
Quem sabe o futuro não comece amanhã, deve começar com aquela menina postando um vídeo de dança com o corpo coberto de jenipapo; ou, esteja no senhor que planta couve num quintal da quebrada, grava tudo em câmera lenta para o Facebook. Pensando bem, surja na moça de boina e crucifixo, que recita C.S. Lewis em vídeos curtos e cheios de luz amarelada; e pode estar no adolescente que borda com linha dourada a palavra “pátria” no moletom da escola.
Eis um fato inquestionável, o futuro não é uma invenção técnica, muito menos exclusividade dos profetas, passa longe de uma projeção dos laboratórios de inteligência artificial. Ele é tecido todos os dias, com palavras, gestos, danças, preces, memes, silêncios e hashtags, enche a tela disposta em nossa mão, trafega no toque, no fio, no desejo.
❒ Leia também de Josué G. Vieira: Algumas palavras sobre aquilo que nos faz continuar, mesmo quando já deveria ter acabado.
❒ E ainda: Saudade, o intervalo que respira na presença do invisível.
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Está sendo publicado nas comunidades online, nos pequenos vídeos que passam por nós com a leveza de uma ideia e o peso de uma identidade inteira. Cada postagem, imagem, frase breve é uma maneira, às vezes sussurrada, às vezes gritada, de dizer que faz parte de um processo construtivo de futuro.
Mesmo em desacordo, cada um assume função em polos opostos da cultura, postando porque querem significar; e se o amanhã é um terreno incerto, cada grupo planta do seu jeito sua semente, sua linguagem. Não é uma guerra de futuros, mas uma Babel de imaginações, uma polifonia de tentativas de dizer “eis o caminho”, ainda que por trilhas tão diferentes.
Não se pretende decidir qual dessas linguagens tem “razão”, apenas escutá-las, acompanhá-las como movimento de futuros em curso guiados pela memória, outros pela invenção, todos de algum modo, tentando costurar sentido entre as ruínas e as promessas do presente; porque se o futuro não será consenso, pelo menos seja conversa.
Se acreditamos que o futuro precisa ser pensado, por paridade, é verdade que há quem o esteja performando sem manifestos, planos diretores ou autorização das instituições; um celular na mão com conexão instável e um desejo de permanecer onde a história tantas vezes tentou apagar. Há futuros que não surgem das fundações do poder, mas das frestas onde a vida brota com estética, ritmo e verbo próprios.
Nas redes sociais, coletivos periféricos, indígenas, quilombolas e migrantes vêm utilizando o espaço digital para resistir e ensaiar o amanhã com riso, corpo, memória e invenção, conjugam o verbo pertencer no futuro. Os vídeos de @weeenatikuna (https://www.tiktok.com/@weeenatikuna), jovem indígena que mescla cantos tradicionais, coreografias pop e cosmologia TikTokável, poderiam soar como “espetáculo”, mas na virtualidade traduzem-se em afirmação ontológica de ser ancestral; ser agora.
Assim como a corporeidade vista pelo não-padrão, pela decisão, pela escolha, Katrina Oliveira (https://www.instagram.com/katrinacarvalhode?igsh=bjk4dTNhbTVscnI=) e Márcia Antonelli (https://www.instagram.com/marciaantonelli376?igsh=MWxudWR1M2o0MXR2dQ==) transformam seus perfis no Instagram em diário visual de ensaios fotográficos caseiros em que corpo, luz, roupa e citação se unem para se representar, e não pedir representação, bordam imagens de futuro com o que têm à mão: uma lente, um filtro, uma frase de autor famoso, um gesto que vibra entre a dor e o brilho.
Já os perfis Zefas Quilombo Urbano (PA) (https://www.instagram.com/zefasquilombourbano?igsh=MXEzdmZrNnN4ZGtvcA== ) e Quilombo Urbano de São Benedito (AM) (https://www.instagram.com/quilombourbano?igsh=MTc0ZzJqbTA4YzlwOA== ), registram práticas ancestrais, saberes culinários, celebrações de matriz africana e narrativas sobre o cotidiano que reencantam a noção de tempo e território. O futuro é um ritmo a preservar que se mede em partilhas, rezas, silêncio, cheiro de chão molhado; é a modernidade das raízes.
Memes Brasil (https://www.instagram.com/memesbrasil?igsh=bWt3azdkNWFtbzFm) ou Memes.com (https://www.instagram.com/memes?igsh=MWkzbHExZXcxMmduYQ==) elaboram memes carregadas de pulsação do porvir, fazem do humor um idioma popular de filosofia, riem da falta, zombam da cidade, tiram sarro das opressões sem banalizá-las; se a piada é boa, que seja depois da sobrevivência, porque quem sobrevive, ri. E quem ri, imagina; o futuro não é “explicado”, é zoado, depois bordado com a falta de paciência.
Sensoriais e afetivos, a estética do improviso, o corpo como argumento, a memória como matéria-prima, não estão preocupados em serem sistemáticos, mas em serem vivos, são projetos que não cabem em planos de governo, mas numa história contada pela bisavó, num penteado trançado no domingo, num vídeo de 15 segundos que carrega 500 anos de negação.
É política feita de gesto, são futuros que não querem o centro, sim o calor das bordas, não desejam a torre de controle, mas o caminho de trilha nova, andando, tropeçando, rindo, apagando e reescrevendo. É invenção como gesto vital, como modo de seguir sem mapa, porque quem já viveu sem lugar, aprende a fazer do tempo sua morada.
Nem todo futuro nasce inédito, há os que brotam da raiz, crescem devagar como árvores velhas que não mudam de lugar, são futuros que não desejam a ruptura, mas a preservação. Não querem inaugurar nada, mas restaurar o que foi ou o que se acredita que tenha sido, e hoje, como em outras épocas de incerteza, esses futuros ganham corpo, voz e rede.
Nisso, grupos conservadores e de direita têm ocupado espaços para resistir ao que vem e para propor o que deveria vir, porque não se trata de crítica ao presente, sim de anúncio carregado de convicção estética, moral e espiritual de uma ordem porvir. Em muitos desses grupos, o amanhã desejável é aquele que restaura vínculos, devolve o centro à família, a palavra à fé, o sentido à autoridade, performando uma tentativa de estabilidade diante de um mundo que parece ter soltado os freios.
Influenciadores como @nikolasferreira (Brasil) (https://www.instagram.com/nikolasferreira), Gordon Dan (Argentina) (https://x.com/GordoDan_?ref_src=twsrc%5Egoogle%7Ctwcamp%5Eserp%7Ctwgr%5Eauthor )e pensadores como Jordan Peterson (Canadá) (https://www.youtube.com/@JordanBPeterson) publicam diariamente conteúdos que afirmam o valor da tradição como eixo de futuro.
Seus vídeos são narrativas sobre o que seria possível construir se resgatássemos os alicerces perdidos da disciplina, da hierarquia, da família, da fé, da meritocracia e da pátria, o que cria um universo simbólico com estética própria, vocabulário recorrente e imaginário heroico.
Qual o @vox_es (Espanha) (https://www.instagram.com/vox_es?igsh=N2g2MGo0dzhrZnU= ), @actionzealandia (Nova Zelândia) (https://action-zealandia.com) e o movimento Netto-uyoku (Japão), compartilham imagens, músicas, memórias e cenários em que o futuro aparece como um mundo onde se volta a ter “raízes”, “valores”, “pertencimento”, “fronteiras” no sentido identitário, cultural, espiritual.
Ainda que haja derivações radicais, a proposta de futuro desses grupos se ampara numa ideia de que num mundo acelerado demais, a segurança emocional esteja no retorno a narrativas antigas, em vez de novas promessas incertas, como diz Roger Scruton, “ser conservador é amar coisas que o tempo já provou serem valiosas” e, portanto, merecedoras de futuro.
Por isso que o OGU (EUA) (https://oldgloryunited.com/ ) não estão em busca de novidade, querem ser parte de algo maior que o próprio desejo, desejam um tempo em que houvesse ordem nas coisas, que o teórico Patrick Deneen chama de “futuro reancorado”, menos inovação, mais comunidade; menos autonomia, mais enraizamento.
A primeira vista, a proposta de futuro dessas comunidades pode ser lido com a ideia de “regressão”, porém, em um mundo cada vez mais fluido em que tudo escapa, a raiz se transforma em metáfora de sentido, e fazem dela um norte num tempo que parece sem bússola, pois se a utopia progressista sonha com o que nunca foi, o sonho conservador deseja manter o que, para eles, jamais deveria ter deixado de ser.
Entre salmos, brasões, palavras antigas, normas eternas e fotos em preto e branco, há uma forma de esperança menos sonora, mais discreta, profundamente presente, porque sonhar um futuro não é prerrogativa de apenas um lado, o gesto de preservar é um modo de inventar, de recontar.
De um lado, corpos dançantes que carregam o peso do silenciamento e o traduzem em cor, riso, invenção, do outro, vozes que buscam reencontrar firmeza em palavras antigas, restaurar vínculos em ruínas, proteger o que consideram sagrado. Há mais em comum entre eles do que parece, pois ambos desejam existir e pertencer num amanhã que não os dissolva, que não os exclua, que não os apague.
Enquanto um jovem indígena edita vídeos para celebrar a língua ancestral que sobreviveu ao genocídio, outro jovem, cristão, posta versículos para resgatar o sentido de uma vida que ele sente estar desmoronando na pós-modernidade. E se uma travesti periférica performa beleza com uma câmera emprestada, reinventando o amor-próprio, uma mãe evangélica grava vídeos sobre a importância da família como refúgio espiritual.
São vozes de contextos diferentes que pedem para serem vistas sem ruído utilizando a mesma tecnologia, o algoritmo possa ser indiferente, mas o que pulsa atrás das postagens é tudo, menos indiferença. Em ambos os lados, o gesto de postar é um gesto de mundo, um grito existencial de “isso importa para mim”, “quero que o futuro me inclua”.

A linguagem estética é distinta, claro; vocabulário moral também, porém o desejo de futuro é igual em sua intensidade, um desejo de não ser descartável. É curioso e bonito que muitos desses futuros usem os mesmos ingredientes simbólicos, a imagem da raiz, a ideia de herança, a força do corpo, o valor da comunidade, são signos reencantados por sentidos diferentes, dizendo à sua maneira que o ser humano precisa de chão antes de levantar voo.
Vá que seja esse ponto que o debate público possa renascer, não a tentativa de convencer o outro, mas de reconhecer no outro uma mesma necessidade de sentido. O campo progressista costuma defender o futuro como abertura, já o campo conservador como continuidade, talvez estejamos todos tentando a mesma coisa por caminhos diferentes.
Dar forma ao amor e ao medo, amor pelo que fomos ou pelo que poderíamos ser, medo de sermos apagados na velocidade impessoal do mundo, logo o futuro é só um espelho do que temos coragem de imaginar e do que temos medo de perder, pois não se trata de buscar consenso, nem de diluir as diferenças, sim de lembrar que toda visão de futuro é no fundo uma tentativa de cuidar.
E onde há cuidado, pode haver conversa, porque enquanto uns pintam a aurora em cores novas, outros guardam a chama de um lampião antigo, e o que os une é o gesto de iluminar o que vem mesmo sem saber exatamente para onde se vai.
É possível acreditar que o grande desafio desse tempo seja aprender a escutar os tempos diversos com os quais o futuro tem falado, alguns falam como grito, outros como sussurro, uns se apresentam em dança e desejo, outros em doutrina e disciplina, mas todos, todos! Querem dizer algo sobre o que nos cabe ser quando o amanhã chegar.
Talvez nem devêssemos esperar que essas vozes se harmonizem em uníssono, a sociedade não é sinfonia de Beethoven, é mais roda de samba, às vezes desafina, improvisa, mas ninguém precisa sair para a música continuar, é nesse espírito que a delicadeza é um método de ler o outro até o fim, de não interromper o raciocínio alheio com nosso medo, de pausar antes de reagir, e de até duvidar de nossas certezas como forma de escuta ativa.
Apesar de tudo, as Redes Sociais são lugares de humanidade em fluxo, espelhos e portais, não devamos abandoná-las, sim reencantá-las, transformar o clique em pausa, o post em pergunta, o feed em fio. E se conseguirmos fazer da presença digital um ensaio de convivência, então o futuro que tanto buscamos está aí, não será um só, será amplo, quem sabe de todos.
Se há algo que o mundo precisa menos agora é de urgência ansiosa por respostas, ele precisa mais de interrogações lentas, ternas, radicais, que possam ser levadas no bolso como quem carrega uma semente e/ou uma granada; o amanhã nunca foi um lugar, é um gesto em movimento que não grita, apenas caminha ao lado.
O futuro é isso: um ensaio coletivo escrito com dedos trêmulos, cada frase é uma tentativa, um intervalo de escuta, há quem deseje o novo como quem dança sobre detritos, e há quem deseje como “idade de Ouro”, como quem acende velas em casa escura. Há quem diga “vamos” e quem diga “voltemos”, mas no fundo, todos querem chegar a algum lugar que valha ser habitado com dignidade.
Que não nos falte a disposição de caminhar lado a lado mesmo quando o mapa diverge; é menos ideologia e mais idioma, o que sustenta a ponte não é a tradução perfeita, mas a escuta imperfeita feita com desejo de entender, o amanhã não precisa ser unificado, basta que seja compartilhado. Para isso, o gesto mais radical hoje seja sentar com o outro não para convencer, mas para coabitar a pergunta, quando o amanhã não for consenso, que ao menos seja conversa, uma conversa aprofundada e viva.
E se for viva que não pare nunca!


❒ Josué Vieira, santareno, é professor, escritor, poeta e pesquisador sobre Sociedade, Cultura e Amazônia. Mora em Manaus (AM). Leia também dele: Katy, um reino além da consciência. E ainda: Desesperos, morte e silêncio na Colônia Vertical dos Perdidos.
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