
O caso da onça-pintada que teria devorado o caseiro Jorge Ávalo, de 60 anos, no estado do Mato Grosso do Sul, no dia 21 de abril, teve tamanha repercussão, que o animal chegou a ser até julgado por muitas pessoas nas redes sociais, como se a onça fosse um bicho maléfico e tivesse a mesma cognição dos seres humanos, ou seja, teria feito tudo de propósito.
Pior ainda é julgar uma situação da qual não se tem ideia de como aconteceu. Enquanto os policiais e biólogos investigam o caso, examinam o corpo do homem e o animal capturado, muitos internautas usam seus perfis para fazerem afirmações com tanta firmeza que outras pessoas vão seguindo pelo mesmo raciocínio, utilizando opiniões vagas, sem referência, sem fontes seguras, levando muita gente a seguir pelo pensamento errado.
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Mas é necessário entender a relação da natureza com o ser humano, sem ignorar como de fato é a importância da onça no mundo e como precisamos lidar com a realidade e a relação atual, de predador e presa, de cidade e floresta, em meio a essa grande transformação no planeta que aprendemos desde a sala de aula.
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Estima-se que 1.500 onças-pintadas tenham sido mortas nos últimos quatro anos no Brasil por meio das ações humanas. Essas perdas foram causadas principalmente pelo desmatamento e agronegócio, gerando grande preocupação entre os estudiosos. Esses dados foram fornecidos pela World Wilde Fund for Nature (WWF), uma organização não-governamental que se dedica à preservação da natureza.
A ONG Global Witness realizou um estudo entre 2022 e 2023, mostrando que esses felinos perderam ao longo da história cerca de 27 milhões de hectares de vegetação nativa nos estados do Pará e Mato Grosso. Só pra ter uma ideia, conforme o estudo, essa área é maior que a Inglaterra, País de Gales e Escócia juntos. Por que tudo isso? Voltamos repetir: por conta da ação humana!
Recentemente, a onça-pintada tornou-se um símbolo diante das grandes queimadas na Amazônia e no Pantanal, causando comoção nas pessoas e alertando sobre os problemas da destruição de matas nativas. Um caso famoso foi da onça batizada pelo nome “Ousado”, depois que teve todas as patas queimadas e foi resgatada por uma equipe de biólogos em 2020.
A onça-pintada, que também tem o nome científico Panthera onca, está no topo da cadeia alimentar, o que a torna ecologicamente importante. Sua ausência na natureza causaria um grande desequilíbrio ambiental, pois sem a onça, as suas presas teriam um aumento populacional significativo, prejudicando a sintonia da natureza e afetando até mesmo a rotina da sociedade humana.
De acordo com o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap), ligado ao Ministério do Meio Ambiente, existe um exemplo real de uma consequência relacionada à inexistência da onça-pintada no meio natural.
Foi um caso de fazendeiros da região oeste de São Paulo, que, em 2019, passaram a caçar e matar onças, porque elas estavam atacando o gado nas suas propriedades. Sem a onça como predadora, as capivaras, que tiveram um aumento populacional assustador, comeram várias plantações. Esse contato próximo aos herbívoros fez com que as pessoas tivessem aproximação do carrapato-estrela, que se hospeda na capivara, aumentando os casos de febre maculosa nas pessoas. Esse exemplo nos faz entender a importância dela para a natureza.
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Tratar uma onça, um jacaré, uma cobra ou uma aranha como “criaturas malígnas” não seria o adequado. Ao longo da história, pensadores refletiam sobre a diferença entre o ser humano e os animais, como o grego Aristóteles, que afirmava que o homem seria um animal político, dotado da palavra, da linguagem, diferenciando-se dos animais.
René Descartes afirmava que o ser humano, capaz de pensar, falar e movimentar-se de acordo com a sua vontade, teria uma alma, mas não os animais, já que essas criaturas desempenhariam apenas tarefas mecânicas.
Hoje em dia, afirma-se que o homem é unicamente racional, por atuar e fazer o que deseja por conta própria, e que os animais são irracionais, por seguirem um instinto, ou seja, atenderem a uma resposta automática vindo de sua natureza.
Embora esse assunto seja até hoje objeto de debate, por alguns estudiosos não concordarem que o ser humano seja o único racional na natureza, o que se sabe atualmente é que os animais não agem por maldade, inclusive os selvagens, e que não deveriam ser tratados como vilões ou serem demonizados, como se o ocorrido com o caseiro fosse um plano minuciosamente armado pela criatura de quatro patas.
O biólogo Gustavo Figueroa, da ONG SOS Pantanal, esclareceu em algumas reportagens que normalmente as onças tendem a fugir dos seres humanos e que esse ataque ao caseiro foi um episódio raro, já que as pessoas não fazem parte do cardápio do animal. Figueroa usou até as redes sociais para reforçar a importância de não tornar esse ocorrido um motivo de retaliação contra a espécie, fato esse que também é um crime.

A onça-pintada, junto aos outros animais silvestres, estão tendo os seus habitats destruídos e minimizando seus espaços de caça e convívio, o que chega a aproximá-la das pessoas. Em relação ao caseiro, viu-se que no lugar onde estava José Ávalo tinha alimentos para atrair animais selvagens, uma prática conhecida como ceva, ato criminoso e muito perigoso.
Mas outras situações podem ter sidos cruciais para o ataque mortal: a onça que atacou o caseiro é um macho, que estava pesando 94 quilos ao ser capturada, quando seu peso ideal deveria ser cerca de 120 quilos. O felino também estava desidratado, com deficiência hepática e com mau funcionamento dos rins. Uma hipótese é que a falta de presas na região fez com que o animal buscasse fontes alternativas de alimentos, chegando ao lugar onde estava o caseiro.
A onça-pintada foi capturada e encaminhada para o Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (Cras) de Campo Grande, onde ela está sendo analisada, em busca de desvendar o porquê de o felino ter atacado o senhor.
Informar-se sobre o assunto é importante para que as redes sociais não seja um lugar inteiramente de desinformação. A natureza segue seu ciclo, apesar das destruições causadas pelo homem no ambiente onde a onça precisa morar. E as pessoas precisam aprender a respeitar essa sintonia existente, buscando manter distância do mundo selvagem e a viver o seu próprio mundo.

❒ Silvan Cardoso é poeta, cronista e pedagogo nascido em Alenquer, no Pará. Escreve regularmente no JC. Leia também dele: Alenquer, 143 anos: quem come seu acari não quer mais sair daqui. E ainda: Canhoto, o dono do lanche que virou point em Alenquer; vídeo. Assim como: Benedicto Monteiro, 100 anos: saga política e literária.
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