por Célio Simões (*)
Toda vez que isso ocorria, eu o encontrava na labuta de seu ofício de hábil sapateiro, desses que não errava o molde, herdeiro de num tempo que a produção industrial ainda engatinhava e a exemplo dos alfaiates, as encomendas eram feitas sob medida, via de regra para uma freguesia exigente, ávida de maior conforto para os pés, que o furioso calor tropical punha um peso de toneladas entre o meio dia e às cinco horas da tarde.
Bati à porta, entrei, ele não deu bola; toda vez era assim… E só após acomodar-me por minha conta e risco sobre um tamborete, ele fez que se apercebeu da minha presença, descontraiu, contou “causos”, desfilou palavrões, xingou gente graúda metida a besta, enfim, exteriorizou sua conhecida irreverência.
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Nunca estranhei seu jeito peculiar de ser, pois sabia que lá no fundo ele era gente da melhor qualidade, apenas dizia na lata o que pensava e o que achava. E a sinceridade não tem preço. É detestável a bajulação barata, sempre um excelente lenitivo para egos superinflados.
Contou-me que tinha uma surpresa para mim. Falou de uma arma comprada recentemente, adequada para abater marreca ou pato do mato no entremeio do verão no Baixo Amazonas, quando os bandos se arriscam no meio da vegetação aquática em maturescência, antes que os lagos sequem definitivamente. Foi lá dentro buscar a maravilha e voltou com um sorriso, entregando-me o trabuco ainda sem munição.
Conhecedor de armas pelas muitas caçadas no Igarapé da Fartura, na Fazenda Capela, na Serra da Escama e no Lago Grande, vislumbrei tratar-se de um rifle calibre 22 de repetição que diferente das cartucheiras, exige do atirador firmeza na pontaria, principalmente a meia distância da imbiara, estando esta em movimento.
Revelei esse detalhe e ele, emburrado, tirou a arma da minha mão, foi lá dentro, guardou-a e não quis mais ouvir minha opinião sobre qualquer assunto relativo às caçadas que eu havia feito. Ato contínuo desafiou-me para uma pescaria.
Sem hesitar, aceitei. Era uma maneira de “fazer as pazes” com o amigo. Inicialmente sem entusiasmo, vibrei quando ele revelou que teríamos a companhia do “Binga” (Dr. Bernardo, atualmente um dos mais brilhantes médicos paraenses), craque de bola (como o pai) com quem eu jogaria disputados rachas em Belém, times formados em grande parte por atletas santarenos; e além de nós, César Lima, peladeiro habilidoso, o dono do barco, pessoa para mim até então desconhecida, salvo a referência de ser filho de Ciro Lima, empresário e cliente do BB. Dava para fazer um futsal…
Aquele tipo de pescaria era um achado: “currico”. Mais ou menos assim. O barco era posto em marcha lenta no azul celeste do Tapajós, braças de linha de nylon no reboque tendo na ponta a “colher” com os mortais anzóis disfarçados a desafiar a sanha dos tucunarés, que ludibriados se lançam em veloz perseguição do que lhes parecem peixes menores, um petisco!
Dia seguinte, tudo pronto. Anda pra cá, anda prá lá, quase uma hora rio acima e nada! A frustrada expectativa do mestre Balão só era percebida pelo leve balançar da cabeça, desaprovando ora o rumo, ora o barulho, ora a velocidade da voadeira.
O César, mão firme no timão do propulsor, se divertia à larga com as invectivas do Binga, esculhambando a falta de infraestrutura do barco: ausência de água e cerveja geladas, bancos confortáveis, de cobertura de lona para mitigar o sol a pino e muitos detalhes por ele propositadamente identificados. Fiquei me perguntando como podia aquela amizade aparentemente sólida, manter-se duradoura sob a cerrada descompostura do outro.
Tudo bem, fiquei na minha, até que um grito glorioso veio resgatar-me dos meus cismares. A linha do Balão ziguezagueava alucinada para daí a instantes surgir das maretas do caudal azul o belo peixe, o mais cobiçado de todos, fauces afogueadas como quem quer devorar o mundo.
Foi com estrépito que o colocamos dentro da frágil embarcação. Ainda sob o ímpeto do sucesso, continuamos para cima e para os lados do rio nossas incursões e a cada captura comemorávamos como se fosse um gol da Seleção Brasileira de futebol, até chegar a hora do consenso: continuar ou saborear num sossegado recanto de praia pelo menos um deles?
Nem houve divergência, tão expectantes estávamos com a iminente degustação de um tucunaré na brasa.
Que brasa? Naquela vastidão de praia estávamos nós, nossos tucunarés e o barco do César, carente da tralha indispensável para esse mister. Com cerveja não se assa peixe… Tentamos assim mesmo. Ao encostar a montaria num trecho deserto e mágico, após um banho mais que reparador para hidratar a pele crestada pelo sol, mestre Balão chamou a si a responsabilidade de cuidar dos peixes.
Fixei-me na habilidade com que executava a tarefa. Escamação completa, corte das galhas e da guelra, evisceração, parecia coisa de quem fazia isso todo dia, auscultando as profundezas do rio, os humores das correntezas, o mau humor dos remansos e o capricho dos rebojos. Gente tarimbada aquela, pensei… E os outros dois parceiros?
Continuavam a arengar, sob o sorriso complacente do César. Mestre Balão tomou-se de zanga e distribuiu as tarefas. Mandou, como quem costumava mandar, os dois procurarem pedras para improvisar um fogão; e a mim olhou, tirando-me da pasmaceira, indicando que eu deveria localizar galhos secos nas proximidades, para servir de lenha.
Andei pelos arredores e nada. A vegetação estava úmida, ainda matizada pelas flores do inverno, sem serventia. Andei bem mais longe e o surpreendente achado me fez vibrar, pelo sentido de utilidade que eu daria à faina: um grupo de farristas fizera a uns duzentos metros de onde estávamos um bacanal dos maiores em dias recentes e fora embora sem recolher os salvados de sua embriaguês, pois lá estavam um amontoado de galhos grossos e secos, gravetos de uma fogueira já extinta, garrafas da “maldita”, copos, pratos e vários talheres, alguns deles semienterrados na areia ou quase submersos porém visíveis pelo brilho propiciado pelo líquido azul do Tapajós.
Depois dizem que a poluição não tem lá suas utilidades…
Carreguei tudo o que pude. Fui ovacionado na chegada, até pelo Binga, coisa impensável… Lavamos tudo com muito cuidado e tenho esse momento gravado na memória, pois foi o melhor tucunaré na brasa que comi até hoje. Nada se compara a essa experiência, para quem se julga aprendiz de pescador, meu caso. Aqueles amigos haviam me proporcionado um dia incomparável com um programa aparentemente singelo, mas de grande significação para quem tem, no máximo, o insosso faz de conta do “pesque-e-solte” de minúsculas tilápias criadas com cocô de mosca nos arredores de Belém.
Não foi uma pescaria com o Balão; foi ela todinha do Balão, pois ele “sentia” mais do que via o lugar mais propício para os lances, a velocidade adequada do barco, o modo correto de fisgar sem perder a presa e já na praia, os múltiplos afazeres da piracaia.
Fui a Santarém recentemente. Época de cheia. Os pescadores urbanos enfileirados na amurada da orla faziam a festa colecionando à larga belos apapás que desarvorados, singravam o Tapajós em prenúncios de procriação. Lembrei minha tralha de pesca, enfurnada que ficou na despensa do apartamento. Dia seguinte, por especial mercê da Betânia Conrado, fomos ao mercadão comprar as iguarias somente encontradas na Pérola.
Lá estavam várias trempes com os ditos apapás assando, inebriando com o cheiro gostoso o ambiente aberto da feira e os carros dos bacanas encostando para comprar sua cota diária. Explicação da Betânia: “agora é praxe comprar já assado e levar para casa apenas para comer”.
Nunca mais falei com César Lima. Gente boa, alma de brisa, presumo e até desejo que continue levando uma vida sem percalços, com seu jeitão afável e sua voadeira pronta para incontáveis pescarias. Com o Binga (aliás, Dr. Bernardo Cardoso) o acaso me faz encontrá-lo quando em vez, pois suas atribuições de médico e pesquisador famoso no Pará, no Brasil e no exterior privam seus amigos de sua divertida presença.
Quanto ao mestre Balão – Enedino Cardoso, no Cartório – há alguns anos soube consternado que da morte já havia se libertado.
Como tantas figuras que marcaram a sociedade local, dele ficou a lembrança do cidadão de bem, irreverente, carismático, útil, prestativo, emblemático de uma época ainda recente, moldada por personalidades que pessoalmente conheci, mocorongos de berço ou de coração, como o versátil José da Costa Pereira (Zeca BBC), Joaquim da Costa Pereira (e suas fantásticas pescarias na “Anália”, onde eu ia a convite do estimado amigo Nivaldo Pereira, hoje empresário), André Teixeira, Eros Bemerguy, Emir Bemerguy, Wilde Fonseca (Dororó), Wilson Fonseca (maestro Isoca) e Laudelino Silva (os quatro últimos, a alma musical e poética de Santarém), Laury Wanghon, Antonio Anselmo d’Oliveira, Francisco (Gito) Colares, Dr. Amando Siqueira Cavalcante, Dr. Aluízio Melo, Dr. Pena, Dr. Everaldo Martins, Dácio Campos, Dário Coimbra, Manoel de Jesus Moraes, Aristeu Conrado, Armando do BB, o hiperativo garçom Ligeireza (Bar Mascote) e o próprio Balão, parceiro de uma única e peculiar pescaria, de muitos improvisos e excelentes resultados práticos.
Todos eles e tantos aqui não expressamente citados deram, antes de definitivamente partir, peculiar feição à sociedade local, plasmaram seus costumes, conceitos e valores, construíram e solidificaram os traços comportamentais da comunidade.
Nominando-os, encontro singela fórmula de burlar o olvido, esgrimindo minha arma mais eficaz contra o tempo – este que tudo atenua ou faz esquecer – chegando involuntariamente a uma conclusão capaz de merecer o raro fenômeno social da unanimidade: Os que amam Santarém não morrem. No máximo, adormecem pensando no Tapajós!
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* É Advogado e cronista. Membro da Academia Paraense de Jornalismo. Escreve regularmente neste blog.