
Está ficando cada vez mais difícil ter amigos no Brasil atualmente. Aliás, para ser inimigo basta você dizer a sua opinião política, apenas isso. Não caberão espaços para justificar os motivos de seu posicionamento e você será imediatamente julgado, como se tivesse cometido um grave crime.
Se você diz apoiar as ideias da esquerda, imediatamente será tachado de comunista. Mas se você se diz apoiador dos políticos da direita, será imediatamente declarado como fascista. Sempre com uso dos termos “comunista” e “fascista” sem saberem os seus significados.
Leia também de Silvan Cardoso:
- Passeando por bairros e ruas de Santarém que nos contam histórias. E
- Alenquer, terra que ninguém conhece, nem mesmo a própria história.
Em um país que possui a constituição mais democrática entre todas que o Brasil teve na sua história, a liberdade de escolha para um lado político passou a se tornar uma autocondenação por quem tem pensamento diferente. Ter outra opinião te torna réu diante de uma sociedade cada vez mais estúpida.
— ARTIGOS RELACIONADOS
Com o uso as redes sociais, percebemos a dimensão que essa estupidez está alcançando. Claro que as publicações por esses meios não mostram o real pensamento da totalidade da sociedade brasileira, entretanto, é notável quantos se expõem com pensamentos rasos e sem o menor benefício aos brasileiros.
Até onde se chegará com pensamentos extremistas, em que ninguém está disposto a ouvir o outro? O debate e o respeito por diferentes formas de pensar já não são considerados necessários por muitas pessoas. A “onda” do momento é falar mais alto e ser o único correto. Se outro não tiver o mesmo pensamento, estará completamente errado!
Assuntos públicos tratados de forma errada irão muito além: chegarão a ataques nas vidas pessoais e, se alguém foi seu amigo e confidente por décadas ou por uma vida inteira, será agora o seu maior dos inimigos, simplesmente por ter opinião política diferente.
A jornalista Júlia Di Spagna, que atuou na Forbes Brasil, afirmou “Ser amigo é um exercício de tolerância e empatia”, uma frase presente no seu artigo “Como lidar com amigos com opiniões políticas diferentes?”, publicado no site Guia dos Estudantes em 2020.
Já tem bastante tempo que o respeito num debate em uma praça pública ou na mesa de bar já não existe mais. As diferenças são ignoradas de forma instantânea, como se falar de política fosse um assunto apenas de rivalidade e violência, seja ela física ou psicológica.
Muitas pessoas também não refletem essas questões, especialmente aquelas de baixa escolaridade e que são manipuladas por políticos aproveitadores, que só desejam seus votos em épocas de eleição. Fala-se muito em empatia, mas apenas quando lhes favorece. Caso contrário, o interesse próprio é que prevalece.
O escritor italiano Traiano Boccalini, que viveu entre os anos de 1556 e 1613, citou a frase “Divide et impera”, de origem desconhecida, que para o português significa “Dividir para conquistar”, utilizada como princípio comum da política na época.
Uma estratégia militar similar a essa frase é citada por Maquiavel, presente no livro IV de A Arte da Guerra, dizendo que “um capitão deve se esforçar ao máximo para dividir as forças do inimigo, fazendo-o desconfiar dos homens que confiava antes ou lhe dando motivos para separar as suas forças, enfraquecendo-as”.
Até mesmo o general romano Júlio Cesar, Felipe II da Macedônia e o imperador francês Napoleão Bonaparte usaram da frase “Divide et impera”, conhecida como tática milenar de guerra, para seus objetivos em conflitos para dividir as forças do inimigo e impedir que haja entendimento entre eles.
Não soaria como um absurdo ao dizer que os políticos brasileiros estejam utilizando da mesma tática contra a oposição e contra o povo também. Entre ataques feitos nas redes sociais ou pessoalmente, no fim das contas, quem sofre mais com isso tudo é a população brasileira.
Percebe-se que muitos deputados e senadores atuam aparentemente por benefício próprio. Utilizam a ideia de ajudar as pessoas pobres para, na verdade, conquista-los e manter a popularidade para uma eventual disputa nas eleições. Os cidadãos brasileiros são peças de tabuleiros, em que os ganhadores são os eleitos, enquanto os eleitores sofrem com as decisões pouco benéficas vindas de Brasília.
A política não é um assunto ruim. Na verdade, é um assunto fundamental que deve ser utilizado pelas pessoas em suas vidas, mas que é instruída de forma errada pelos políticos. A política vai muito além de apenas votar. Envolve realizações de projetos, ações sociais e manifestações, sempre com o intuito de levar benefícios para a sociedade.
Numa conversa sobre política mais se fala e pouco se escuta. Em muitos casos, evita-se escutar. Constrói-se uma parede e isolam-se das ideias alheias. E quando se poderiam compartilhar ideias para o bem comum, persiste uma rivalidade por um político que muitas vezes nem sabe que ele existe.
O político, seja do executivo ou legislativo, não deve ser tratado como divindade ou ser supremo. É somente um empregado do povo. Se estiver no cargo, foi graças ao povo. Logo, cada político, seja ele vereador, prefeito, deputado, governador, senador ou presidente, deve ser sempre cobrado.
Leia ainda de Silvan Cardoso:
- A saga da onça-pintada nas mãos do homem, o seu predador.
- Líderes e marionetes nas redes sociais: a era da imbecilidade digital.
Mas o que se vê hoje são pessoas idolatrando políticos, tratando-os como seres perfeitos e como se fossem os donos da verdade absoluta. Esses idólatras encaram firmemente em defesa de seus políticos, causando divisão na sociedade, quando a sociedade deveria se unir pelo seu próprio bem.
Os políticos simplesmente se aproveitam dessas brigas e divisões, que tem sido comum acontecer até mesmo dentro de uma família. Num ambiente desse não há como dialogar. Só é possível acusar. Os valores do povo são menos importantes que o bem estar de seu politico que, estando no poder, fica rico e não se importa com as condições financeiras dos seus eleitores.
Se entre pais e filhos há divisões por causa de política, imagina entre amigos. Uma pena que as pessoas se sujeitam a isso. Não tem como escapar: ou você se cala e não defende as suas opiniões, mesmo com embasamento, para não ser condenado moralmente pelas pessoas, ou você expõe publicamente o que pensa e se torna um vilão dessa história.

❒ Silvan Cardoso é poeta, cronista e pedagogo nascido em Alenquer, no Pará. Escreve regularmente no JC. Leia também dele: Alenquer, 143 anos: quem come seu acari não quer mais sair daqui. E ainda: Canhoto, o dono do lanche que virou point em Alenquer; vídeo.
— O JC também está no Telegram. E temos ainda canal do WhatsAPP. Siga-nos e leia notícias, veja vídeos e muito mais.
Deixe um comentário