
Começa a Festividade de Santo Antônio de Alenquer, padroeiro do povo católico da cidade paraense. Ao longo da trezena, durante o círio, na procissão de encerramento e na virada do dia 13 para o dia 14 de junho, quando a festividade se encerra, como acontece todos os anos, os fogos de artifício agitam a cidade, maravilham os olhos humanos e faz o sentimento pela festa transformar uma sociedade, que também se move pela fé.
A beleza dos fogos diante de milhares de fiéis, fazendo parte de registros fotográficos, filmagens e transmissões, só existe por causa de algumas dezenas de pessoas que, com muito trabalho e dedicação, fazem, pelos bastidores, acontecer o espetáculo de eventos cheios de beleza e história, levando a admirações, lembranças e saudades. Uma dessas pessoas é Joelma Fogueteira.
Joelma Fogueteira é um grande personagem da história católica de Alenquer das últimas décadas, entre o final do século XX e, principalmente, início do século XXI.
Se as pessoas, sejam moradores ou turistas, encantam-se com barulhos e brilhos de fogos durante a festa de um santo, na praça da igreja ou pelos diferentes bairros, quando a admiração é vista de dia ou de noite, num círculo de amizade ou num casal de namorados, é graças à ela.
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Uma personagem de importância sem tamanho, porém, que a mídia raramente ou nunca mostra, mas que está sempre atuando de forma significativa para que uma cidade inteira se mova e celebre a sua fé e a sua cultura.
Ela não é uma autoridade eclesiástica, política ou jurídica. É uma pessoa do povo, que se veste e age da forma mais simples possível, sem deixar de ser carismática, apesar das responsabilidades que lhe cabem em meio aos muitos desafios existentes, dos diversos compromissos que assume e de todo esforço que é notado por aqueles que com ela têm contato.
Joielma que virou Joelma
Nascida na quarta-feira do dia 10 de maio de 1972, em Alenquer, a filha de dona Rosa Amélia Dias Batista foi registrada no cartório pelo nome Ana Joielma Dias Batista. Um erro no seu nome, que era pra ter sido “Joelma”, ao registrá-la, ficaria “errada” de forma definitiva nos seus documentos.
Seu nome nunca foi corrigido. Mas isso não foi necessário. Seus familiares e amigos, além de admiradores, chamá-la-iam sempre de Joelma, já que dificilmente as pessoas se acostumariam a chamá-la pelo nome registrado.
Sempre morou no cruzamento da Rua Rosomiro Batista com Travessa 10 de Outubro, no bairro Centro, onde residia a sua avó materna, dona Teutônia. Era uma das quatro filhas de dona Rosa Amélia. Desde pequena, atuava em alguma atividade da igreja católica, na Paróquia Santo Antônio. Seu carisma veio desde cedo. Participou de grupo de jovens, até que engravidou.
Depois que teve a primeira filha, Joielma interrompeu suas ações na igreja para se dedicar à família. Nem por isso deixou de frequentar missas, estando sempre presente e à vista das pessoas que trabalhavam e ajudavam nas atividades religiosas.
O começo
Na década de 1990, quando tinha aproximadamente 23 aos de idade, Joielma foi convidada por Thio, que na época era coordenador de ornamentação da igreja e do andor do santo, para que ela fosse de casa em casa pedir fogos de artifício para a trezena de Santo Antônio na época. Era uma nova experiência. Tal convite fez com que a jovem começasse a construir uma nova história em sua vida.
Pedir fogos de casa em casa tornou-se um grande desafio. Joielma nunca se intimidou diante dessa missão, que era uma oportunidade de se comunicar com desconhecidos da cidade, que possivelmente desconfiariam ou nem iriam colaborar.
Era uma atividade que exigia saber lidar com as pessoas. Precisava saber ouvir o “sim” e o “não” nas casas por onde passava. Usava suas habilidades na comunicação oral para convencê-los de que aquela era uma boa ação para a comunidade religiosa local.
Por ser incomum, seu nome Joielma não foi tão aceito com quem ela se comunicava pelos lugares por onde passava. Entretanto, o “Joelma” era a forma como mais a identificavam, já que é mais fácil de pronunciar. E, devido a sua atividade de pedir fogos pela cidade para Santo Antônio, as pessoas passaram a chama-la de “Joelma Fogueteira”. Um agrado que ela aceitou com tanta naturalidade que se tornou sua mais nova identidade em Alenquer.
Muitos coordenadores de fogos da paróquia, como Dona Lourdes Simões e Graça Primo, auxiliavam-na nos trabalhos. Joelma, no entanto, era curiosa e queria mais do que simplesmente pedir fogos às pessoas.
Ela queria também saber montar e organizar as estruturas em madeira para colocar os fogos, chamadas de base, que via todos os anos, já que sempre precisava pagar alguém que soubesse fazer a montagem. A primeira pessoa que a ensinou a montar as bases para que tivesse vários fogos encaixados foi a professora Socorro Castro. A partir daí, ela já realizava seus trabalhos por conta própria.
Ela foi se tornando conhecida com o passar do tempo. O nome de Joelma Fogueteira passou a circular pelos bairros de Alenquer. Não somente o seu nome foi tendo notoriedade, como também a sua competência em montar os fogos.
Por volta de 2005, Joelma foi chamada pelo seu tio Paulino Dias, para que ela montasse os fogos para a comunidade São Benedito, no bairro Luanda. Posteriormente, a comunidade São Sebastião, no bairro Aningal, também solicitou seus serviços. Todos esses serviços eram feitos por ela, sem pedir nenhum tipo de pagamento. Era um trabalho inteiramente voluntário.
Joelma Fogueteira não era mais colaboradora apenas da comunidade do Centro de Alenquer. Ela já estava ultrapassando as fronteiras e se expandindo para outros lugares. Suas caminhadas e visitas solicitando doações de fogos já alcançava mais lugares da cidade, caminhando e carregando sacolas com fogos nas mãos, levando no rosto sorriso e otimismo.
Foi montar fogos a convite de dona Ana Ferreira Mota, da comunidade Santa Luzia, no bairro Santa Cruz, assim como foi solicitada para a comunidade São Pedro, comunidade Nossa Senhora de Nazaré, comunidade São Miguel Arcanjo, entre outras.
Havia comunidades religiosas da cidade, como a comunidade Santa Bárbara, em que Joelma não montava as estruturas, mas que as doações de fogos vinham dela. Os fogos eram tantos que ela podia fazer doações.
As solicitações de seu serviço eram tantas que ela já não dava mais conta de tantos pedidos. Se antes ela pagava outras pessoas para montarem as bases, desta vez era ela quem ensinava, já que sozinha ela não dava conta das demandas. E, além de trabalhar com fogos, Joelma passou a fazer muitos outros serviços envolvendo a igreja.
Trajetória de persistência
De acordo com suas lembranças, já que ela não anota o que junta, mas, gabando-se da boa memória, dizendo que tudo está “anotado na sua cabeça”, Joelma afirma que durante uma festividade de Santo Antônio ela angaria, ao pedir de casa em casa, a média de 400 caixas de fogos.
Em cada uma das outras comunidades da paróquia, a média é de 120 caixas de fogos. Mas são números incertos, já que ela não conta. Simplesmente junta, monta as estruturas e entrega aos comunitários.
Joelma Fogueteira é artesã, fabricando e vendendo produtos de crochê, de onde tira sua renda, tem o ensino médio incompleto, mas apesar das dificuldades financeiras, e vivendo numa cidade onde a educação superior ainda engatinha, sempre investiu na educação dos seus cinco filhos.
Tem uma filha enfermeira, um filho engenheiro elétrico, um filho que opera máquinas pesadas, uma filha advogada e um filho que nunca saiu de sua casa, tornando-se seu ajudante nos fogos.
A maioria das pessoas que vê ou ouve falar de Joelma Fogueteira, que se declara devota de Santo Antônio, logo a associa aos fogos das festividades de santos pela cidade. Mas, na verdade, vai muito além dessa simples associação.
Sua trajetória envolve lutas, lideranças, ensinamentos e persistências. Seu legado está em muitas pessoas com quem ela conviveu e ensinou ao longo de quase 3 décadas como voluntária de fogos de Santo Antônio.
Suas ações envolvem trabalhos em equipe, comunicação e parceria. A mulher que caminha pelas ruas de Alenquer pedindo fogos ou quaisquer outras doações, mas que leva aos lares, além de pedidos, sentimentos de amizade e de paz.
Veja neste link um vídeo da Joelma Fogueteira.
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