Jeso Carneiro

Afinal, quem nunca errou que dê o primeiro like. Por Josué G. Vieira

Afinal, quem nunca errou que dê o primeiro like. Por Josué G. Vieira
Confession (2023), de Leo Symon

Já vimos ou veremos uma cena de um rosto ofegante, enquadrado por uma câmera trêmula, onde as lágrimas não se decidem entre cair naturalmente devido a emoção posta ou performar o estado dentro de um carro, no banheiro do trabalho, no quarto ainda bagunçado. Esse alguém que segura o celular como quem segura um espelho grava em voz baixa, com o olhar direto para a lente, e dispara: “Eu errei”; sem ou com edição profissional, sem figurino, com o roteiro da emoção exposta da culpa performada.

O cenário é sempre o mesmo, do outro lado da tela a plateia se acomoda silenciosa, julgadora, empática, contraditória; há os que comentam com raiva, digitando ofensas como quem deseja chicotear pela palavra; há os que oferecem emojis de abraço, como se o toque atravessasse a tela; e outros apenas assistem em silêncio e com o corpo todo, com julgamento nos olhos, com um leve desprezo nos dedos cruzados e uma compaixão desconfiada.

Nessa cena, o que temos é uma expiação moderna, onde o palco se confunde com a jaula e a plateia com o algoz ou domador, pois a confissão não é apenas individual, é também coletiva, pertence a todos os envolvidos naquele momento; porque cada vídeo criado com este fim carrega intimidades de cada um: o medo de errar, o desejo de ser visto, a esperança de que alguém compreenda.

Quando assistimos a esses vídeos compartilhados na internet no nicho das redes sociais, estamos consumindo e ao mesmo tempo coabitando uma história alheia com um chamado a decidir se essa dor é legítima, se esse arrependimento é verdadeiro; perdoamos? Ignoramos? Cancelamos?

Em tempos de “erro” transmitido ao vivo, o perdão depende do alcance da confissão pública nas redes, vale mais que um pedido de desculpas íntimo, pessoal, à dois, e significa mais do que um ritual de pertencimento, pois é um gesto desesperado de dizer que errar é humano, e nós, do outro lado, dizemos: “veremos…”.

Vivemos um tempo de curiosidade compartilhada, ou como se dizia: “de casas de muro baixo”; o arrependimento que antes residia nas frestas da intimidade, no sussurro ao padre, na carta nunca entregue, no travesseiro encharcado de silêncio, hoje ganha a luz do dia em alta resolução, com legenda e trilha sonora tocante.

Confessar deixou de ser um ato reservado para virar um gesto público, performado, moldado em formato de vídeo, a culpa agora tem enquadramento, o remorso tem luz natural. E a emoção se não for visível não vale o play, a rede não apenas assiste, ela valida, pois não basta estar arrependido é preciso convencer que se está.

O espaço da confissão foi redesenhado pelas arquiteturas digitais, a dor só é percebida se puder ser medida em visualizações, o perdão, esse antigo rito de reconstrução moral, tornou-se um produto condicional, depende do timing, da narrativa, da estética.

É como se a penitência tivesse virado entretenimento, um que precisa performar bem para merecer alguma compaixão, logo a moldura de um story é agora o “altar” onde o erro se “ajoelha”. Só que o perdão nesse novo templo não é dado por um Deus, é dado por um algoritmo que não perdoa por “misericórdia”, e sim por engajamento.

O mais intrigante nesse contexto é a existência de um tribunal “moderno” com a ausência de um juiz visível, porque não há martelo batendo, nem sentença lida em voz solene, há milhões de pequenos vereditos emitidos a cada curtida, emoji ou comentário; “Força, estamos com você” pode aliviar o réu por um instante; “hipócrita, isso é teatro” pode afundá-lo mais.

A justiça digital não se faz com base nas normatizações legis, mas nos impulsos de uma multidão que observa e julga rápido ao mesmo tempo, sem rito, sem contraditório, sem tempo para dúvida; e é essa velocidade emocional que transforma o feed num tribunal implacável do que qualquer corte institucional.

E o detalhe perturbador: não estamos lá apenas como espectadores, somos parte ativa mesmo quando fingimos neutralidade, pois um scroll é um gesto como também o silêncio; a cada exposição de erro ou arrependimento somos convocados pela moralidade líquida do nosso tempo a reagir.

Ao reagirmos projetamos algo de nós mesmos, nossa ética, nossas dores, nossos limites, ocorrendo algo de espelho no julgamento, já que diante da confissão do outro, nos perguntamos “e se fosse eu?” dentro de um tempo que não cabe pensar dado que a timeline não espera o processamento individual das dúvidas e assertivas.

Apology (2023), de Andy Valk

O que esse tribunal julga pode não ser apenas o erro em si, mas aquilo que desejamos ver punido ou redimido dentro de nós, o erro do outro se torna um catalisador para nossa própria fome de “justiça”, de “pertencimento”, até de “consolo”, o que parece julgamento pode ser, na verdade, uma busca coletiva por sentido.

Quando digitamos um comentário, estamos opinando sobre o outro, e quem sabe estejamos também, testando a elasticidade da nossa própria humanidade. Muitas vezes, não é apenas a verdade do outro, sim o quanto somos capazes de perdoar; e, sobretudo, de reconhecer que perdoar alguém é quase sempre uma tentativa de se perdoar um pouco.

Envolta em sombras brandas, a culpa possuía todo um cerimonial sussurrado, a vela acesa em sinal de contrição, o confessionário abafado por madeiras antigas, o bilhete amassado que nunca saía da gaveta. O perdão em tempos pré-internet, era um gesto que se dirigia a Deus, à mãe, ao melhor amigo, ou à própria consciência, tinha um tempo próprio, muitas vezes longo e silencioso.

Não possuía a dinâmica de um clipe, sim a dureza de uma travessia, e com a mudança de formato do mundo, a culpa, como qualquer outra narrativa humana passou a caber em vídeo, em carrossel de stories, em comentários fixados, o arrependimento virou post e as lágrimas transmitidas em tempo real performam outra coisa além do jogo físico entre culpa e arrependimento.

A dor vira conteúdo em que o sentir já não basta, é preciso mostrar o sentir de um modo que faça sentido para os olhos do outro, a culpa precisa ser convertida em engajamento, medida em visualizações, traduzida em linguagem emocionalmente performática.

Nesse novo cenário, o julgamento não se dá mais entre dois, confessor e confessado, mas entre o sujeito que se expõe e uma plateia pulverizada que paradoxalmente assume a posição de confessor coletivo. O outro desconhecido e múltiplo passa a ser o novo juiz, ora misericordioso, ora cruel, mas sempre atento.

O perdão se torna um bem raro e volátil, distribuído por algoritmos, sustentado por storytelling e vulnerável à maré das tendências, a culpa se encena, o perdão se negocia e o que antes era sagrado e íntimo, agora é performance em pixels.

Na onda de confissões digitais um fio ancestral se conecta aos mais antigos rituais de purificação e reparação, lembrando que toda sociedade em alguma medida desenvolveu formas simbólicas de lidar com a falha humana, do banimento tribal à confissão auricular, do jejum ritual à exposição pública.

Os autos-de-fé da Inquisição, por exemplo, por mais violentos e autoritários que fossem, revelaram uma dimensão coletiva do arrependimento, onde o erro era pessoal e ao mesmo tempo uma rachadura no tecido moral da comunidade. Por isso, a reparação precisava ser pública, encenada, dramatizada e o perdão moldava uma forma de reorganização do convívio social baseada na ideia de “dádiva divina”.

Four Hands (2001), de Bill Viola

Daí pensar que hoje, trocamos a praça pública pela timeline, a fogueira pela câmera frontal, a multidão silenciosa pela audiência que comenta em tempo real, no entanto, a dinâmica da purgação permanece a mesma. O sujeito grava seu vídeo de confissão dentro do carro, lugar que já virou espécie de “capela móvel”, e se dirige a uma audiência invisível, mas poderosa.

Os olhos marejados, a voz falha, e a tentativa de mostrar vulnerabilidade em alta definição dramatizam a culpa, há um esforço por transformar emoção em narrativa, narrativa em comoção, comoção em perdão, o feed é veiculo e templo onde se espera a absolvição.

O público substitui a função e a presença do sacerdote e da divindade, assume a função de uma entidade difusa, feita de arrobas, reações e algoritmos, que decide se o choro convence, se o pedido de desculpas soa verdadeiro, se há espaço para reintegração.

A verdade aqui se mede menos pela intensidade do remorso e mais pela potência da recepção num tempo em que a performance da falha não busca apenas aliviar a consciência, mas reordenar o lugar do sujeito no tecido digital da convivência que, como nas aldeias e impérios antigos, ainda exige seus rituais para voltar a aceitar quem saiu da linha.

O caso de Larry Froistad foi um dos primeiros a nos mostrar que o confessionário digital não é uma metáfora sobre o cotidiano, sim uma realidade multimodal em pleno funcionamento, em 1998, num fórum para alcoólatras ele admitiu que havia ateado fogo à própria casa com a filha pequena dentro; a declaração não veio adornada de lágrimas ou pedidos de clemência, mas ainda assim provocou comoção que logo ganhou os noticiários da vida real, após três membros do fórum denunciarem o post à polícia.

Logo após a prisão, o mais inquietante estaria por vir com uma discussão coletiva sobre o que fazer com aquilo, se perdoar, condenar, acolher, entregar; não era só uma questão jurídica, era uma questão moral em ambiente digital, porque o que significa confessar quando o confessionário é um grupo de apoio aberto ao mundo?

Décadas mais tarde, o youtuber James Charles reencenaria esse ritual à sua maneira, em 2021, diante de acusações envolvendo menores de idade, ele gravou um vídeo com título quase sacramental “Holding Myself Accountable” no qual reconhecia os erros, pedia desculpas e prometia mudar. O conteúdo, embora cuidadosamente editado, apelava a um tipo específico de empatia, a do espectador que, de algum modo, reconhece no outro o tropeço humano.

O gesto era de exposição, também de gerenciamento emocional e simbólico, o autor do vídeo sabia que não falava com um juiz, mas com milhões de olhos que iriam juntos decidir se sua falha cabia dentro da lógica do “todo mundo erra” ou se estava além da redenção possível.

E quando se “antecipa” a condenação pública e buscam uma instância transcendental? Wellington Menezes de Oliveira, autor do Massacre de Realengo, deixou vídeos e cartas com uma espécie de liturgia apocalíptica antes de seu ato; não apelava aos vivos, não pedia desculpas às famílias, às vítimas ou à sociedade.

Dirigia-se a outra dimensão, onde a culpa não precisava de like para ser computada, porém agregava em sua performance um gesto digitalmente teatral, porque o vídeo foi publicado, circulou, viralizou, ganhou lugar na iconografia dos crimes midiáticos, já que o algoritmo sem qualquer julgamento moral, tratou de entregar o conteúdo a todos os que clicaram, assistiram, reagiram.

Nos Estados Unidos, Antonio Hart levou o espetáculo da confissão digital a um grau alarmante, em janeiro de 2024 ligou a câmera do TikTok e ao vivo confessou múltiplos assassinatos enquanto mantinha uma mulher refém, a cena parecia roteiro de ficção, mas era real e assistida por milhares. Não houve pedido de perdão, houve uma exposição crua da dor, da violência e de uma mente que se mostrava à beira do colapso.

O público naquele instante era apenas espectador e testemunha involuntária, convocada a participar de um rito mórbido em tempo real numa performance de brutalidade sem mediação ética, jogando nas mãos da audiência o desconforto de presenciar o mal sem manual de instruções.

No Reino Unido, Simon Hall percorreu um caminho inverso, passou anos alegando inocência em um caso de assassinato até finalmente confessar o crime, sua retratação não aconteceu nas redes sociais, mas se desdobrou nelas. Fóruns, perfis e coletivos digitais que antes o defendiam com fervor tiveram que lidar com a queda do herói, o que se viu foi a construção de uma narrativa de redenção reversa, de inocente a culpado, onde a confissão não apagou o passado, mas exigiu uma reescrita coletiva de tudo que se havia dito antes; a rede, como espelho do coletivo, teve que aprender a perdoar não só o crime, mas também o próprio engano de tê-lo defendido.

Na Nigéria, Ogunnaike Philip filmou-se admitindo ser um serial killer e, num gesto dramático, pediu à polícia que o executasse, mais do que arrependido ele parecia exigir a própria punição, como se ela fosse o único modo de se redimir diante de si mesmo e da comunidade, o vídeo publicado no Facebook, teve forte repercussão local, não houve pedido de desculpas às vítimas.

Houve uma entrega direta e crua, um apelo a uma justiça sem rodeios, nesse contexto, o público assistiu a um homem que buscava expiação sem palavras doces, sem narrativa emocional refinada, mas com uma intensidade que confrontava os espectadores com o lado mais bruto do arrependimento.

Rebirth (2015), de Do Ho Suh

Nesse grande teatro digital do arrependimento, há uma camada menos trágica ocupada por influenciadores, figuras públicas e anônimos que após deslizes morais ou sociais, recorrem às redes para pedir desculpas e tentar reescrever suas histórias. Francisca “Frany” Pérez, acusada de aplicar um golpe na venda de ingressos para o jogo Argentina x Brasil, é um exemplo emblemático.

Em vez de negar, ela gravou um vídeo no Instagram assumindo a falha, pedindo desculpas públicas e prometendo “organizar a entrega”, a performance era simples, sem lágrimas forçadas, mas cuidadosamente moldada para acionar a empatia. A tentativa de reabilitação pública não aconteceu nos tribunais ou nos bastidores, foi diretamente no feed onde o juízo popular decide com base em views, comentários e, claro, a “energia do vídeo”.

E há os que retornam ao palco digital sem retratações explícitas, como Sikêra Júnior, após sofrer boicotes por falas misóginas e negacionistas durante a pandemia, o apresentador reapareceu nas redes com a mesma estética de sempre; não houve arrependimento performado, sim uma tentativa silenciosa de retorno.

O perdão não é pedido; é moldado por insistência, o público não julga apenas o erro passado, mas a ausência de reconhecimento, e mesmo assim, paradoxalmente, parte da audiência retorna, o que revela que, nesse tribunal emocional digital, o “esquecimento” também pode ser uma forma de perdão, ainda que involuntária.

Já Doja Cat, após se envolver em uma polêmica internacional com fãs paraguaios. optou por um pedido de desculpas sincero com timing calculado, primeiro reagiu impulsivamente, depois ameaçou abandonar a carreira e, por fim, recuou, trouxe palavras de reconhecimento e compromisso com os fãs, ressignificando o “erro” como ponto de virada.

Aqui, o “arrependimento” foi coreografado como enredo de superação, o “erro” foi colocado na vitrine como trampolim narrativo, e assim, o feed virou jornada, o “tropeço” virou capítulo, e o “perdão” virou temporada nova no seriado da persona digital. O perdão não é só emoção, é produto, é gesto político, é coreografia do possível em uma sociedade onde a salvação também precisa de engajamento.

Há um momento delicado e coreografado em que o cancelado volta, primeiro vêm os indícios, um story tímido, uma mudança na bio, um comentário em perfil alheio, depois o vídeo, nele geralmente há elementos recorrentes, fundo neutro, olhos marejados, respiração que hesita antes da primeira frase, ai sai a primeira fala à queima roupa: “Eu pensei muito antes de aparecer de novo aqui.”

O que se desenrola a seguir é uma tentativa de reconstrução da reputação, do próprio vínculo com uma audiência que o condenou, é nesse momento que as redes sociais deixam de ser arena de julgamento e se tornam um possível altar de reintegração simbólica, porque aquele mesmo feed que destrói, por vezes, acolhe; a “reabilitação” não é garantida, mas é possível, quase sempre passa por um roteiro emocional de reconhecimento, responsabilização e promessa de mudança.

James Charles, por exemplo, após acusações graves envolvendo mensagens com menores, retornou com um vídeo de fala direta, o tom vulnerável, e as palavras cuidadosamente escolhidas para equilibrar arrependimento e dignidade, ele pediu desculpas, assumiu a necessidade de mudança pessoal e institucional.

O vídeo viralizou não por ser bombástico, sim por tentar inaugurar uma nova versão de si mesmo diante da câmera. Alix Earle, envolvida em escândalos de racismo juvenil, também reapareceu com um texto emocional, pontuando o que aprendeu, o que mudou, o que lamenta, não foi um “perdão por conveniência”, mas uma tentativa de performar arrependimento como processo; e a lição que fica é que ambos entenderam, intuitivamente ou não, que existe uma “pedagogia do recomeço” para além das desculpas, focada na narrativa.

Confession (2023), de Sylwia Młodziejewska

Tal “pedagogia” é profundamente coletiva, não há padre, não há altar, mas há público, e esse público com seus dedos que deslizam, julgam e absolvem, se torna cúmplice de uma reconstrução pública, o perdão é dado em forma de comentários: “todo mundo erra”, “você evoluiu”, “estamos com você”.

A reintegração não depende de um único gesto, mas de uma série de pequenas demonstrações, vídeos subsequentes, ações concretas, uma postura diferente no trato com seguidores. A persona pública reaprende a existir no digital, e a audiência reaprende a confiar, no fim, o que se performa é um tipo de rito sem incenso, sem vestes brancas, mas com filtros; sem missa, mas com milhares de views; o “erro” vira episódio, o “pedido de desculpas” vira liturgia e o “recomeço” é um gesto social negociado entre sujeito, rede e comunidade virtual.

Apesar da distância entre um crime hediondo e uma piada de mau gosto, há algo inquietantemente comum em como os dois ganham vida (e morte) nas redes, ambos pedem plateia. Um assassino que confessa em vídeo e uma influenciadora que chora por tuítes antigos de cunho racista performam, em níveis distintos, a mesma estrutura narrativa, o gesto público de responsabilização sincero ou não, ritualizado ou não, que tenta transformar erro em enredo, e culpa em comoção.

O que os une não é a gravidade do ato, mas a lógica de exposição, a audiência como um novo corpo social difuso passa a ser quem decide se o arrependimento “pegou”, se a dor convence, se a punição já foi suficiente, porque não é o crime que pauta o juízo coletivo é a performance da dor, esse é o ponto cego mais fascinante do tribunal digital, não julgamos apenas o que foi feito, mas como foi narrado.

O sujeito que se mostra emocionalmente vulnerável, sabe utilizar os códigos do ritual, o vídeo no carro, o rosto lavado, a respiração entrecortada, ganha mais chance de ser perdoado do que o que tenta argumentar friamente. O espectador não busca justiça, ele busca sentido; sentido performado, o caso do serial killer que pede execução em vídeo pode ser, paradoxalmente, recebido com o mesmo envolvimento emocional que o caso da influenciadora que promete “aprender com o erro”.

A diferença entre brutalidade e deslize se esfarela quando entra no feed, o que interessa não é o ato em si, mas o arco dramático que ele permite, a confissão pública nas redes sociais é mais do que um ato de exposição emocional, é uma encenação complexa que dialoga com estruturas ancestrais de culpa, pertencimento e regulação moral.

Marcel Mauss, ao estudar os rituais de expiação, deixou claro que o perdão nunca foi um processo individual e silencioso, exige o olhar do outro, o gesto simbólico, a reparação visível, o sujeito que errava precisava ser reintegrado por meio de sinais que a coletividade pudesse reconhecer. No digital, essa lógica ganha novo formato, a tela se torna o tambor tribal, e os emojis, os novos gestos de acolhimento ou rejeição. Confessar é uma tentativa de reescrever-se diante da aldeia, só que agora, a aldeia é o mundo inteiro, e os códigos são likes, views, compartilhamentos e comentários.

Michel Foucault argumenta que toda confissão é também uma operação de poder, quem confessa se dobra a uma estrutura que o molda, o ato de dizer “eu errei” não liberta por completo, ele redefine o sujeito segundo a linguagem da norma vigente. Nas redes sociais, essa lógica permanece gerida por algoritmos em vez de juízes ou clérigos, o sujeito pede perdão não apenas ao outro, mas ao sistema que recompensará a vulnerabilidade bem coreografada com visibilidade, mostra-se dócil ao código moral de plantão, esperando em troca o retorno à vida pública, como quem cumpre penitência em praça digital.

David Le Breton, ao tratar da presença e da ausência nos rituais do corpo, ajuda a pensar essa cena em sua dimensão encarnada, a vulnerabilidade performada nos vídeos expressa no tremor da voz, lágrimas que descem, pausas dramáticas são coreografias da dor que visam restaurar o elo entre sujeito e coletivo.

É preciso parecer arrependido com os traços certos, abatimento, hesitação, humildade, o corpo se torna o texto do arrependimento e a sua credibilidade é medida pela reação emocional do público diante de uma dramaturgia moral, onde a sinceridade não é um sentimento interno, mas uma habilidade narrativa.

Forgiveness (2018), de Anastasiia Danilenko

Pierre Bourdieu nos lembra que os diferentes capitais simbólico, social, cultural influenciam diretamente quem tem o direito ao erro e quem não o tem, celebridades com capital acumulado conseguem voltar ao jogo com vídeos bem produzidos e campanhas de reabilitação. Já sujeitos comuns ou periféricos, quando erram, muitas vezes desaparecem em silêncio, sem a chance de um segundo ato, assim, mesmo que a confissão pública aparente ser um ritual democrático, ela segue obedecendo às hierarquias invisíveis do mundo social; a justiça digital, como toda justiça, também tem seus privilégios e seus esquecidos.

A régua do julgamento continua sendo social, o “erro” nas redes não é julgado apenas pelo ato cometido, mas por quem o comete, quem detém prestígio, fama, redes de apoio transforma o tropeço em oportunidade narrativa. Seu vídeo de desculpas vem acompanhado de trilha sonora, enquadramento cuidadoso, e uma equipe de gestão de crise, a vulnerabilidade é polida, ensaiada, e funciona, porque o público já está predisposto a “perdoar” quem tem crédito acumulado na bolsa emocional da fama, o “erro” vira parte da jornada do herói digital; cai, reconhece, e volta mais humano.

Por outro lado, o sujeito periférico, anônimo ou de menor capital cultural, não tem os mesmos recursos para performar o arrependimento com impacto, quando erra, sua narrativa não viraliza como redenção, mas como prova de falha estrutural, não há segunda chance, porque o erro não entra na categoria de “deslize”, mas de confirmação do preconceito.

Nesse jogo, a justiça digital se revela profundamente seletiva, pune sem critério universal, acolhe quem já está acolhido e silencia quem já era marginal, a arena das redes embora pareça aberta a todos, é atravessada pelas mesmas fissuras que moldam o mundo fora das telas. Assim, o que se apresenta como ritual coletivo de perdão pode ser na prática, apenas mais uma cena em que o privilégio ensaia sua sobrevivência com filtro e hashtag.

O que esse tempo digital nos revela com clareza desconfortável é que o erro deixou de ser sombra, tornou-se narrativa editável, não se tropeça mais no escuro, tropeça-se no feed sob olhos atentos sob comentários ágeis, sob corações vermelhos que ora condenam, ora consolam.

O erro é enredo com roteiros emocionais que variam conforme o capital simbólico de quem narra, e curiosamente, ao mesmo tempo em que isso pode parecer manipulação estética da dor, também pode ser um pedido desesperado para continuar fazendo parte do mundo. O perdão digitalizado carrega o antigo gesto de reinserção; é um ritual não só de limpeza simbólica, mas de reaparição, o sujeito volta à cena pública com a marca do erro, mas com a tentativa de reconstruir sentido.

E é aí que mora o paradoxo mais tocante, a internet como ambiente de espetáculo abriga uma espécie de esperança de que a performance da dor encontre eco sincero, que o “eu errei” dito entre soluços e trilha sonora não seja só um ensaio, mas um início, um gesto inaugural. Quando um desconhecido comenta “força” ou “tô com você”, está menos julgando e mais respondendo àquela pergunta que todos carregamos em silêncio: “será que, mesmo depois do que fiz, ainda posso existir entre vocês?”

Nesse gesto de acolhida digital por vezes automático, esconde-se um ato de micro-inclusão ritualizada; não é o esquecimento do erro, é o reconhecimento do humano. As redes, não são só vitrines de vaidade ou tribunais instantâneos, também são arenas de reinvenção, são confessionários públicos em que a performance e a sinceridade não se anulam, mas se misturam.

Porque quem pede perdão diante de uma lente pode estar, sim, em busca de engajamento, mas também pode estar pedindo um abraço, e isso diga mais sobre nós, espectadores, do que sobre quem tropeçou. No fundo, todos queremos acreditar que ainda há retorno possível, que ainda há caminho depois do erro; que a vergonha, quando compartilhada com coragem pode ser, quem sabe, o início de uma outra narrativa.

No fim das contas, entre a lágrima sincera e o enquadramento calculado, entre a justiça moral e os emojis de julgamento, o que realmente esteja em jogo não seja apenas o erro, mas o que fazemos com ele. As redes sociais, com todos os seus excessos, escancararam uma pergunta antiga com vocabulário novo: o que fazer com quem escorrega? O que fazer com quem volta, mesmo tropeçando nas próprias palavras?

Em vez de decidir tão rápido se perdoamos ou esquecemos, devêssemos experimentar algo mais simples e radical: ouvir; ouvir de verdade, com o tipo de atenção que não cabe num scroll. O segredo está em mudar o foco da punição imediata para o processo; do julgamento apressado para a escuta demorada; do “cancelar” para o “entender o que aconteceu”.

Por trás de cada vídeo de retratação, de cada post titubeante com olhos marejados, há alguém ensaiando um retorno; não à fama necessariamente, à dignidade, à possibilidade de continuar pertencendo. A internet virou um grande palco, sim; talvez isso seja um ensaio coletivo daquilo que chamamos de humanidade: falha, repete, reinicia.

E, nesse teatro digital, nem todo pedido de desculpa é performance, às vezes, é só alguém dizendo: “me dá mais uma chance para ser gente”. E é aí que mora o gesto mais generoso de todos, não o de passar pano, mas o de segurar a cortina enquanto o outro tenta voltar ao palco.

Às vezes trêmulo, às vezes exagerado, às vezes desajeitado, porém tentando, a pedagogia do recomeço não exige plateia perfeita, só um público disposto a acreditar que ninguém deve ser reduzido ao pior que fez. Que mesmo num feed acelerado, ainda há espaço para uma pausa, um silêncio, um recomeço.

Afinal, quem nunca errou que dê o primeiro like.

Forgiveness (2015), de Hannele Viljoen

❒ Josué Vieira, santareno, é professor, escritor, poeta e pesquisador sobre Sociedade, Cultura e Amazônia. Mora em Manaus (AM). Leia também dele: Katy, um reino além da consciência. E ainda: Desesperos, morte e silêncio na Colônia Vertical dos Perdidos.

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