Jeso Carneiro

Um marco na história de Santarém

MEDICINA UEPA 2012
Os concluintes da 1ª turma do curso de Medicina da Uepa, campus de Santarém

por Telmo Moreira (*)

Hoje é um marco na história de Santarém. É a outorga do grau em Medicina da 1ª turma da UEPA – Universidade do Estado do Pará. Quando da proposta de criação de tal curso, não sabia como poderia ser possível, visto ser oriundo de um modelo educacional totalmente diferente e não tinha noção do PBL (sigla em Inglês) de Ensino Baseado em Problemas.

Uma colega de turma e professora da UFPA tirou minhas duvidas naquela época, me disse que já havia estudos e que a metodologia não era superior à tradicional, porém não era inferior, ou seja, se equivaliam. Depois descobri que era mais prático, porque o sistema de tutoria exigia um número menor de professores e cheguei à conclusão que somente com o PBL seria possível ter um curso de Medicina no Pará fora de Belém.

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Como fico diariamente no centro cirúrgico, comecei a ter proximidade com os alunos e me deparei com uma turma de jovens estudiosos buscando permanentemente o conhecimento e com uma sede imensa de saber.

Depois, através de conversas, fui descobrindo estórias de vida maravilhosas. Há alguns jovens de famílias abastadas e que viviam em excelentes condições em Santarém, por outro lado alguns eram oriundos de famílias pobres e que aqui enfrentavam grandes dificuldades. Isto, porém, não os tirava o ânimo e a vontade de vencer.

Sempre procurei estar ao lado deles conversando, estimulando-os ou ensinando um pouquinho do pouco que sei, embora não seja professor da UEPA. Sempre os estimulei a procurar, após o curso, pelo menos a especialização. Hoje não se concebe mais o médico sair da faculdade e cair na vida profissional. Se o fizer isso, vai ser presa fácil de aproveitadores, principalmente gestores municipais sem visão de qualidade de vida ou de bem estar para os seus munícipes.

Eu, há 37 anos, já tinha essa ideia e saí de Belém com a passagem de ida, mas com a certeza de que só voltaria de lá (Centro Oeste/Sudeste do Brasil) com o certificado de conclusão da minha residência médica. Terminei voltando e vindo para Santarém com dois: um de residência em Anestesiologia e outro de Estágio em Hemoterapia.

Acredito que a minha conversa e o meu exemplo possa ter contribuído para tomada de decisões de alguns deles, se for positivo, Glória a Deus. Quanto a essa história de que o médico é formado a custa de impostos pagos por todos, inclusive pelos recolhidos pelos pais dos mesmos e que por isso ficam dívidas com a comunidade onde foi formado, isso é balela e falta do que falar. No momento que eu sou um contribuinte e recebo do governo benefícios como saúde, educação ou aposentadoria, estou recebendo o que é um direito constitucional e não devo nada.

Quanto ao local, o Brasil é uma federação e logicamente o cidadão brasileiro de qualquer lugar do Brasil e em qualquer canto desse país tem os mesmos direitos. O estado do Amazonas já tentou fazer reserva de vagas na UEA – Universidade do Estado do Amazonas, para amazonenses ou pessoas que lá já residem há algum tempo e não teve sucesso. Todos que foram aprovados e eliminados com essa justificativa lograram êxito em ações judiciais.

Já temos santarenos formados, ou se formando, que a Justiça lhes concedeu esse direito. Gostaria de saber como começou essa ideia do médico recém-formado ter que prestar serviço no local onde se formou ou ser levado para o interior para passar uma temporada. Nunca ouvi a mesma proposta para qualquer outra profissional formado da mesma forma, e logicamente como é só para médicos podemos considerar uma discriminação com os esculápios.

Eu me formei em Belém, na UFPA, e fiz residência em Brasília e vim imediatamente para Santarém. Tenho quatro filhos, todos formados e especializados fora de Santarém. Dois já estão na terra querida e dois proximamente estarão aqui. Se essa regra valesse, os municípios por onde eles formaram e especializaram estaria pretendendo tê-los por lá.

E tem mais, como disse o meu amigo Helvecio Santos: “Santarém teria prejuízo nessa matemática”. Parabéns, jovens formandos, vocês são realmente o futuro do Brasil em qualquer rincão desse país continental. Deus os oriente e os acompanhem.

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* É médico.

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