por Nelson Vinencci (*)
Moro na rua Siqueira Campos, a da Matriz. Parece combinado com alguém, ou talvez por pura abestalidade do motora do pancadão: ele passa religiosamente às tardezinhas desfilando com seu possante carro, com toneladas de som, sem que ninguém lhe importune ou mande ele para PQP.
Nos primeiros dias que a barulheira passava na minha venta, já dava para perceber que o sujeito que guiava a tralha gostava de música sertaneja, daquelas que a mulherada mete chifre na dupla e condena os coitados a berrarem suas dores corneais em suas modinhas chorosas e quase sempre melodramáticas. Um tipo de música que chamo de “sertanojo barato” – de amor barato, perfume barato, essas coisas bregas.
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Certo dia, havia acabado de chegar em casa, quando o som explodiu nos meus tímpanos. Então coloquei a cara na sacada para matar minha curiosidade, e saber por que diabos esse infeliz passava ali, olhar a fuça dele para saber quem era o praga, se eu o conhecia ou coisa assim…
Olhei e vi um motorista com “cara de cavalo”. Um tipo de venta igual a que o Pixilinga usava para a do Roni: “Cara de carrinho de pipoca antigo”. Caboclo da cara cumprida.
É estranho, mas realmente não o conheçia. E olhe que conheço muita gente com cara de cavalo em Santarém, mas esse nunca vi ninguém nem parecido.
Juro que ao olhar a figura dentro do pancadão, o som no toco, e ele com a cara de quem estava sentado num geléia, os dentes saiam boca a fora, o olhar de satisfeito, fixo para frente, como se estivesse numa competição e ele vencendo, indo buscar um valioso troféu, guiando seu pancadão num autódromo lotado de aplausos.
Rolava um batidão. Tuchs-tuchs-tuchs-tuchs… o estrondo tremia o prédio e o prédio me tremia de raiva. Só me restou rogar uma praga para ele passar com aquela porcaria embaixo da rede da avó dele, para ver a reação da velha, que certamente ia cacetar o ratuíno com o pinico dela.
Interessante que quando apareceu som alto em carros, os playboys curtiam Barry White – You’re The First, The Last, My Everything, um som de alto nível. Quando passava um playboy com aquele som maravilhoso, causava inveja na gente. Hoje, o pancadão causa ódio, as músicas são tão fuleiras que faz a gente praguejar e odiar o satanás.
Passei a observar mais, pois sou músico e já percebo um excesso de apologia produzidas por bandinhas que vivem no desespero do sucesso, então começam a produzir na linha do oportunismo, sons que chamo de “vômitos de paredão”.
‘Liguei meu paredão na beira do calçadão / só veio mulherão…’ e por aí vai… baboseiras produzidas especificamente para caras de cavalo, donos de camionetes que na realidade são mais ostentadores, que querem aparecer, possuidores de algum dinheiro, ou poder, através dessa barulheira burra, sem contudo e infernal.
Não sou contra nenhuma música, desde que ela esteja equalizada, que não agrida ninguém e se o conteúdo for bom, ótimo. Se não for, também tudo bem, não aturo excesso de som exageradamente agressivo, ruído ensurdecedor.
Se o cara de cavalo quer ouvir o som dele alto que coloque um fone de ouvido e ligue seu paredão só para ele, longe de mim. Agora querer obrigar que eu ouça a música dele, por que ele acha que é da moda, ou interessante no seu pancadão, aí não aceito.
Não me convenço que um ser humano que raciocine, e sinta algo dentro da normalidade humana, consiga apreciar um ruído agressivo, nada mais que um barulho, na intenção que a gente olhe para um brinquedinho que custou caro, o pancadão de um cara de cavalo.
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* É natural de Oriximiná e reside em Santarém. Escreve regularmente neste blog.