Antônio Santos: o artista ximango das pinturas bíblicas. Por Silvan Cardoso

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Antônio Santos: o artista ximango das pinturas bíblicas. Por Silvan Cardoso
Antônio Santos, filho de dona Isabel e seu Manoel. Fotos: Silvan Cardoso

Uma vez, quando fui a uma celebração na igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no bairro Planalto, em Alenquer (PA), observei que atrás do altar, na parede dos fundos da igreja, havia três pinturas que há anos tinham chamado a minha atenção.

E por eu ter um pouco de conhecimento de muitas histórias bíblicas, já sabia do que tratavam aqueles desenhos, que não pareciam tão recentes. Mas o que me despertava maior curiosidade não eram as pinturas e sim quem as pintou. Pouco se comentava desse pintor. Depois desses anos, resolvi ir atrás para saber de quem se tratava o autor ou a autora.

Por ver embaixo de cada pintura a assinatura “A Santos” e a data “08/1993”, perguntei aos comunitários daquela igreja quem seria esse ou essa “A Santos”. Mas ninguém soube responder naquele momento em que ocorria a celebração.

Houve alguém que me disse que a pessoa talvez nem estivesse mais viva. Mas continuei a procurar pelo artista desconhecido. Andei pelas ruas do bairro Planalto, mas foi no bairro Centro que encontrei informações da enigmática pessoa e, para a minha surpresa, parentes meus sabiam de quem se tratava.

Disseram-me que aquela assinatura era de Antônio Santos. E, como esperava, falaram-me que ele não tinha morrido. Outra missão depois de saber o nome da pessoa era saber onde encontrá-lo, já que não residia na casa que me disseram que foi dele e que ficava no Centro de Alenquer.

Informei-me com vizinhos próximos, que me disseram que ele estava morando no bairro Independência, longe do Centro, próximo ao Colégio Beatriz do Valle. Assim, sabendo que seu paradeiro era próximo ao colégio, foi mais fácil encontrá-lo, pois grande parte dos moradores da proximidade o conhecia.

Antônio Santos: o artista ximango das pinturas bíblicas. Por Silvan Cardoso
Ao fundo, as pinturas bíblicas de “A Santos” na igreja de N.S. do Perpétuo Socorro

Numa casa humilde de madeira, com cercas ao redor, morava o pintor, que tinha também como passatempo jogar futebol num campo próximo. Seu nome completo é Antônio dos Santos Corrêa. Depois de ser convidado para uma entrevista, não hesitou em parar para conversar e contar um pouco de sua história.

Disse que nasceu no dia 19 de fevereiro de 1957, na zona urbana de Alenquer. Seus pais eram dona Isabel dos Santos e seu Manoel Magalhães Corrêa, conhecido popularmente como “Manduquinha”, ambos falecidos.

Ainda recém-nascido, o pequeno Antônio foi levado da cidade para morar numa comunidade do interior, chamada de Igarapezinho. Teria uma vida regada de costumes e ações típicos daquele lugar, já que ele demoraria bastante tempo para ter novamente contato com a zona urbana. E foi no interior que ele fez seus primeiros rabiscos, desenhando casinhas em seus cadernos, e aflorando as suas habilidades artísticas. Tornou-se um desenhista nato.

Sua adolescência foi inteiramente na comunidade Igarapezinho. Só teve contato com a cidade depois dos 15 anos de idade, quando passou a morar na Travessa Tiago Serrão, no bairro Luanda, próximo à Praça São Benedito.

E foi morando na zona urbana que o jovem procurou mostrar suas habilidades para o público, fazendo diversos desenhos e pinturas por onde andava. A princípio, um de seus sonhos era ser quadrinhista, mas foram nas pinturas em telas, pinturas residenciais e comerciais que ele foi se destacando.

Ao longo de anos, contribuiu bastante para a arte local, levando seus traços e suas cores para vários bairros de Alenquer. Foi também construindo sua vida, tendo depois morado na Travessa Santo Antônio, no bairro Centro.

Uma das telas do artista que cresceu na comunidade de Igarapezinho, em Alenquer

Entre as décadas de 1980 a 1990, Antônio Santos trabalhou como funcionário contratado pela prefeitura, na gestão do prefeito João Ferreira. Foi nesse período que ele criou pinturas que ficaram conhecidas por terem sido feitas nos interiores de igrejas da cidade.

Uma dessas pinturas foi feita atrás do altar da antiga capela de São Sebastião, no bairro Aningal, que anos depois seria demolida para a construção da atual igreja. As pinturas sacras de sua autoria que permanecem até hoje são as três que estão no interior da Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, feitas a pedido da comunidade e quando ele ainda era funcionário da prefeitura.

Nessa igreja, a pintura do lado direito do altar representa a história da Anunciação, momento em que, segundo a Bíblia, o Anjo Gabriel faz à virgem Maria o anúncio de que ela conceberia uma criança de forma milagrosa.

A pintura do meio, menor das três, ilustra o fundo do crucifixo do templo católico, dando vida ao episódio da crucificação de Cristo, mostrando uma paisagem com os dois ladrões, também crucificados. A pintura do lado esquerdo do altar representa o episódio da Ascenção, quando Jesus, já ressuscitado, sobe aos Céus com seu corpo físico.

Antônio Santos continua fazendo pinturas em telas, de residências, de comércios e nos cemitérios de Alenquer, quando chega o Dia de Finados. Mas hoje em dia não vive com a fama de muitos jovens artistas plásticos atuais, que confessam o terem como referência e inspiração.

Na verdade, Antônio Santos não procura fama nenhuma. Faz questão de permanecer recluso, fazendo somente o necessário para sobreviver nessa fase madura de sua vida, recordando que fez pinturas e vendeu-as para pessoas de outros estados brasileiros e até de outros países.

“A Santos” nas telas e Antônio das Selvas nas redes sociais

Hoje em dia, o artista não guarda em sua casa nenhuma obra sua. Cria-as e depois as vende. O que ainda se vê em sua residência são seus rabiscos pelos cadernos e paredes. Se alguém quer conhecer as suas características artísticas, basta entrar a igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, onde ficam as três mencionadas pinturas ou encomendar-lhe alguma tela ou serviço de pinturas em casas e comércios.

Ao todo, Antônio Santos teve 22 filhos. Saiu do bairro Centro para morar o bairro Independência, na Rua Raimundo Colares, distante do intenso movimento urbano. Preferiu um bairro mais tranquilo, como foram seus primeiros 15 anos de vida, que por viver essa fase da vida numa comunidade em meio à mata, passou a adotar as redes sociais o pseudônimo “Antônio das Selvas” – o artista que, sempre que possível, esconde-se da realidade do mundo para viver a sua própria realidade.

<strong>Silvan Cardoso</strong>
Silvan Cardoso

É poeta, cronista e pedagogo nascido em Alenquer, no Pará. Escreve regularmente no JC.

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