Belas mentiras de estimação: estética, performance e disputa na Amazônia digital. Por Josué G. Vieira

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Belas mentiras de estimação: estética, performance e disputa na Amazônia digital. Por Josué G. Vieira
A conquista do Amazonas (1907), de Antônio Parreiras

A imagem contemporânea da Amazônia não é menos ficcional que suas predecessoras barrocas, operada agora sob a lógica dos dados, da performatividade e da viralização. Se antes os mapas eram adornados com monstros e promessas de El Dorado, hoje são os algoritmos que delimitam os contornos do imaginário.

A floresta se torna marca, selo, conteúdo, seus rios se convertem em plano de fundo para vídeos de denúncias urgentes ou selfies ecoéticas, e o indígena antes silenciado, hoje instrumentalizado, aparece como avatar de um novo tipo de consciência global que raramente lhe pertence; é o mito da salvação da natureza reciclado em pacotes de storytelling ecológico, servindo tanto à culpabilidade das metrópoles quanto ao mercado da compaixão digital.

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O que vemos agora é uma atualização hipermidiática da floresta amazônica como palco de disputas em alta velocidade, onde ONGs, influencers, políticos e bots disputam o protagonismo de uma narrativa de redenção; neste novo teatro, o olhar do colonizador não desapareceu, se disfarçou de engajamento virtual.

Por trás da estética do drone e da trilha sonora sensível de vídeos bem editados, se camufla a mesma lógica extrativista que transforma a dor em cliques e a biodiversidade em monetização do símbolo. Nisso, os corpos que não se encaixam na narrativa redentora, os povos que resistem sem romantismo, as lutas que não cabem nos filtros são silenciados, um desaparecimento seletivo em que aquilo que não performa bem para a audiência global simplesmente não existe; é reconfiguração do sensível e a administração da atenção como uma forma de poder

Como sempre foi, a Amazônia se transforma em tela interativa de uma civilização projetada de fora para dentro, agora em vez de engenheiros, vêm programadores; em vez de linhas telegráficas, cabos de fibra óptica; em vez de seringais, servidores de dados. A “mentira”, nesse contexto, é um dispositivo de ocupação do imaginário, e quando “belas mentiras” viram de estimação serão disseminadas em nome do bem, do trabalho, do planeta, da natureza.

Quando as “mentiras” deixam de ser enganos e passam a ser verdades confortáveis compartilhadas deixam de ser percebidas como “mentiras”, modificam-se em princípios morais, causas justas, bandeiras inquestionáveis, bem-comum, desenvolvimento. A criação de uma “Amazônia digital” é comprometida por discursos salvacionistas adornados por boas intenções, repetindo gestos coloniais de tomada e controle.

Aqui a “mentira” não precisa mais se esconder, precisa se vestir de cuidado e civilização, hashtags contra-ambientais e campanhas com estética civilizatória e vocabulário da empatia. Esse epistemicídio suave sufoca narrativas locais sob o peso daquilo que o Ocidente quer ouvir, a floresta não pode falar com sua própria voz, pois já está falada por discursos hegemônicos que a nomeiam, salvam, editam, compartilham.

O que se espalha é uma compaixão vigilante, do bem-estar do planeta associado ao desenvolvimento invocado como mantra, em que os sujeitos amazônicos seguem submetidos ao papel de figurantes na dramaturgia do ambientalismo global. A “Amazônia digital” torna-se um campo minado disputado entre os promotores do bem e os sobreviventes do mal performados em tempo real, daí, o desafio não é apenas desmontar as falsas narrativas, mas desprogramar a sedução que elas exercem por trás do desejo de salvar a floresta.

Mary Louise Pratt em Os Olhos do Império: Relatos de Viagem e Transculturação (1999), apresenta o conceito de “zonas de contato” para descrever os espaços em que culturas desigualmente posicionadas se encontram e se negociam, em sua maioria os “contatos” são sob o signo da dominação. A Amazônia no cenário digital é floresta em hashtag, filtro estético, moldura para campanhas de marketing verde, a zona de contato é o feed globalizado de narrativas locais simplificadas ou substituídas por versões exotizadas que tranquilizam a consciência de quem está longe e no controle do discurso.

Belas mentiras de estimação: estética, performance e disputa na Amazônia digital. Por Josué G. Vieira
A conquista da Amazônia (1968), de Benedicto Mello

Essa encenação discursiva repete a antiga tradição das “literaturas de viagem” e das crônicas coloniais, nas quais o colonizador narrava o Outro como projeção de seus próprios valores e temores, a dominação não é exclusiva ao uso de baionetas, basta uma bela curadoria do visível.

As fake news que circulam sobre a Amazônia, desde conspirações de queimadas causadas por indígenas até discursos de que a região precisa ser internacionalizada, não são apenas “mentiras”, são exercícios intelectivos grupais de hierarquias de poder capital e cultural de tornar a floresta habitável enquanto metáfora, calada em sua complexidade e com as vozes locais suspensas, porque o que interessa é o verde e não as vidas mantenedoras dessa cor cobiçada.

Esse processo opera por meio de uma despolitização pela estética, pela imagem performática, simulada; transforma a Amazônia em paisagem de fundo para campanhas ou enredo de vídeos emocionais, esvaziando a potência representativa de suas populações, a floresta é salva, mas seus povos seguem sem acesso à palavra plena.

Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro apontam para esse debate em Há Mundo por Vir? (2014), quando criticam a ideia de que a natureza precisa ser redimida apenas pelo Ocidente, como apenas ele tivesse as ferramentas éticas, tecnológicas e morais para salvá-la. O Norte Global e os centros urbanos brasileiros continuam operando como curadores de um museu verde que precisa permanecer intacto, desde que mediado por suas lentes.

Como zona de contato algorítmica, a “Amazônia digital” dramatiza a disputa epistemológica quando permite o privilégio de certas narrativas sobre outras. Enquanto pesquisadores, artistas e habitantes da floresta oferecem versões densas e plurais de seu território, suas vozes são sistematicamente apagadas ou transformadas em personagens secundários no espetáculo do ambientalismo mainstream.

Não é apenas descolonizar o discurso amazônico sobre seu território por meio de uma revisão terminológica, há a urgência de uma agenda contra a gramática do exotismo e da tutelagem histórica que reduz a floresta a pano de fundo de aventuras civilizatórias. Disputada em um safari, a Amazônia enquanto sujeito silenciado pelo mercado do espetáculo civilizatório, precisa recuperar o fôlego de sua linguagem viva, polifônica e insurgente, e produzir suas narrativas, seus mundos, seus tempos.

Desarmar as belas ficções é reconhecer a Amazônia um corpo falante, denso de memória, ferido por séculos de traduções impostas, permitir que ela diga a si mesma sem a mediação hegemônica travestida de desenvolvimento e sustentabilidade, que continua perpetuando a lógica colonial sob novas roupagens verdes.

É recusar o discurso que estetiza a destruição e transforma o “progresso” em slogan substituto das vozes da floresta, epistemologias encarnadas em práticas, narrativas e ritmos que desafiam a linearidade desenvolvimentista, desmantelar os ventríloquos do capital verde exige mudar a narrativa e infiltrar-se nela, desacreditar acreditando nos enredos de dentro, corroer a lógica da salvação com a própria linguagem que ela venera.

A Amazônia não precisa ser escutada como súplica, mas performada como ruído imprevisto no coração do sistema, presença que mina a delicadeza insubordinada, os scripts que tentam representá-la; permitir que sua existência desconfigure as formas de crença, ocupando os discursos como se ocupam ruínas com outras possibilidades de mundo.

Belas mentiras de estimação: estética, performance e disputa na Amazônia digital. Por Josué G. Vieira
Paisagem amazônica (1987), de Moacir Andrade

As fake news que circulam sobre a Amazônia não se limitam a manipular fatos isolados, elas constroem ecologias imaginárias de poder projetadas para alimentar desejos coloniais sob nova roupagem, como narrativas digitais embalam o desmatamento epistêmico de discursos sociais, travestindo a exploração em salvaguarda. Ao operarem como engenharias do sensível, essas mentiras moldam afetos, determinam o que deve comover, o que deve gerar indignação global e o que deve permanecer invisível, inventam selvas encantadas para camuflar a violência cotidiana que resiste sob o verde photoshopado das imagens virais.

Essas belas mentiras de estimação como fantasia de fazer civilização desloca as picaretas e as ferrovias para a linguagem do marketing de causas, seus heróis vestem camisetas descoladas, seguram celulares com boa câmera e sinal, fazem das hashtags como os missionários faziam das cruzes plantadas no meio da floresta, territorializam o afeto do imaginário global, ganham grana e esterilizam o lugar e sua gente em um pano de fundo genérico do anonimato.

A floresta vira vitrine de engajamento digital, medida em likes e campanhas, o progresso veste a fantasia do cuidado, do autossustento para legitimar o apagamento do que para interrompê-lo. Já os algoritmos, como cartógrafos do olhar, filtram as Amazônias, privilegiam o encantamento em detrimento do enraizamento, promovem histórias espetaculares de animais exóticos, indígenas idealizados ou queimadas apocalípticas versiculadas em trechos bíblicos com mais fluidez do que estimular denúncias estruturais sobre esses crimes, desprezam as lutas concretas e as vozes que falam de dentro.

A floresta passa a brilhar plastificada em pixels e filtros que disfarçam a dor com beleza compartilhável, a devastação digital sem motosserras ou queimadas visíveis é uma forma sofisticada de apagamento, domesticam o trágico, vídeos que edulcoram a luta, narrativas que recortam o real para caber no tempo de atenção do feed.

O perigo está justamente nessa sutileza que parece informar, emocionar e conscientizar, essa estética do impacto rápido transforma a resistência em espetáculo, a dor em engajamento digital e a complexidade em slogans de campanhas de fora para dentro. O resultado é uma floresta simulada para o mundo enquanto sua materialidade se esvai anestesiada pelo encantamento, confundindo empatia digital com presença e compartilhamento com transformação.

A Amazônia é ventríloqua forçada, por séculos falaram por ela e o que se ouviu foi o eco dos interesses que nela se projetaram, desde as cartas dos cronistas coloniais até os roteiros dos documentários mais recentes, a floresta foi menos escutada do que legendada; suas imagens foram sempre dobradas por uma legenda alheia em língua de fora, carregada de promessas e temores civilizatórios.

Na era digital, esse processo se acelera em novas plataformas, carrega os mesmos vícios, as mesmas narrativas sobre a Amazônia preocupadas em comover plateias do que em complexificar o real, a floresta permanece como diria Eduardo Viveiros de Castro: “objeto de tradução”, raramente sujeito de sua própria tradução.

Contudo, há vozes que se movem entre os interstícios das hashtags, que não obedecem ao enredo salvacionista nem ao roteiro do colapso, quando artistas como Denilson Baniwa ironizam o exotismo como mercadoria, ou quando lideranças como Alessandra Korap constroem falas políticas que não se explicam ao olhar branco, algo muda, a Amazônia passa a escapar da gramática do espetáculo.

Série Amazônica nº. 8 (1968), Ivan Serpa

A floresta já não se oferece como paisagem contemplativa, sim como campo de disputa epistêmica e isso desorganiza, porque desestabiliza a ideia de floresta e o lugar de quem a enuncia. A autoridade simbólica muda de mão, o desconforto no mainstream cresce, pois, uma Amazônia que fala por si não é facilmente estetizável, nem plenamente rentável, ela interrompe a economia da comoção exige escuta desacelerada e não se encaixa em thumbnails.

Ela recusa o papel de fundo verde para causas genéricas quando ocupa o centro do enunciado, desmonta o dispositivo colonial de representação, transforma territórios vivos em zonas de contato colonizadas pelo olhar de fora, uma Amazônia que se narra a partir de dentro não é a denúncia que ela traz, mas o fato de que ela não mais se deixa traduzir sem negociar sentido.

Essa autonomia narrativa é o ponto de mutação, reconhece sua pluralidade, sua fluidez, seu direito de ser metáfora de si mesma, em vez de uma alegoria do mundo que os outros querem salvar, ela se torna linguagem viva que se reinscreve, se reapropria, se refaz. E talvez seja exatamente aí que devamos desaprender as histórias confortáveis que contamos sobre ela, para então desmontar as crenças que fingem salvá-la, desacreditando-as com a mesma fé performada que as sustenta.

O gesto narrativo que brota do chão da floresta não se esgota nas palavras, ele vibra em grafismos, cantos, vídeos em baixa resolução, transmissões ao vivo em idiomas nativos, e corpos que se inserem nas redes para reverter o espelho, nesse campo expandido de enunciação se inscreve a insurgência dos comunicadores indígenas da Rede Wayuri, dos coletivos como o Mídia Índia, e da arte-vivência de Jaider Esbell (in memoriam), eles reimaginam, derrubam a autoridade do olhar externo com outras formas de ver, ouvir e nomear, inauguram mundos paralelos no interior do digital.

Como propõe Boaventura de Sousa Santos em A Gramática do Tempo (2006), escapam às epistemologias do Norte porque fundam lógicas de pertencimento, circularidade e espiritualidade que o pensamento ocidental transformou em ruído ou folclore; o saber não é uma acumulação, mas uma travessia; a imagem não é captura, mas presença; e a floresta, ao entrar em rede, não se virtualiza, se atualiza.

A narrativa insurgente é uma brecha no mapa mundi oficial que se acostumou a dizer onde a Amazônia começa e termina, porque narra por dentro, a arte de Jaider Esbell, por exemplo, não solicitava tradução, ela impunha uma interrogação, seus desenhos, suas instalações, seus textos, falavam menos à razão do observador, embaralhavam estética, mito, política e provocavam o incômodo necessário, não queriam caber no museu, mas reabitar o espaço expositivo com outra cosmologia.

Da mesma forma, os vídeos da Rede Wayuri não são reportagens, são registros de mundos em movimento que ao se mostrar recusam ser decifrados, é nesse sentido que podemos falar em contra curadoria da floresta, a seleção de outros objetos, a inauguração de outros critérios do que vale ser mostrado, dito, lembrado.

O processo narrativo é deslocado, retira o centro da enunciação do eixo Sul-Norte e o devolve a fluxos internos que sempre existiram, mas foram ignorados ou silenciados, esse gesto de autoconvocação transcende os pedidos de inclusão e de reconhecimento, já que fala por seus próprios dispositivos, não se oferece como conteúdo para consumo ou como paisagem moralizante, por isso diante das belas mentiras de estimação provoca o desconforto e vive na polifonia, nos obriga a sair de nossas zonas de conforto linguístico, sensorial e político.

Ama (1980), Clécio Penedo

Esse deslocamento narrativo confronta afetos coloniais travestidos de empatia e exige do espectador uma suspensão do protagonismo, Marisol de la Cadena, em Earth Beings: Ecologies of practice across Andean Worlds (2015), diz que há mundos que não cabem nos “conhecimentos reconhecíveis” do Ocidente, porque operam com entidades, relações e lógicas que não podem ser traduzidas sem serem mutiladas.

Sabotar as narrativas sobre a floresta é um gesto de astúcia epistêmica, significa minar o desejo de decifrar tudo, de “fazer sentido” segundo uma racionalidade única, implica assumir o desconforto de estar diante de algo que resiste à imagem e à causa; uma presença irredutível que se deixa ver apenas por entre as brechas da crença encenada. Walter Mignolo em sua proposta de desobediência epistêmica, insiste na tarefa de não substituir uma versão pela outra, sim de desorganizar o sistema de validação que torna certas versões visíveis e outras inaudíveis.

Não se trata de “contar outras histórias da Amazônia”, mas de reconhecer que há narrativas que não estão em disputa porque nem sequer foram admitidas como linguagem. O digital tenta vestir a floresta com pixels de sensibilidade global, o que faz muitas vezes é apagar justamente aquilo que torna a Amazônia real, sua multiplicidade de mundos, a floresta, seus ruídos de gente fazendo mundos e que nos convocam a uma escuta mais porosa.

É a ética da coabitação e do reconhecimento, um tipo de amor pela floresta, Donna Haraway em Staying with the Trouble (2016), convida a ficarmos com o incômodo, com a confusão, com o nó, porque “não estamos aqui para pensar soluções, mas para aprender a viver e morrer bem juntos.” E viver bem com a Amazônia implica não usá-la como tela, nem como espelho, mas aceitá-la como sujeito de sua própria política que pulsa em ritmos que o Ocidente não comanda.

Em Memórias da Plantação (2008), Grada Kilomba, diz que há vozes que ao tentarem falar no idioma do colonizador, perdem o próprio timbre, a floresta quando fala na linguagem da máquina, do algoritmo, da agenda internacional, está apenas ecoando traduções que já chegam editadas. Há violência na fala quando ela substitui as narrativas; há colonialismo também na comoção; amar a Amazônia nesses tempos de excesso de enunciadores talvez seja desacreditar como método, sabotar por dentro as verdades prontas como quem compreende que há hesitações mais potentes do que certas certezas e que o mais ético é permitir que a dúvida desarme o discurso.

A critica não precisa ser analítica, precisa ser desobediente, é preciso reocupar o saber com raízes para romper com as estruturas epistêmicas que continuam organizando o mundo a partir do centro “universal”, como propõe Aníbal Quijano. A Amazônia deve ser entendida como uma realidade densa, politica, vivida, que escapa à função simbólica que se espera dela; vale, abandonar a ideia de que há sempre algo a interpretar, algo a traduzir, salvar; já imaginaram que não se quer a “salvação”?

Às vezes não há, apenas existe a presença de algo/alguém, vida que abdica a representação e aceita o respeito, Gloria Anzaldúa, em Limiares/La Frontera: A nova Mestiza (2016), ensina que o conhecimento nasce nas fronteiras, nos espaços incômodos onde as linguagens falham, onde os símbolos se embaralham, onde a escuta é mais gesto do que decodificação.

Trazendo essa observação para o debate, isso implica reconhecer que a ausência de palavras é outra gramática, outra lógica de enunciação e tempo de resposta; quando forçamos o discurso da floresta a caber no tempo do feed, no calor do trending topic, estamos impondo uma fronteira epistêmica que exclui o que não se adequa à nossa ansiedade de sentido.

Águas amazônicas (1978), de José Pires Rego

A crítica, portanto, não deve buscar mais enunciações, sim espaços para hesitação, zonas onde não se exige sentido imediato, onde o pensamento pode reformular enquanto território e discurso, a Amazônia não precisa de mais falas apressadas em seu nome, precisa de zonas de sombra, de dúvida, de não captura, é aí que começa o pacto ético, quando aceitamos não entender de imediato, quando abrimos mão da vigilância semântica sobre o outro.

O reconhecimento daquilo que não é visível ou audível aos olhos das epistemologias hegemônicas não é por isso inexistente, há saberes, afetos, cosmologias e resistências que foram silenciadas pela saturação de sentidos impostos. E as mentiras de estimação, mesmo quando bem-intencionadas, correm o risco de ocupar o lugar da dúvida criativa com certezas confortáveis, justamente onde a descrença estratégica poderia abrir frestas no discurso.

O papel da crítica, então, não é nomear o que é “verdade” ou “mentira”, mas criar um espaço onde outras verdades possam emergir sem serem imediatamente engolidas por nossas expectativas de sentido. Desaprender para reaprender é calar quando a vontade for preencher, e esperar que a floresta, quando quiser, nos diga do seu modo, no seu tempo o que ainda não sabemos ouvir.

A floresta nunca se calou, fomos nós que ficamos surdos com traduções apressadas, com discursos moldados para caber no tempo de um post ou no apelo de uma campanha, a Amazônia não precisa de intérpretes, precisa de interrupções. Tentamos por séculos “salvá-la” da maneira como salvamos o que não cuidamos, nesse ímpeto, apagamos suas pausas, seus tempos próprios, seus modos de contar o mundo.

Ao invés de uma floresta para ser dita, coube uma floresta para ser lida sempre com os olhos baixos, como quem pede licença antes de atravessar um território, a obsessão em revelar a verdade amazônica como desdobramento colonial fez trocarmos as cruzes por câmeras, os mapas por gráficos, os diários de bordo pelas análises de engajamento.

Tudo é decifrado como se estivesse à espera de ser explicado, e se quer a Amazônia desejava ser traduzida, mesmo assim, resiste à tradução; há mundos que não são nem visíveis nem legíveis; desacreditar, aqui, talvez não signifique negar, mas sim suspender a ânsia de sentido, porque desmontar o desejo de salvação não é abdicar de agir, é agir por dentro desconstruindo as certezas que se vendem como solução.

A Amazônia não quer ser salva como um cenário, quer existir como sujeito, e para isso menos tradução e mais escrita de si; menos espetáculo e mais ocupação; menos interpretação e mais substantivo, quem sabe precisamos superar a ideia de salvar a floresta para aprender a conviver com o que não podemos possuir.

Porque a floresta que persiste não se entrega à tradução fácil nem ao vocabulário da comoção teleguiada, escapa aos roteiros prontos de salvação, ressurge na voz de quem aprendeu a dizer com as mãos, com os pés, com os corpos que dançam e lutam há séculos sobre esse chão. Essa floresta não cabe nos discursos que a emolduram como vítima ou ornamento, seus narradores deslocam a escuta para territórios onde o tempo se mede em ciclos.

Seus artistas, comunicadores, pajés e poetas entendem que não se trata de pedir palco, sim de criar seus próprios rituais de enunciação; essas vozes rasgam o pano de fundo do velho épico ocidental e costuram outras cenas, outros sentidos, outras formas de presença; não se anunciam em inglês fluente ou legendas globais, se anunciam no tempo da não-conversão, contestam o enredo, rompem a lógica de autorizações, narram sem concessões.

Porque enquanto insistirmos em narrar a floresta sem passar por sua descrença, estaremos empacotando novas mitologias de estimação, como as belas mentiras do agora, tão sedutoras quanto as antigas, circulam com cortes precisos, trilha sonora envolvente, e a promessa de um engajamento pelo bem. E a floresta, que sonha com raízes e não com roteiros, segue criando por conta própria os seus próprios enredos sem legenda, sem permissão, mais viva do que qualquer ficção que queiramos contar sobre ela.

Era uma vez Amazônia (2016), de Jaider Esbell

Se ainda há futuro que mereça ser contado da Amazônia, não nascerá das vitrines digitais nem dos megafones do clima em edição especial, nem tão pouco virá camuflado em reels com trilha cinematográfica, quanto mais se anunciará pela retórica do engajamento bem-intencionado. O que há de vital desponta sutil nas entrelinhas dos cantos que sobrevivem, no sopro que não se dobra à moldura da compaixão vendável, na cosmogonia que não precisa de tradução para ter existência.

O porvir é isso, está menos no que dizemos sobre a floresta e mais no que ela insinua à sua maneira, ao nosso redor, se há um nome para esse horizonte, sua linguagem talvez esteja nos desvios, nas dobras, nos pequenos atos que sabotam a pressa de entender tudo. A solidariedade que importa é a que perturba o fluxo automático das certezas, a narrativa porvir será tecida por corpos laterais que se recusaram a ser programados num gesto tão antigo quanto as águas que seguem.

É habitar a hesitação como gesto social, aprender que nem tudo que pulsa precisa ser postado; que nem toda história precisa ser contada por quem a ouve primeiro; que há grandeza no ato de ceder a fala. E se ao fim restar a nós o silêncio atento, que não seja vazio, mas espaço fértil para que as vozes da floresta ocupem o centro como autores.

E se o verdadeiro gesto contra as belas mentiras de estimação for não narrar? E, se o caminho seguro for recusar a autoria em detrimento de reaprender a ver com os olhos comuns de não-colonizado? Há crença possível onde antes houve ocupação? Somos capazes enquanto civilização do espetáculo, de sustentar a presença sem o protagonismo?

Como se redige um pacto onde a autoria é partilhada e o saber não monopoliza, mas compõe? E se a floresta não quiser ser lida como texto, mas como tempo próprio sem deadline? O que significa, afinal, deslocar o centro da enunciação sem substituí-lo por novas versões de si mesmo? Como construir escuta sem roubar o som? Seremos capazes de habitar essa opacidade sem tentar decifrá-la? Estaríamos dispostos a reverter o fluxo da margem para o centro? E se o papel da crítica for menos produzir interpretações e mais cultivar razões?

Será que conseguimos aceitar que há mundos que não cabem no nosso vocabulário, que querem apenas ser respeitados à distância? O que fazemos quando a floresta não deseja ser visível, quando sua existência nos convida a caminhar? O que nos acontece quando não somos os autores da narrativa, apenas quem passa as páginas devagar, respeitando o tempo das pausas? Quem somos quando não controlamos o foco? O que sobra de nós quando deixamos de ocupar o centro?

Há enigmas que passam leves rente ao chão, com a mesma discrição do orvalho que desaparece antes do toque, desfazem-se no vapor da manhã como segredos antigos que só a floresta entende. Pousam no ombro feito borboleta incerta, tocam, sussurram e partem antes que possamos letrar seus nomes; são presenças que recusam moldura, silêncios vivos, indomáveis, que pedem menos dedo e mais sobressalto.

São tudo, menos de estimação.

Belas mentiras de estimação: estética, performance e disputa na Amazônia digital. Por Josué G. Vieira
Amazônia Legal (1975), de Clovis Irigaray

❒ Josué Vieira, santareno, é professor, escritor, poeta e pesquisador sobre Sociedade, Cultura e Amazônia. Mora em Manaus (AM). Leia também dele: Katy, um reino além da consciência. E ainda: Desesperos, morte e silêncio na Colônia Vertical dos Perdidos.

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