por Anselmo Colares (*)
Ver e ler pelo menos parte dos posts virou um hábito que cultivo desde os anos em que fiquei ausente de Santarém, e em vários momentos deixei minha opinião expressa nos comentários ou em textos que você gentilmente publicou.
Ontem, estive em Brasília para assistir à cerimônia de posse da primeira reitora eleita na Ufopa, Raimunda Monteiro, a quem me associei no movimento impulsionado pelo desejo de mudança de concepções e de práticas então dominantes, e com vistas a construção de uma universidade na qual participação e excelência possam sejam princípios da gestão, em todas as suas instâncias. Considero este o grande desafio de minha vida profissional.
— ARTIGOS RELACIONADOS
Fui gerado e nasci em um período conturbado da história brasileira, onde as disputas viscerais pelo controle político do Estado nos fizeram passar de um golpe disfarçado de parlamentarismo para um golpe sem disfarces que resultou em mais de duas décadas de governos que acentuaram os processos de gestão centralizadora e autoritária instalados desde os tempos de nossa colonização.
Cresci vendo, lendo e refletindo sobre as tentativas de construção da democracia e da cidadania, tendo como horizonte o sonho de uma sociedade justa, fraterna e igualitária, sem a exploração do homem pelo homem.
Mas não me engajei nos movimentos mais radicais, embora tenha sido apontado como integrante do Partido Revolucionário Comunista (PRC) quando o grupo de jovens estudantes idealistas do qual eu participava sugeriu meu nome para ser candidato a deputado estadual em uma convenção do então incipiente Partido dos Trabalhadores (PT).
Fiquei mais próximo da Teologia da Libertação e confesso que, ainda hoje, busco em Cristo o referencial para minha conduta espiritual e em Marx o referencial para compreender a sociedade e dar minha parcela de contribuição para transformá-la.
Reconheço que esta opção me deixa vulnerável a críticas de ambos os lados. Mas sigo firme procurando não cair em extremos, tendo como guia a conduta ética, o profissionalismo e o compromisso com em realizar o melhor que as circunstâncias permitem.
Para isto, procuro me manter atualizado, ouvir o máximo das versões sobre um acontecimento antes de dar um veredito e manter a tranquilidade diante dos problemas.
Por isso hoje, estou mais sintonizado com o que se passa em Santarém, e em especial com os acontecimentos que estão marcando a história da UFOPA. Acompanho discretamente o movimento dos estudantes, outros jovens entusiastas e sonhadores lutando por suas utopias, a greve dos servidores em busca de melhorias, e a presença, em ambos os movimentos, de pessoas que até pouco tempo atrás usufruíam dos privilégios e não admitiam que houvesse sérios problemas similares a bombas relógio instaladas para explodirem a qualquer momento, agora cobrando soluções imediatas.
São problemas complexos cujo enfrentamento exige tempo e habilidade para não resultar em aprofundamento da crise.
Como afirmei, a quarta-feira, dia 9, em que a reitora tomou posse, e em seguida eu também passei a ser de fato e de direito o vice-reitor, marca o início do de um grande desafio, que eu considero ser o de realizar uma gestão que seja democrática sem que isto se confunda com bagunça, e ter excelência sem que isto implique em discriminação.
Descentralizar sem deixar de acompanhar e de fiscalizar. Ter autoridade sem ser autoritário. E acima de tudo um profundo zelo para com a utilização dos recursos públicos. Eis uma tarefa coletiva que não pode ficar sob a responsabilidade única da administração superior da universidade.
Reitora e Vice Reitor, mas também os pró-reitores, seus respectivos diretores e coordenadores, diretores de institutos e seus respectivos colaboradores, coordenadores de programas, de cursos e de quaisquer outras atividades são parte integrante da estrutura administrativa e possuem responsabilidades perante a comunidade interna e externa.
Merecem todo o apoio da administração superior para que possam resolver os problemas com rapidez e eficiência, mas precisam ter a sensibilidade para ouvir e a capacidade para identificar situações merecedoras de atenção antes que se convertam em prejuízo para as pessoas. E caso o problema já esteja instalado, é necessário se interessar verdadeiramente na solução.
Se não souber ou não for de sua competência, encaminhar para quem pode resolver. Mas não deixar sem respostas. Eis as mudanças que precisam ser implantadas no tocante aos procedimentos cotidianos. Acredito que ao longo deste ano de 2014 possamos avançar muito e já iniciarmos o próximo ano letivo com melhorias significativas nos processos de seleção e de ingresso dos estudantes, bem como no tocante aos programas de apoio estudantil e aos projetos pedagógicos, de pesquisa e extensão.
Paralelamente, estaremos trabalhando para avançar na melhoria do relacionamento com a sociedade em geral, tanto com as instituições do Estado quando com as organizações da sociedade civil, tornando efetiva a presença da UFOPA em toda a sua área de abrangência que coincide com o espaço geográfico do tão sonhado Tapajós.
Tarefa enorme pela frente. Mas como reconheço meus limites, peço ajuda. Tanto divina quanto humana. Ao mesmo tempo em que assumo o compromisso de me dedicar a esta tarefa como tenho feito ao longo da minha carreira profissional.
Por fim, quero registrar meus agradecimentos a todos os que acreditaram, acreditam e confiam na minha conduta e nos meus propósitos em prol dos avanços na área educacional.
– – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – –
* Santareno, é o atual vice-reitor eleito da Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará).