
No teatro incessante das redes sociais, cada segundo pede um posicionamento, uma imagem, uma frase de efeito, nele a pausa aduz a força de um paradoxo, é ausência que grita, recuo que avança, negação que comunica.
Quando uma figura pública desaparece ou uma comunidade inteira opta pela não participação, há a construção de um discurso que se mede pela suspensão das palavras, o hiato entre a expectativa de presença e a realidade da ausência emerge como desobediência ao fluxo, como interrupção do algoritmo, como linguagem de desaceleração.
Esse “silêncio” não é vazio nem desinformação, ele opera, como diria Roland Barthes, numa zona ambígua entre o sentido e a interrupção do sentido, é um desvio tático, nos termos de De Certeau; permite criar brechas nos sistemas de vigilância e pressão emocional nas constantes cobranças por visibilidade.
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Não alimentar o ciclo de visibilidade, faz o sujeito recusar temporariamente o contrato social implícito de ser útil, opinativo, responsivo e produtivo, é uma recusa que fere as expectativas de engajamento e afirma outra potência política. Onde o algoritmo exige movimento, o “silêncio” impõe pausa; onde se espera calor, o silêncio entrega sombra, denota um tipo de ação que se veste de inação para confundir o olhar dominante.
Essa escolha pelo apagamento se torna gesto de autoria, pode optar por um ponto final seco ou um parágrafo em branco, é uma ética da presença que sabe que nem toda presença se dá pelo falar e que, às vezes, o cuidado, o protesto ou a reinvenção habitam melhor o vácuo do que o preenchimento. O “silêncio” passa a ser uma forma de escrita, e o “sumiço”, uma forma de aparecer com mais corpo, mais intenção, mais sentido, porque mesmo calado o sujeito ainda diz; e diz muito mais.
Para Bakhtin, a linguagem é um campo de disputa, o “silêncio” não escapa a essa regra, ainda mais nas redes sociais onde o desengajamento é uma forma eloquente de presença, esses apagões não são simples ausências, mas estruturas de significação cuidadosamente construídas.
Quando milhares de timelines se calam ao mesmo tempo, se assiste uma reorientação de seus sentidos, como se o tecido social digital, saturado de notificações, curtidas e indignações fugazes, de repente respirasse, o “silêncio” é ato que se inscreve como resistência, de que manifestações silenciosas onde o corpo não aparece e o feed não flui são modos de construir uma “corporeidade discursiva”, como diria Judith Butler.
O “silêncio” performado é um tipo de presença material, marcada pela escolha ativa de não–estar, a força simbólica de não postar, de não produzir, de não interagir revela o que usualmente é invisível sustenta o tecido social, deixa de ser vazio e passa a ser corpo, gesto, enunciação política de um grito que se faz no vácuo.
Esse tipo de “luto simbólico” é um luto pelo excesso, pelo cansaço de existir performativamente, pelo ruído constante das redes, pela dor acumulada em timelines que não dão tempo para respirar. Ao suspender a presença, os sujeitos resgatam o direito ao recuo, ao cuidado de si, à reinvenção fora da moldura, os apagões silenciosos revelam-se “rituais contemporâneos” complexos, conscientes e profundamente políticos de reaprendizagem coletiva sobre o valor da ausência.

Sob a lente dos estudos de Turner, o “silêncio digital” pode ser lido como um rito liminar que desestabiliza e ao mesmo tempo reorganiza as categorias de identidade e pertencimento, o desaparecimento performado não apaga o sujeito da memória coletiva, mas o conduz a um limbo simbólico onde reconfigura sua imagem pública. Esse entre-lugar é fértil, nele se experimenta uma ausência que reorienta a presença, que questiona o pacto de visibilidade constante exigido pelas redes sociais.
Esse gesto de retirada convoca o espectador a reorganizar seus próprios parâmetros de percepção e expectativa, a moldura vazia que resta no feed fala, provoca, tensiona, instaura um espaço de espera, uma pausa que convida à reflexão sobre o próprio regime de visibilidade ao qual estamos submetidos.
Ao habitar o vazio, os sujeitos performam uma recusa às narrativas prontas, criam margens de reinvenção possíveis, o “silêncio” passa a ser matéria plástica, esculpem o que permanece, deslocam o que era fixo, sinalizam que na sociedade do excesso de palavras e imagens a ausência estratégica pode ser mais potente do que mil declarações; trata-se de uma reconexão com o outro que começa paradoxalmente pelo corte temporário da conexão.
A retirada passa a operar como gesto crítico, o indivíduo escolhe não postar, não aparecer, não interagir, dai emerge a possibilidade de um novo código escrito numa linguagem feita de ausências gráficas, de telas apagadas, de stories não publicados; formando uma gramática do cansaço, da denúncia, do cuidado, porque no silêncio também há voz.
Quando milhares de usuários suspendem voluntariamente sua presença digital, como na “Greve das Redes” no Brasil (2025) ou no Un Día Sin Mujeres no México (2020), o que se acende é uma outra forma de linguagem sem palavras, saturada de sentido; uma linguagem ritual que reativou formas antigas de marcar o tempo e o espaço, era a pausa como denúncia, a ausência como presença simbólica, tal como o luto público, o jejum ou o recolhimento religioso, gestos que suspendem o cotidiano para convocar o coletivo a um estado de atenção.
Victor Turner nos ajuda a compreender essa dinâmica ao situar os rituais de passagem como estruturas liminares, onde o sujeito transita entre estados sociais e identitários, por essa lógica, a suspensão digital operada pelos movimentos coletivos se torna uma espécie de zona de transição, quem se cala não desaparece, mas se reinscreve como corpo político em mutação.
Há uma performatividade densa que retoma aquilo que o rito sempre buscou: transformar o ordinário em extraordinário, que nas redes, o extraordinário se manifesta pelo colapso momentâneo da presença esperada, o algoritmo habituado a medir relevância por quantidade se vê desorientado diante da coreografia do nada.
Assim, evocando práticas de insurgência simbólica enraizadas em tradições históricas, semelhante às greves de silêncio de prisioneiros políticos, aos jejuns prolongados de Gandhi, ou ao silêncio ritual das Mães da Praça de Maio, que caminhavam sem palavras, com fotografias dos filhos desaparecido, o não–dizer era o gesto mais eloquente.
E o que temos agora é uma reatualização dessas formas na esfera digital, como outrora nas praças, a ausência se converte em exigência, cada conta desativada, story não publicado, feed que não se renova torna-se uma fissura simbólica no tecido da hipercomunicação; é como se o “silêncio” gritasse: “não mais”; paradoxalmente, só pode ser escutado quando aceitamos o convite para também silenciar.

James Scott ao teorizar sobre as “formas de resistência invisível” oferece uma lente aguda para decifrar os silêncios que se multiplicam no ecossistema digital contemporâneo; quando sujeitos decidem não postar, não comentar, não consumir conteúdos no ritmo exigido pelas plataformas, estão reorganizando o espaço discursivo por dentro da máquina.
Trata-se de uma forma de sabotagem simbólica que escapa ao radar dos poderes explícitos, corrói a engrenagem do engajamento compulsório, estratégicamente escolhe o não–ato como forma de ação, recusa o script imposto e ao fazê-lo denuncia a própria estrutura que nos condiciona a falar.
A filósofa Judith Revel nos lembra que o poder contemporâneo opera pela captura da atenção e pela indução à participação contínua, somos convocados o tempo inteiro a sermos visíveis, legíveis, quantificáveis. Silenciar nesse contexto, torna-se um gesto de autonomia radical, uma contra–conduta que escapa às lógicas da vigilância emocional e da performatividade algorítmica.
O não–engajamento ritualizado, como nos protestos digitais de silêncio, se aproxima de uma desobediência epistêmica, uma recusa a confirmar a gramática imposta pelo poder; não oferecer novos dados, interromper a produção de si como mercadoria social, faz o sujeito reabrir uma fenda de imprevisibilidade.
Byung-Chul Han afirma que o sujeito contemporâneo é um sujeito que se explora voluntariamente, e nesse contexto, o “silêncio performativo” aparece como uma fuga tática da positividade tóxica; um cansaço que vira arma, a ausência deliberada comunica uma recusa ao culto da presença constante, propondo uma reprogramação do próprio tempo social; o silêncio se torna um ato afirmativo de dissidência, de reinvenção, de reaprendizado do gesto político saber parar.
Achille Mbembe, ao desenvolver sua noção de “política do desaparecimento”, oferece condições de subverter a lógica tradicional que associa visibilidade à presença e poder, desaparecer pode ser um gesto radical de autonomia, uma tática em que o sujeito recusa ser permanentemente acessado, lido e gerido.
Quando o desaparecimento é consciente torna-se soberania encarnada, recusar ser reduzido a dado, engajamento ou capital simbólico, assim, ao se retirar, mesmo que temporariamente, o sujeito reorganiza o campo da ação política, ele se desinscreve, desinstala-se, desobedece ao algoritmo que quer tudo o tempo todo.
Essa estratégia se trata de ocupação do vazio como crítica e reinvenção, se revela potência política de ausência organizada, da desaceleração coletiva, do gesto negativo que produz sentido. Como no desaparecimento performativo de Sandra Cuevas, no México, ou nas pausas voluntárias de artistas latino-americanos, o que está em jogo não é a renúncia à esfera pública, mas a recusa de estar nela sob os termos impostos.
Néstor García Canclini, ao falar sobre “desconexão estratégica” aponta que os indivíduos estão aprendendo a manejar a visibilidade como um recurso e não como obrigação; desaparecer, nesse léxico político, é uma forma de presença deslocada da própria arquitetura da conexão para criar espaços, pausa e contemplação; daí, a pergunta incômoda: o que sobra de um sistema que depende de nossa presença constante para existir?
Donald Winnicott, ao formular a distinção entre o “falso self” e o “self verdadeiro”, apontava para o risco da adaptação excessiva do sujeito ao ambiente como forma de defesa contra a invasão do mundo externo, o “falso self” performa um invólucro moldado para agradar, funcionar, sobreviver. No universo digital, somos incentivados a nos manter visíveis, desejáveis e produtivos para o olhar alheio, a ponto de perdermos contato com o centro íntimo e criativo do ser.
O gesto de se calar, como fez Tiago Iorc, ao desaparecer das redes por quase um ano, é uma interrupção do circuito da performatividade, convite ao não–ver, ao não–dizer, reencontro com o não–imposto. A retração voluntária equivale a um movimento simbólico de reterritorialização de si, o silêncio é como um quarto escuro onde a identidade pode reaprender a respirar sem ser medida.

María Becerra, ao abandonar temporariamente o uso pessoal das redes após ataques incessantes, desenhou uma fronteira entre a figura pública e a integridade psíquica, sua retirada funcionou como uma prática de cuidado ontológico, o “silêncio” tornou-se espessura que resiste à lógica líquida das identidades expostas que se moldam conforme a temperatura emocional do mercado de atenção. O não postar passa a ser uma afirmação de que ainda há um Eu que não se deixa capturar inteiramente pela performance, que exige zonas de resguardo para continuar existindo.
A política do “silêncio” se articula com a psicologia e com a ética da existência em tempos de espetáculo; é gesto de autonomia e de reapropriação do tempo interior, ele corta a lógica produtivista que coloniza até os afetos e questiona a dependência emocional da validação alheia. É nesse intervalo, como sugere Winnicott, que o “self verdadeiro” pode emergir como resposta ao mundo, como pulsação originária do Ser.
Erving Goffman, ao descrever a vida cotidiana já antevia a dramaturgia que hoje se amplifica no Instagram, no X (antigo Twitter) e no TikTok, o Eu é observado e produzido, o que antes se restringia a interações face a face agora se transforma em exibição constante, sem bastidor, sem pausa, sem espaço para o tropeço fora do roteiro.
A lógica da exposição permanente exige que cada sujeito seja simultaneamente ator, diretor e roteirista de sua própria imagem, quando o Padre Fábio de Melo anunciou sua saída das redes afirmou que o Twitter (hoje X) deixou de ser saudável, anunciando o esgotamento de um papel moldado pela expectativa pública e pela visibilidade.
Sua retirada interrompe o ciclo da oferta constante de opinião, da resposta imediata, da espiritualidade traduzida em curtidas, é uma espécie de quebra da quarta parede, onde o personagem olha para si e decide parar de atuar; o “silêncio”, nesse caso, funciona como reinvenção do papel e o desejo de reescrevê-lo sob outras condições.
Esse gesto de recusa pode ser lido como uma crítica ao imperativo contemporâneo da autenticidade performada nas redes, uma desobediência ao “verdadeiro” dentro dos limites de um formato vendável, emocionalmente empático, midiaticamente adequado; Goffman já nos lembrava que a performance social se constrói em função das expectativas da plateia, daí o “silêncio” ser um rasgo na cortina, ele retira o corpo da cena para que o script sufocado pelo excesso de atuação possa respirar; é no não–dito que uma nova versão de si começa a ser escrita.
Silvia Federici, ao analisar como o corpo feminino foi historicamente apropriado e esvaziado de autonomia no capitalismo, propõe uma leitura onde a exaustão é fisiológica e simbólica, um esgotamento da própria possibilidade de ser fora das engrenagens da produtividade e do controle, vê-se semelhanças dos estudos de Federici com o corpo digital contemporâneo.
Embora imaterializado em telas o corpo continua sendo alvo de uma economia que exige constante presença, resposta, afeto e engajamento, a visibilidade torna-se uma forma de exploração e o “silêncio” emerge como ato de resistência corporal, reivindica seu direito de existir para além do algoritmo.
Figuras públicas não apenas se desconectam, mas desenham um limite no espaço simbólico da superexposição, um contorno que restabelece a dignidade do sujeito como ser opaco, contraditório, não inteiramente disponível. O “silêncio” é gesto de soberania para não explicar, convencer ou engajar, devolve ao sujeito a posse de seu próprio tempo, de sua interioridade, de sua dor.
Uma estética que não grita, se funda na densidade de quem escolhe por um instante não ser para os outros, apenas para si, isso significa aceitar que às vezes o cuidado exige desaparecer como forma de reaparição futura menos colonizada pela lógica do capital afetivo; a pausa é construção de uma nova maneira de estar no mundo.
No princípio, era o verbo, mas hoje saturados de palavras, imagens e impulsos, seja a pausa que carrega maior potência, a linguagem do silêncio na era digital, não se mede pela ausência de som, sim pela densidade simbólica da suspensão. Pausar é interromper o fluxo midiático contínuo para instaurar outra temporalidade em que o sujeito se restaura, o corpo se resguarda e a escuta se agudiza.
Não se trata de calar por medo ou impotência, mas de um gesto denso que atravessa o excesso para recuperar o contorno do que é vivo, desafia a lógica da entrega constante, da presença ininterrupta, do Eu que se explica a cada clique. Ao fazê-lo, cria zonas de suspensão onde o sujeito exaurido pelo teatro do capital emocional pode respirar; o “silêncio” se inscreve como linguagem insurgente de dizer o que nenhuma legenda daria conta, que há valor em não ser lido, em não ser visto, de existir sem ser convertido em dado.

É gesto inaugural de uma nova narrativa onde não se narra para agradar, nem se compartilha para validar, a pausa é ruptura, um recomeço, e nesse vácuo cheio de sentido, reemerge a possibilidade de uma outra forma de presença que permite dizer que o mais radical dos discursos… é o “silêncio”.
Revela-se como gesto multimodal e estratégico, há coreografias de “silêncio” que variam conforme a dor, o protesto, a necessidade ou a recusa, a Greve das Redes (2025), por exemplo, suspende a engrenagem da comunicação para evidenciar seus excessos; o Blackout Tuesday (2020) transformou a tela em memorial coletivo; o Un Día Sin Mujeres (2020) converte a ausência feminina em clamor por justiça, nessas ausências orquestradas, o “silêncio” se torna linguagem pública, ato de presença política e estética radical do recolhimento como denúncia.
Mas há o “silêncio” íntimo, liminar, subjetivo, aquele que ocorre não em multidão, mas no recuo do sujeito diante da exaustão, Tiago Iorc em seu autoexílio das redes, María Becerra ao entregar suas senhas, Padre Fábio de Melo ao deixar o Twitter (hoje X), evidenciam a tentativa de reequilibrar a vida diante da erosão subjetiva promovida pela vitrine digital. Silenciar é restaurar contorno, respirar fora do palco, reencontrar o eixo interior; um rito individual de reaprendizagem da presença, um jejum simbólico da performance pública que reeduca o olhar sobre si.
Com ajuda teórica de James Scott e Achille Mbembe, há o “silêncio” como estratégia de insurgência, quando o sujeito recusa as expectativas algorítmicas e se retira deliberadamente, estamos diante de uma tática que interrompe o contrato da hipervisibilidade. Não postar, não reagir, não aparecer tornam-se formas de resistência contra o espetáculo, o “silêncio” digital em sua potência performática reversa é a brecha onde o sujeito pode se refazer.
Como nos mostra Silvia Federici, nesse recuo o corpo que silencia é o corpo que se recusa a ser consumido, categorizado, monetizado; é o corpo que diz basta, reclama o direito ao invisível, à pausa, ao não render. A partir de Winnicott vemos nesse “silêncio” a chance do verdadeiro self emergir das cinzas do falso; ponto mais belo e brutal de todo esse percurso: a sobrevivência simbólica; gesto de quem ainda acredita que há algo em nós que não cabe em post, que não se mede em engajamento, que precisa de “silêncio” para continuar sendo.

E quando o “silêncio” até então refúgio virar produto? Quando o algoritmo aprender a antecipar nossas pausas como tendências e programar notificações para que o sumiço se transforme em campanha? Talvez estejamos diante de uma vanguarda de futuro em que o gesto de não postar venha acompanhado de hashtag patrocinada de um “volto logo” que aciona engajamento.
Seremos capazes de distinguir o “silêncio” genuíno da ausência encenada para vender presença? A pausa ainda será cura ou apenas outra performance na vitrine do capital emocional? Estaremos mesmo preparados para entender o que não se diz?
Saberemos decifrar os vazios de um feed como quem lê entrelinhas de uma carta antiga, ou vamos seguir tratando a ausência como erro de conexão? O desaparecimento como gesto de resistência que rompe com a lógica da exaustão poderá sobreviver ao marketing da autenticidade, convertendo sinceridade em capital simbólico?
Em uma era em que tudo é comunicação até o “silêncio” pode ser barulho, no entanto há “silêncios” que querem ser silêncio, não resposta; no fim quem pode desaparecer sem ser esquecido? Quem pode calar-se sem ser silenciado? As redes, assim como o mundo que as cerca, distribuem de maneira desigual até a possibilidade de recuo, uns somem e são esperados, outros somem e são deletados, o direito ao “silêncio” não é dado a todos; há hierarquias até no sumiço.
Entre uma frase e outra, há sempre um espaço que ninguém lê, um respiro, uma dobra de tempo onde a linguagem se curva em si mesma, é nesse entre, nesse quase que o texto se recolhe. Como quem se encosta à beira do dizer e, por um instante, apenas observa o “silêncio” que paira antes do toque, ou a sombra que antecede um beijo.
Às vezes, é preciso não completar.
Porque o mais urgente seja aprender a habitar a palavra antes que ela nos atravesse; potência no não-dito que escapa aos olhos apressados; espécie de presença que não grita. E se a ausência for, no fundo, o gesto mais sincero? Então esse texto não termina, se afasta devagar como quem vai até ali e volta com o vento, deixa uma fresta, um fiapo de silêncio no ar.


❒ Josué Vieira, santareno, é professor, escritor, poeta e pesquisador sobre Sociedade, Cultura e Amazônia. Mora em Manaus (AM). Leia também dele: Katy, um reino além da consciência. E ainda: Desesperos, morte e silêncio na Colônia Vertical dos Perdidos.
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