
por Joaquim Onésimo F. Barbosa (*)
Há grandes pensadores. Marilena CHAUÍ é uma das que posso citar. Há outros por aí, escondidos entre as academias, escrevendo, pensando o Brasil e sua trajetória rumo sabe lá para onde: Renan Ernesto Freitas Pinto, Marilene Corrêa da Silva Freitas, Nelson Matos de Noronha, professores da Universidade Federal do Amazonas, são nomes que podem estar entre os pensadores da modernidade.
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Mas há os que pensam porque os outros pensam. São os pensadeiros ou filosofeiros, posso estar entre estes.
Circulou pela internet uma prova de um professor de filosofia da rede pública de Brasília em que Valeska Popozuda é citada como “pensadora contemporânea”. A prova é verdadeira, a questão também, porém o motivo da citação e da adjetivação somente o professor pode esclarecer.
Ao citar a funkeira, em uma prova, o professor recebeu críticas e apoio. Críticas da parte de quem acha que o funk não apresenta conteúdo algum, e quem o promove é vazio de qualquer ideia filosófica.
Apoio dos que, na certeza de que foi uma brincadeira, consideraram a coragem e o bom humor do professor um caminho para tirar dos alunos algo que pudesse vislumbrar o caótico e o sensato, ou nada disso.
É certo que Valeska Popozuda não é pensadora, longe disso, tão longe quanto a distância entre a Terra e Plutão. É certo também que colocar uma questão em uma prova de Filosofia, disciplina que tem o pensar, o aguçar as ideias como cunho não tira o mérito do professor que, como tantos outros por aí, procurou uma maneira de distrair os alunos numa avaliação. Sem desmerecer a Popozuda, “ídola” da garotada.
Mas, ao citar a Popozuda e não os grandes pensadores modernos, o professor levou muitos a afirmarem que a educação brasileira avacalhou de vez, coisa que todos sabem ser verdade, mas não por causa da adjetivação “pensadora contemporânea” à Popozuda.
A educação rasteja, com ou sem o funk, com ou sem pensadores de primeira linha. Aliás, pensadores que escrevem sobre o fracasso da educação pública brasileira não faltam, há os zilhões; falta é boa vontade de quem tem o poder para fazer as boas ideias saírem do papel e virarem realidade.
Falta gente com menos preconceito e mais coragem de quebrar o concreto sob o qual se escondem os caminhos que levam à ressurreição da educação brasileira. Falta gente com humor e ousadia, como o professor de Filosofia da rede pública de Brasília.
Já estiveram no comando do país nomes que são considerados pensadores, tais como o doutor de Harvard, Fernando Henrique Cardoso, sociólogo. Na sua gestão, o ensino superior foi à cova, as universidades foram sucateadas, as greves eram constantes. Sofri na pele isso, quando estudante na UFPA. Foi preciso um metalúrgico, semialfabetizado, assumir o poder para abrir o buraco no qual se jogou a universidade pública.
Isso prova que ser pensador coroado com título de Harvard não significa muito.
Certamente, se fossem citados trechos de músicas de Caetano Veloso, de Chico Buarque, de Gilberto Gil, e estes chamados de “pensadores contemporâneos”, a prova passaria despercebida. Tudo certo, afinal, Veloso, Buarque e Gil fazem parte da nata musical brasileira. E só. Certamente só.
Mas, o que eles fizeram, além compor, pela educação brasileira? Que ideias esses que seriam coroados como “pensadores” ao contrário da Popozuda, têm dado sobre o desenterro da educação pública?
Caetano Veloso, dia desses, escreveu um texto exaltando os arruaceiros black blocs. O texto foi um elogio, que mereceu as páginas do Jornal Folha de S. Paulo. Gilberto Gil teve a oportunidade de fazer algo pela cultura, quando esteve à frente do Ministério da Cultura, fez quase nada, ou nada. Chico Buarque escreveu livros, mas que eu saiba nenhum deles traz um sino sobre a educação – Budapeste é um bom livro, mas não ensina nada sobre a educação brasileira.
Quantos jovens, desses que “curtem” a Popozuda, leram os livros de Buarque? O que eles saberiam falar da filosofia do sábio Buarque? Ouvem eles as músicas desse trio?
É certo que, entre ler ou ouvir Buarque e ouvir Valeska Popozuda ou ler outra que poderia ser chamada pensadora contemporânea, Bruna Surfistinha, a garotada, como os alunos do professor de Brasília, certamente saberia mais destas duas, e elas ganhariam de goleada.
Valeska Popozuda é a onda do momento e, por isso, mereceu ser citada na prova de filosofia, para dar inspiração aos alunos que, certamente, nutrem algum conceito sobre ela ou sobre as letras do que canta.
Popozuda fala da realidade que vive a juventude que frequenta a escola pública. As letras do que canta conversam com os jovens, então, por que ela não pode ser citada numa prova?
As letras de músicas do funk trazem um vocabulário que já rendeu dissertações, teses e carretas de artigos. Se não tivessem algum teor, certamente não seriam alvo de estudos dos pensadores, nas universidades. Se são estudadas, é porque têm alguma coisa que presta.
Num país, onde os que detêm a distinção através de um título, ou o poder simbólico dos reais, são doutores, sem sê-los, ou são pensadores os que pensam no seu bolso e no seu círculo de conveniência, chamar Valeska Popozuda de “pensadora contemporânea” é uma aberração, ou um despautério, como dizia uma tia minha, filósofa de nascença, mas render elogios a quem quebrou o Brasil várias vezes e vendeu a Vale e a Embratel a preço de banana e quebrou a universidade pública, é exaltar a santidade.
A burrice neste País também tem nome, e não vem em tom e som de composições do funk, vem em forma de piada, com ou sem Valeska Popozuda.
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* Santareno, é professor da rede estadual de ensino e universitário. É mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia. Escreve regularmente neste blog.