por Joaquim Onésimo F. Barbosa (*)
Há tempos, o Estado figura na penúltima cadeira dos piores da Federação com qualidade de ensino, ficando atrás do Piauí.
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Tarde, talvez, mas não tanto. Ainda é tempo de resgatar a qualidade do ensino num Estado cujos governantes têm discursos para tudo, menos para a educação de qualidade.
Para que se resgate a educação a que todos têm direito, limitada a poucos, aos que têm condições para colocar seus filhos em uma escola privada, onde, supõe-se, ainda que por brincadeira, leva-se a sério a qualidade de ensino, TODOS deverão olhar para a escola e entender que é nela que está parte do problema.
Não apenas na estrutura física, não apenas na falta de apoio, não apenas na falta de servidores, não apenas na falta material para que se realizem trabalhos, não apenas na falta de professores, mas, e também, o problema está na mentalidade de muitos, que deixaram empedrar a ideia de que educação tem que ser papel unicamente do Estado, o compromisso do governo, a responsabilidade de quem está no poder, e ponto.
NÃO. A qualidade da educação pública passa, sim, pela responsabilidade do Estado, dos governos, mas, principalmente, está nas mãos de quem conduz o processo de intercâmbio de experiências no espaço escolar: gestão, corpo técnico-pedagógico, de apoio e dos professores, principalmente, uma vez que são eles que movem a máquina na escola, interagindo com os alunos e mostrando-lhes o rumo.
O professor é um dos profissionais, além dos da área da saúde e segurança, que deveriam ter todo o apoio necessário para trabalhar. Deveria ter tempo suficiente para preparar suas aulas. Deveria ter um espaço adequado para permanecer na escola no tempo que lhe fosse possível. Deveria ter uma biblioteca equipada que lhe permitisse pesquisar e embasar seus conhecimentos. Deveria ter tempo, também, para escrever suas experiências e publicá-las.
Deveria ser além do que um professor. Deveria ser o pesquisador e propagador das suas tantas experiências em sala de aula.
Deveria, mas não é. Falta tanta coisa, entre elas, tempo. O bendito tempo que falta para muitos, para o professor falta em excesso.
Das muitas aulas num dia, há professores que ministram até 21 aulas num dia, trabalham em duas, três, quatro escolas, sobram-lhe poucas horas para o descanso. Aí, humanamente, não há como um pobre como tantos, ter cabeça, no final de um dia de escravidão, para preparar suas aulas com aquela calma e criatividade que deveria ter. Muitos bem que tentam, mas…
O “Pacto pela Educação” vem tentar mudar a direção que tomou a educação pública no Pará. Educação que figura nos palanques políticos, nos discursos das tribunas, nas promessas, nos ditos e desditos. Educação que, certamente, será o cérebro, as pernas e os braços dos candidatos a alguma coisa neste ano eleitoral. Sempre é assim. Sempre foi assim. Desde que me entendo, é assim. Se vai mudar, só Deus sabe.
O “Pacto pela Educação” deve envolver TODOS: família, escola, governo, a sociedade, enfim. Se for apenas para cobrar qualidade sem dar condições, será o mesmo sem nada. Será, como dizem por aí, tapar o sol com a peneira.
Os órgãos de fiscalização deveriam ser mais atuantes nas escolas. Deveriam procurar saber se a família dá a atenção devida quando a escola necessita de sua presença. Deveriam procurar saber se os alunos assistem às aulas regularmente.
Deveriam ir às escolas informar aos alunos que o tal ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) lhe dá direitos, mas também lhe impõe deveres, principalmente aos que recebem apoio financeiro do governo para que estejam em salas de aula.
A direção deveria ser mais gestora e menos a “amiga” que passa a mão na cabeça de professor que falta sem justificar, que chega à escola a hora que quer e sai a hora que lhe convém.
Um pacto exige tanta coisa, entre elas COMPROMISSO, de todos os lados, não de um apenas. Vejo um pacto como um círculo, que não tem lados. Que seja assim o tal Pacto que o governo paraense parece querer colocar em prática a partir de agora. Que não seja apenas porque é ano eleitoral e se precisa justificar a montanha de dinheiro que se recebeu para “reformar” escolas e investir na educação.
A comunidade escolar precisa resgatar a escola pública que se banalizou. Banalizou-se por tantos motivos. Banalizou-se por, talvez, se achar que, porque o pobre não pode pagar uma escola particular, terá que colocar seu filho numa escola do faz de conta. Banalizou-se porque se colocam no comando da pasta da educação pessoas que nada têm de compromisso com aquilo que é o que dá a certeza do futuro da sociedade.
Os governos colocam para comandar a educação aqueles que lhes parecem apetitosos ao paladar, aos que fazem parte do círculo político e carregam a bandeira do partido X ou Y. Os que têm compromisso, quando são colocados lá, não demoram, porque tentam fazer o que deve ser feito, mas desagradam aos que tisnam o discurso da qualidade de ensino.
Que se firme o “Pacto pela Educação”pública, de qualidade, mas também que se façam outros pactos: o pacto pela qualidade nos serviços públicos, o pacto pela segurança, o pacto pela saúde e pelo bom atendimento dos que vão aos hospitais em busca do alívio de suas dores, o pacto pelo correto e justo emprego do dinheiro pago em impostos nas benfeitorias de que o cidadão precisa, o pacto pela ética, pelo respeito ao bem público, o pacto pelo Pará que prime pela qualidade.
Se o “Pacto pela Educação”, realmente for levado a sério, se envolver todos, certamente, a longo prazo, veremos os resultados. O contrário, se ficar apenas no discurso bonito na frente das câmeras, será mais um dos tantos pactos que se fazem e desfazem-se com o tempo.
Que seja a prática pela prática e não apenas um discurso para a prática que ficará gravado sem ser levado a sério.
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* Santareno, é professor da rede estadual de ensino e universitário. É mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia. Escreve regularmente neste blog.