações, os criminosos podem ter mais facilidade em localizar as suas vítimas.

A consultora de imagens Aline Fernandes, em seu perfil no Instagram, com a repercussão do vídeo de Felca, fez uma publicação alertando que a adultização de crianças começa pelas roupas. A forma como as crianças se vestem também atraem criminosos.

Se uma menina de nove ou dez anos usa uma saia ou short que dá uma aparência de sensualidade, aquilo pode se tornar alvo de possíveis pedófilos. Ao invés do filho ou da filha estarem bem vestidos como crianças, os pequenos se tornam mira de olhares maldosos como possíveis produtos de seus interesses ao estarem vestidos como se fossem adultos.

Os pais ou qualquer outro parente acha aquilo bonito, fotografa ou filma e tratam de divulgar nos aplicativos de mensagens ou publicar nas redes sociais. A exibição pode ser até inocente, mas nunca se sabe como é que as outras pessoas, que estão seguindo, olham as crianças bem vestidas, em muitos casos com roupas mostrando as pernas e a barriga.

“Não podemos esquecer: moda também é comunicação. Uma roupa não é só tecido, ela transmite mensagens. E quando essas mensagens não condizem com a idade, abrimos espaços para distorções perigosas”, alertou Aline Fernandes.

A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa, em vídeo publicado no seu canal PodPeople, dias após o vídeo de Felca, elogiou o influenciador, que tem apenas 27 anos. A psiquiatra disse que, diferente do que muito se pensa, a chamada “Geração Z” não tem apenas pessoas irresponsáveis, mas tem também pessoas que se importam com os problemas sociais.

“Orgulho de ver pessoas usando seu poder de influência para influenciar de fato coisas que precisam ser vistas e que precisam que todos saibam, que todos se posicionem e que todos tomem providências”, disse a psiquiatra na sua análise em vídeo sobre a publicação de Felca.

Além da forma de se vestir, há outra situação polêmica: as crianças estão crescendo diante do espelho! Muitos pais têm achado bonito ver suas filhas pequenas bastante vaidosas e se maquiando como se fossem adultos.

As meninas veem suas mães usando todo tipo de maquiagem. Elas pedem e as genitoras, achando ser aquilo inocente, cedem aos seus pedidos. Muitas vezes as próprias mães maquiam as suas filhas ou as próprias filhas se maquiam.

Não é difícil encontrar crianças que se acham feias porque não estão maquiadas. Esse problema pode tanto chamar a atenção dos pedófilos, como pode ser prejudicial à saúde. De acordo com a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), a maioria dos produtos é desenvolvida para pele madura, de pessoas acima dos 25 anos. Numa criança pode ter consequências graves, como irritação na pele, manchas e obstrução dos poros.

A indústria dos chamados “cosméticos para crianças” tem se expandido com a grande demanda. Mas a indústria não se importa com a saúde e a segurança dos pequenos. Seu objetivo é lucrar diante aquilo que tem bastante saída.

Em entrevista no vídeo “adultização”, Felca conversa com a psicóloga Ana Beatriz Chamat, que é especialista em infância, adolescência e parentalidade. Chamat afirma que no modo de criação atualmente, a formação dos filhos, que deveria ser de dentro pra fora, está sendo se fora pra dentro, explicando que ao invés da haver um desenvolvimento natural, a criança vai absorvendo do seu exterior informações excessivas, na maior parte das vezes longe do ideal para a idade.

De acordo com a psicóloga, essa situação, mais a liberdade da criança de uso de celulares, causa uma ruptura no desenvolvimento natural dos pequenos. Um problema vai ligando a outros problemas, levando a situações graves para a vida dos filhos e a possibilidade de lidar com criminosos.

A psicóloga alerta também da liberdade que os pais dão aos filhos de terem celulares e acessarem livremente a internet. “Largar teu filho no quarto com o celular é o mesmo que largá-lo numa avenida, onde tem de tudo, que está sendo exposto a tudo”.

Quando a criança mexe num celular sem mediação dos responsáveis, a possibilidade de ter contato com pedófilos e se expor para essas pessoas é grande. Os pais não dão as orientações corretas, logo serão pessoas de fora que as orientarão, mas do modo errado.

O certo seria a criança não ter contato com telas. Mas se existir a necessidade desse contato, a psicóloga orienta: até os dois anos de idade a criança não deve em hipótese alguma ter contato com celular; dos dois aos cinco anos, no máximo uma hora de celular por dia com supervisão dos pais; a partir dos cinco anos, no máximo duas horas de celular por dia com supervisão dos pais.

O combate à pedofilia começa em casa, tratando as crianças como crianças! Nada de colocar nelas roupas extravagantes, que mostrem as curvas do corpo ou partes do corpo; nada de maquiá-las; e nada de expô-las nas redes sociais.

A vida da criança deve ser no anonimato, lidando com situações naturais da vida na convivência familiar, por meio de brincadeiras, leituras e tudo mais que seja lúdico. Sempre que possível, ficar alerta, pois, como afirmou Ana Beatriz Chamat, o criminoso que observa teu filho muitas vezes pode ser alguém de confiança e da família.


❒ Silvan Cardoso é poeta, cronista e pedagogo nascido em Alenquer, no Pará. Escreve regularmente no JC. Leia também dele: Alenquer, 143 anos: quem come seu acari não quer mais sair daqui. E ainda: Canhoto, o dono do lanche que virou point em Alenquer; vídeo.

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