por Apolinário (*)
Albenor estava muito nervoso, pois todo dia era pressionado por seus fornecedores. Ele que sempre cumpria com seus compromissos, pagava boletos e duplicatas corretamente, vendia, comprava, trocava sem ter desacerto com ninguém, começou a ter problemas desde o primeiro momento em que passou a negociar com Galinha Preta em nome da cooperativa dos garimpeiros do garimpo do São José do Ouro Roxo.
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Galinha Preta, muito viril, ágil e malandro suficiente com a arte da palavra, contornava a situação muito rápido, transferindo e ampliando as esperanças de Albenor para uma outra jornada de espera.
─ Albenor, o mundo não ficou perfeito, porque foi criado em sete dias! Já imaginou se Deus tivesse tido um pouco mais de paciência com a perfeição que Ele tem e levasse o tempo de pelo menos um mês, o mundo era outro! Já te falei que vou inverter a situação, em breve quero ter saldo contigo! Olha, daqui a um mês, vou levar dez quilos de ouro, depois dez por quinzena, depois dez por semana, e assim vou te surpreender! Acredite, vai dar certo! E tem mais: estou conseguindo documentar uma terra por trás das terras da cooperativa e vou repassar pra você explorar! Vais ter que aumenta tua capacidade de venda e fornecer só pra gente! Me dá só um mês pra você ver acontecer o que estou te falando! Você não é de sete dias, que eu sei!
Albenor respirou fundo, tremidamente, e suspirou da mesma forma, fechou os olhos, travou os músculos das mãos e renovou a espiritualidade do seu próprio egoísmo.
─ Tudo bem, cara, se tudo vai mudar daqui a um mês e você vai fazer acontecer o que estás falando, vou esperar, não tenho outra saída! Estou tendo muitos problemas por você não ter quitado comigo esta dívida! Já lamentei muito ter te conhecido! Toda vez você me aplica nova expectativa! Espero que não passe um dia do que estamos combinando agora!
Os ânimos foram se acalmando. Galinha Preta e seu coveiro, Albenor, ainda foram comemorar a reconciliação dos negócios em um almoço no restaurante do Hotel Apiakás. O clima foi se tornando de descontração até sorrisos de um para o outro se fizeram.
Mais tarde, Galinha Preta viajou para Santarém, pois tinha que resolver, no fórum de justiça, problemas de alguns clientes seus e um próprio que respondia em livramento condicional, o assassinato do advogado Walter Cardoso. Por este problema, Galinha Preta chegou a envolver outras pessoas, como o advogado Wilton Dolzanes. Este causídico foi parar no tribunal do júri em razão das infâmia de Galinha Preta, mas conseguiu ser absolvido por meio da formidável e surreal defesa do astro da advocacia santarena, Dr. José Ronaldo Dias Campos.
Galinha Preta amargou dias de pesadelo, comeu o pão que o diabo não quis amassar, puxou cadeia em Belém e em Santarém, e ainda assim, concluiu o curso de Direito, passar no exame da OAB e foi dando a volta por cima.
Ele não se abria com ninguém, além da mãe, Dona Eva, mulher trabalhadora, cheia de energia, que pega cedo no batente do seu comércio – “Casa da Farinha” -, onde negocia carnes, vísceras e linguiça de gado, farinha, esteira, andiroba, cumaru, mel de abelha e sal temperado. Uma costela de boi ainda sangrando e dando os últimos reflexos de vida é partida ao meio na serra.
Muito católica, Dona Eva é devota de Nossa Senhora Desatadora dos Nós, Nossa Senhora Aparecida e São Francisco. Participa de novenas e terços, toda segunda-feira vai ao cemitério rezar missa para as almas. Uma pessoa muito carismática e espirituosa, só trabalha o tempo todo.
Assim sustentou os filhos e sustenta o marido, que é enfermo. Dona Eva tem um amor fora de série por todos os filhos, o Paulo, a Ana e os outros. Mas uma preocupação diferenciada levava a maior parte do coração dela de mãe a olhar com mais atenção para o Galinha Preta, apelido que Dinho ganhou na adolescência quando brincava com outros garotos ali por trás da AABB, no Caranazal, ao pegar uma galinha assada de um despacho feito pelo macumbeiro Buião e sair comendo e bebendo vinho com os colegas. A partir daí, os próprios colegas, Tanan, Sinderley, Bambuí e Chiquinho lhe puseram o apelido.
Dona Eva relembra, em lágrimas, como Galinha Preta, muitas vezes, ia a ela para confessar os seus tormentos.
– Ele deitava do meu lado com as mãozinhas apoiando a cabeça por trás, ficava olhando pro teto e me contava tudo o que acontecia com ele! Não me escondia nada! Ele era muito diferente! Com todo aquele jeito dele, às vezes, violento de ser, comigo e os irmãos era especial. Acho difícil uma outra mãe ter tido um filho tão meigo quanto ele e quase impossível ter sofrido a perda de um filho mais do que eu estou sofrendo a dele…
E foi acontecendo que a cooperativa começou a produzir mais ouro. O estreito, raso do alto rio Tapajós, foi enchendo de ouro as caixas das dragas. O bucho da terra foi desovando cada vez mais ouro e os “garimpeiros” que mais pegam este metal precioso são aqueles que nem pisam na terra, sobrevoam em aviões de um canto ao outro as feridas mercurianas causadas na floresta.
Índios, forasteiros, estrangeiros, traficantes, ladrões, assaltantes, estupradores, fugitivos e pistoleiros formam o corpo de profissionais que movimentam o dia a dia dos garimpos.
Toneladas e toneladas de ouro saem dos tumores da terra e enriquecem meia dúzia de pessoas. A devastação entristecida da floresta se iguala à pobreza, doença e à fome na população primitiva do lugar. Com toda esta agitação, e muito bem informado a respeito disso, Albenor não acreditava que Galinha Preta não tivesse conseguido os dez primeiros quilos combinados e já passava de um mês. Então Albenor se desesperou, pois se encontrava sufocado. Começou a procurar Galinha Preta de maneira diferente, na cooperativa, nos lugares que escondidamente frequentava.
Galinha Preta não atendia mais o telefone, não fazia mais nenhum contato, apenas driblava. Certo dia, Albenor e seu amigo Lobo foram até o garimpo falar com Galinha Preta. Discretamente, o convidaram a ir até Itaituba para acertarem as coisas.
Galinha Preta, amarelado, acuado e quase sem voz, conseguiu pela última vez adiar este acerto.
– Eu não posso deixar que entendam que vou te pagar da maneira que combinamos. Têm uma coisas aqui que não tem como explicar agora, mas daqui a quatro dias estarei em Itaituba e vamos começar o acerto. Pode reunir todas as notas, tudo que eu vou providenciar o ouro. As coisas aqui são um pouco complicadas.
No meio de todo esse jogo, Galinha Preta já teria resolvido até problemas de Albenor na área trabalhista em Belém, mas não tinha a coragem de cobrá-lo diante do montante que devia, pois os seus honorários era apenas de dois ou três mil. Mais uma vez Albenor chegou em Itaituba de mãos vazias, esmurrando as paredes, desabafando sua ira.
– Esse vagabundo, safado, tá brincando comigo!!
Passaram-se os três dias, quando Albenor foi avisado por Helena, a mulher da central de rádio, que Dinho estaria chegando ao aeroporto de Itaituba em um Caravan, avião conhecido como barriga de aluguel, e que queria falar com ele para fazerem o acerto.
– Albenor, parece que ele quer que você arrume suas coisas e leve as notas para ir com ele até Santarém.
Em verdade, Galinha Preta queria trazer Albenor para Santarém para matá-lo aqui. Albenor e sua fiel companheira, D. Nely, foram até o aeroporto, quando o avião estava pousando. Nely precisava voltar para o escritório do posto, deixou Albenor e Fabrício, motorista de Albenor. Quando Fabrício chegou, Galinha Preta já estava com Albenor, de terno e gravata e uma pasta de baixo do braço, dizendo: “Cadê as tuas coisas, cadê as notas? Temos que ir a Santarém que lá é melhor para registrar em cartório, banco, se não vai ficar muito complicada a minha prestação de contas com a cooperativa”.
Albenor, impaciente e se controlando, pediu que Fabrício voltasse de mototáxi para o posto. Foi quando Nely ligou avisando que o Lobo e o Amoroso estavam querendo óleo diesel fiado para movimentarem suas dragas. Albenor finalizou o telefonema autorizando Nely a fazer a venda.
– É o seguinte, eu não posso ir contigo a Santarém! Você falou que ia trazer dez quilos de ouro! Você já me desestabilizou por inteiro, está mexendo com meus nervos! Pelo amor de Deus, para com isso!!
Galinha Preta, com seu jeito maneiroso e sempre aparentemente muito bem equilibrado, com uma certa frieza disse:
– Ninguém vai se matar por isso, amigo! Tu só vai comigo a Santarém e volta amanhã mesmo e volta com a coisa resolvida! O ouro já está comigo, mas não pode ser assim!
Albenor disse:
– Cara, temos que ir lá em casa buscar as notas.
E assim os dois foram para a casa de Albenor. Galinha Preta sentou numa cadeira de ferro branca no pátio da casa enquanto Albenor foi buscar as notas no cofre. Mas, desconfiado, botou um revólver 38 na cintura. Galinha Preta foi folheando uma a uma e foi esboçando controvérsias:
– Esta nota aqui ainda não foi paga? Esta assinatura aqui é minha? É um absurdo! Ei, isso aqui é sacanagem! Descordo deste valor!
Albenor que se encontrava em pé, foi tomar as notas das mãos de Galinha Preta, quando, muito ágil, recusou a entregar e deu um soco no peito de Albenor.
Galinha Preta foi se jogando para ficar protegido entre a cadeira maior e a parede, e abrindo a pasta para tirar sua pistola 9 mm. Albenor estava com sua arma mais fácil, sacou e correndo para o portão, atirou na direção de Galinha Preta, que estava caindo ao chão, com o tiro na nuca. Albenor abriu o portão e saiu para a rua, ficou observando o sangue escorrendo pelo piso e se misturando com a água do esgoto e viu a pistola caída para um lado, celular para o outro e que Galinha Preta se encontrava morto. Albenor, aos gritos e berros, começou a dramatizar:
– Tá vendo, cara, o que tu fizeste comigo? Tá vendo o que fizeste eu fazer contigo? Foi pra isso que tu bateste na porta do meu escritório?
Teve uma crise e choro entalado por mais de meia hora perto do corpo. Recompondo-se, voltou ao portão, olhou o movimento da rua, alguns meninos jogavam bola do outro lado. Albenor entendeu que ninguém ouviu o tiro ou tomou nota do que aconteceu. Induzido por isto, e ter sido este o seu primeiro e único crime, com a inexperiência, preferiu ocultar. Por telefone, chamou um amigo de identidade ignorada, sabe-se apenas que se tratava de um peão rodado:
– Vem aqui em casa agora! Preciso da tua ajuda!
Quando o homem chegou, Albenor conclamou:
– Me ajuda! Aconteceu um acidente, uma besteira! Me ajuda a tirar isso daqui!
Tendo passado este tempo, o telefone de Dinho tocava, Albenor pisou em cima que o esbagaçou. Era o pessoal da aeronave precisando prosseguir o voo. Foi quando os seus familiares em Santarém não o viram chegar na aeronave. Começaram a fazer alarde.
Lá na casa, o homem sugeriu a Albenor que esperasse a noite chegar, pois como uma cortina, ela iria impedir que vissem Galinha Preta ser jogado no poço.
Obs.: no próximo episódio, as tentativas de se desfazerem das provas, as investigações do Del. Jamil Casseb, e o ainda investigador Sílvio Birro.
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* Santareno, é articulista do blog.