
Há sentimentos que se moldam à boca de todos, e, outros que parecem sussurrados em certas línguas, como se carregassem segredos que não se entregam fácil, a saudade é um desses: não cabe em tradução, nem se explica direito. É palavra que leva no corpo uma casa inteira, feita de cheiros, rostos, gestos e tardes; não é ausência, tampouco nostalgia de vitrine, é uma presença fina que insiste depois que o tempo fechou as portas.
Ela segue viva num tempo que tudo quer ligeiro, o mundo corre para esquecer, a saudade permanece como lembrança que respira devagar, qual a quem recusa o destino de arquivo morto. Faz-se do que sobra quando o amor já não encontra mãos e ainda dá eco; é o “quando-passou”, brasa miúda de um fogo antigo que a gente não teve coragem de apagar.
❒ Leia também de Josué G. Vieira: Criadores e destruidores; visionários e nostálgicos.
❒ E mais: Ser Bastião: um testemunho em carne, câmera e alma.
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A saudade é um luxo íntimo, gesto de ternura fora de lugar, nome que a gente aprende a dizer com o corpo quando a fala já não dá conta. E o mais bonito é perceber que ela não mora apenas no que se foi, também naquilo que ainda está por vir; uma forma delicada de continuar amando quando o tempo já tentou seguir; silêncio bom, riso que vem sem porque, cuidado distraído.
Nesses dias de qualquer rotina os sentimentos andam sob rédea curta, há um roteiro tácito para o que se deve sentir; chorar demais é fraqueza, lembrar demais é atraso, amar é descontrole. O mundo pede leveza programada, felicidade de vitrine, superação com prazo de validade. Byung-Chul Han em A sociedade do cansaço (2015), diz que estamos imersos numa era onde a positividade é dever compartilhado, os afetos precisam produzir, render, passar, não há espaço para a demora, para o que se arrasta ou insiste. É preciso virar a página, mesmo sem ter lido direito.
E é nesse contexto que a saudade brilha em desacato silencioso, assume a função prazerosa de não render, de desobedecer a prazos sem pedir licença. Instala-se devagar, como quem conhece a casa, ocupa o tempo com a delicadeza de quem sabe que não será bem-vinda, se revela como uma espécie de insubmissão íntima: recusa-se a partir só porque mandaram seguir em frente, carregando consigo uma forma de resistência não barulhenta, de quem ainda sente quando o mundo já parou de olhar.

Boaventura de Sousa Santos, em A Crítica da Razão Indolente (2000), nomeia de “epistemicídio” o apagamento sistemático dos modos de conhecer que não se alinham ao padrão da razão ocidental do que deve ser provado, medido e quantificado. O resto é deixado de lado, como os saberes indígenas, afro-brasileiros e populares, pois “pertencem” a um tempo superado ou a uma sensibilidade infantilizada.
O mesmo ocorre com sentimentos que não obedecem à lógica da performance: se não se resolvem rápido, se não produzem resultado, são descartados como “inúteis” ou “problemáticos”. É nesse vão que a saudade e os saberes ancestrais se encontram revestidos de persistência e de silêncio habitado.
São como rios subterrâneos que continuam correndo por dentro, mesmo quando a superfície é seca, os dois são guardiões do que não se pode dizer com pressa: a saudade guarda afetos, os saberes guardam mundos. E por mais que o tempo moderno tente domesticá-los, ambos resistem com presença, de quem lembra que existir é também um modo de continuar ecoando aquilo que tentaram calar.
A saudade nas belas-letras se inscreve como marca de um tempo que se esfarela, é vestígio e voz de um mundo que já começou a desaparecer. Na obra Invocação à Saudade (1858), Bernardo Guimarães a nomeia de figura viva que pode ser chamada de deidade íntima que dialoga com a ausência, como que a saudade fizesse parte da casa.

Já em Só (1892), António Nobre eleva a saudade a matéria de identidade, faz dela a espinha melancólica de uma nação em suspenso. Portugal, em sua escrita, não é apenas um país: é um corpo ferido que ainda carrega sonhos imperiais enquanto observa resignado o avanço impiedoso da modernidade. A saudade é apresentada numa espécie de pátria interna, um lugar emocional onde abriga o que não coube no futuro; que mantém a poesia de pé, mesmo quando o chão histórico se desloca.
Mais adiante, no “Livro de Sóror Saudade” (1923), Florbela Espanca corporifica a saudade em carne, rosto, desejo e ferida, transforma o sentimento em matéria íntima, violenta e feminina. Os sonetos sangram numa intensidade que atravessa o papel, a saudade é o que sobra quando o amor explode dentro de um corpo que não encontra espaço para existir inteiro. É o que permanece depois do grito, emoção que escapa às convenções do amor bem-comportado, e se firma como presença impura e verdadeira.
Possivelmente, ninguém tenha escutado a saudade com tanta profundidade quanto Eduardo Lourenço em O Labirinto da Saudade (1978), para ele a saudade é mais que um sentir, é arquitetura psíquica de um povo, traço íntimo da identidade marcada por um apego ao que já foi mais do que pelo desejo do que virá. Sua leitura não se restringe à história lusitana, sugere que há existências moldadas por um passado que não se retira, que sopra continuamente sobre o presente como uma brisa de origens, feita de silêncios, gestos e ecos que não cessam, que se recusam a seguir sem levar consigo aquilo que já foi vivido.
No romance Saudade (2018), de Suneeta Peres da Costa, a infância narrada em português por uma menina em Angola, nos anos 1960, é uma travessia afetiva marcada pela diáspora, pela colonização e pela sensação de não pertencer plenamente a lugar algum, a saudade, não surge como lamento, mas como fio de costura entre línguas, territórios e memórias esgarçadas; é o idioma íntimo de quem cresce em meio à descontinuidade, carregando fragmentos de mundo no corpo e tentando, com eles, formar uma casa, portanto, a saudade é sobrevivência emocional, memória viva do que ainda quer ter forma.

Na mesma direção, a graphic novel Saudade (2018), de Phellip Willian e Melissa Garabeli, transforma a perda em silêncio visível, os traços, as pausas entre quadros, parecem conter aquilo que não pôde ser dito, ainda assim insiste em aparecer. O luto não grita, sussurra e a saudade torna-se matéria de criação, mostrando que a saudade é também uma forma de resistência estética, uma maneira sensível de denunciar o tempo que apaga, o território que se perde, o corpo que se desloca, oferecendo caminhos de reinvenção como delicada reinauguração do sentir.
A psicologia contemporânea tem lançado um olhar mais gentil e profundo sobre a saudade, desatando-a do estigma de fraqueza emocional, que longe de ser uma patologia, e próximo de um traço afetivo estruturante em contextos de ruptura e deslocamento.
Félix Neto, em The Experience of Saudade (2020), mostra que a saudade está intimamente ligada à autoestima, à coesão identitária e à profundidade dos vínculos, a exemplo, entre migrantes, exilados, pessoas que abandonaram terras e rostos, pois essas vidas atravessadas pela ausência, a saudade ancora, oferece um eixo interno de continuidade quando tudo ao redor se transforma.
Já no estudo Longing is Good (WEGNER et al., 2024) propôs uma guinada terapêutica: a saudade pode ser fértil, nutritiva, até mesmo generosa, quando funciona como um repositório emocional de tudo que valeu a pena viver, e que, por ter sido amorosamente guardado, pode ser fonte de força e de sentido, que em vez de perpetuar a dor, a saudade alimenta a memória com esperança, como quem acende uma luz pequena, constante, dentro de si, para lembrar que sentir falta também é uma forma de continuar cuidando.
A saudade quando irrompe, não é apenas lembrança, é atualização sensível de algo que parecia encerrado, mas que volta a nos habitar de maneira inesperada, como se o tempo curvasse suas linhas retas e nos deixasse tocar com os dedos a brisa leve do que já fomos, assim aceitar que há pedaços nossos que ficaram pelo caminho como fundamentos daquilo que somos agora. Sentir saudade é reconhecer que há vestígios que não queremos apagar, porque neles repousa a textura mais íntima da identidade.
Enquanto tudo ao redor apela por desapego e leveza, ela sussurra que lembrar ainda importa, que sentir ainda vale, e isso é o antídoto sutil contra o esquecimento automático, contra o riso forçado, contra o vazio elegante da indiferença. É o silêncio que sabe esperar, o amor que não precisa ser correspondido para continuar sendo amor; é uma maneira delicada e profundamente humana de continuar amando depois do fim.
É revolucionário, porque em tempos de indiferença programada e de algoritmos que nos ensinam a esquecer, sentir saudade é insistir num vínculo que não pode ser deletado; confissão e abrigo, a saudade funda uma ética relacional do tempo, não nos obriga a retornar, mas a reconhecer que algo em nós permaneceu mesmo ido embora.
E reconhecer exige coragem e cuidado com o que se perdeu, o que foi arrancado, o que não teve desfecho, por isso, a saudade se aproxima do conceito de re–existência, como propõe Catherine Walsh em seus escritos sobre epistemologias insurgentes. Sentir saudade, é uma forma de continuar existindo com o que foi ferido, sem necessariamente curar ou apagar, é sustentar a ferida como memória viva, como presença que ancora e ainda pulsa.
Ela se basta emoção, reminiscência, no que o corpo ainda lembra mesmo que o mundo insista em esquecer, por isso sobrevive. Assim, quando Ganymédes José, em A Ladeira da Saudade (1983), escreve sobre a juventude, o amor e a memória em Ouro Preto, ele não está apenas narrando um romance adolescente, mas oferecendo ao leitor um modo de reconciliação com aquilo que já não está diante dos olhos, mas que ainda sustenta a paisagem interna que impede o esvaziamento de si.
A saudade se inscreve como uma fresta no tempo, um registro sensível da experiência que se recusa a seguir o ritmo do mundo, tudo ao nosso redor exige resposta imediata, atualização constante, movimento contínuo, ela faz o oposto: oferece pausa, um intervalo, espaço entre o que passou e o que ainda virá, onde se respira, se escuta e, sobretudo, se sente.
Longe de aprisionar no passado, ela salva o presente da indiferença, impede que os dias se tornem apenas sequência, que as histórias virem apenas cronologia, pois ao lembrar com afeto, reativamos o que tem importância, costuramos os fragmentos do vivido, damos corpo ao que poderia ter sido esquecido. Sentir saudade é, assim, um modo de devolver espessura ao tempo, de transformar memória em presença.
É por isso que sua força é também política, já que nos convida a outro pacto: o da permanência, um gesto de peso, gravidade emocional que nos ancora, faz lembrar que o que vivemos importa com intensidade, verdade, presença como uma raiz silenciosa que nos impede de flutuar sem direção.
Nada seja mais necessário hoje do que essa forma de afetividade densa, sem vergonha do tempo e da memória, a saudade diz que lembrar é também zelar, que o que nos marcou merece ser guardado. E assim, mesmo sem pedir licença, ela segue conosco, para nos lembrar de como foi bom estar vivo, mesmo quando dói.

Sem alarde, entendemos que a saudade não finda, se camufla, troca de pele, se esconde nos gestos cotidianos, muda de tom conforme a estação; um dia parece esperança, no outro se veste de silêncio, às vezes passa por cuidado, por espera mansa, por uma ausência que já não dói, mas que ainda mora. É sempre ela, ainda ela, aquela falta que aprendeu a ficar mesmo quando tudo o resto foi embora.
Porque há uma saudade que olha para trás, é aquela que sentimos do que ainda não chegou, do que sonhamos sem pressa, do que desejamos com a ponta dos dedos sem saber se um dia virá; feita de pressentimento, de futuro intuído, de vazio doce. Ela mora no modo como observamos uma estrada, no silêncio que precede um nome que ainda não foi dito, na ternura com que se deseja um rosto que nunca se viu, essa saudade do porvir não machuca, sim pulsa delicadamente como quem ensina o coração a esperar.
E quando a escutamos com mais cuidado, ela nos revela algo ainda mais sutil: que o tempo não é linha reta, é curva, espiral, dobra; o que foi retorna disfarçado, e o que virá já nos toca por dentro. Há dias em que a saudade que sentimos não tem nome nem endereço, de quem ainda não conseguimos ser, de uma versão que se insinua nos gestos, mas ainda não encontrou morada. É uma ausência em construção, um vazio cheio de possibilidades.
No fundo, ela não some, apenas se transforma num cuidado que não se explica, num olhar que demora mais do que o necessário, numa gentileza sem razão. Quando se cala, é só porque amadureceu no escuro e decidiu ficar de outro jeito, e assim seguimos, entre o que já foi e o que talvez será, com esse sentir sem tradução nos atravessando feito brisa leve que nunca parte, uma luz acesa no corredor da alma, para que nunca nos esqueçamos de onde viemos, nem do caminho que ainda falta amar.


❒ Josué Vieira, santareno, é professor, escritor, poeta e pesquisador sobre Sociedade, Cultura e Amazônia. Mora em Manaus (AM). Leia também dele: Katy, um reino além da consciência e Morar em movimento: quando o lugar bruma e a Terra já não guarda nossos nomes. E mais: Desesperos, morte e silêncio na Colônia Vertical dos Perdidos.
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