O Uirapuru

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por Célio Simões (*)

Célio Simões - Blog do JesoQuem já palmilhou as matas fechadas e úmidas da Amazônia e ouviu o canto mavioso do Uirapuru, certamente ficou embevecido com o suave gorjeio dessa avezinha inventada pelo Criador.

Reza a lenda, inclusive, que quando ele canta, todas as demais se calam para ouvir sua canção. Ensina ainda o folclore sobre a sorte nos negócios de quem o guarda empalhado nas gavetas de seu estabelecimento comercial, afastando a urucubaca e multiplicando lucros. As homenagens que se lhe prestam são incontáveis.

Leia também dele:
A menina do fim da rua.
A dama da madrugada.

Os shows da banda de Nilo Amaro e seus Cantores de Ébano, formada só por negros, atraíam multidões na década de 60, tendo adotado como sua música-símbolo a bela canção denominada “O UIRAPURU”. Apresentarem-se uma única vez em Santarém, no Clube Recreativo, salvo engano em 1968.

Desse prestigiado grupo musical sobrevive apenas Washington Benevides, residente em Brasília, onde leciona canto numa escola do Distrito Federal para alunos carentes. Os demais já se foram, deixando saudades, inclusive Nilo Amaro, que faleceu em Goiânia em 18.04.2004, motivando a dissolução do excelente conjunto.

Entretanto, esta crônica não versará sobre as qualidades canoras do predito passarinho, embora mereça ele, pela formosura dos seus trinados, todas as homenagens dos amantes da natureza. O UIRAPURU foi o nome dado ao primeiro jornal em que ousei escrever alguma coisa, por obra e graça da querida mestra Jeanett Vieira, no Grupo Escolar José Veríssimo, atualmente conhecido pelo quilométrico nome de Escola Estadual de Ensino Fundamental José Veríssimo.

A coisa aconteceu mais ou menos assim. Era Diretora do Grupo naquela época, a estimada Maria Gessi Ferrari e minha professora na 4.ª série, Wanilda Carvalho. As notas que eu ostentava no boletim eram boas, mas algo conspirava contra mim no item “comportamento”, invariavelmente classificado como sofrível. Eu sinceramente não sabia o que significava sofrível. Contudo, desconfiava que coisa boa não podia ser, a começar pela expressão severa da minha mãe, quando detidamente analisava o documento.

A verdade é que eu não era nenhum candidato a papa e tinha consciência desse fato. Como resultado, fiquei reprovado na 5.ª série, no ano de 1960, porquanto a nota global ficou abaixo do limite mínimo, que era 50. Lembro-me como se fosse hoje. Português: 73; Matemática: 30; Média: 5,1; Média de exercícios: 63; Média da prova parcial: 62. Resultado geral: Reprovado em Matemática! Sujeito bronco… Logo matemática, uma ciência exata, onde dois mais dois será sempre quatro! O jeito foi repetir o quinto ano, impedido que fui pela autoridade materna de submeter-me ao chamado “exame de segunda época”, uma espécie de “colher de chá” então concedida aos desidiosos pelo sistema de ensino vigente. Definitivamente reprovado, ganhei um novo e pejorativo status. O de repetente.

Quando voltei a cursar o quinto ano, em 1961, minha professora foi Jeanett Vieira. Antes do início das aulas, deram-lhe a “dica” sobre o padrão de comportamento de alguns alunos, reputados indesejáveis por qualquer professor. Encabeçando a lista, eu, Nahum Duarte, Jacques Chocron, Mário Coelho e outras flores, classificados na lista dos desclassificados.

Preveniram a mestra que aqueles moleques reviravam a sala de cabeça pra baixo, viviam sendo punidos (inclusive em casa), eram colocados de joelho na Diretoria, os pais freqüentemente chamados à escola para reclamações, sem que aparentemente nada pudesse fazê-los proceder de forma racional. Em plena aula, atracavam-se em furiosas lutas corporais. Havia o costume de esguicharem tinta Parker azul da caneta “Skater”, no uniforme dos outros. Quando não, faziam “guerra” com bagaço de laranja, apanhadas no vasto quintal do Dr. Emanuel Simões, advogado bonachão que fazia vista grossa àquela traquinagem e residia vizinho do Grupo. Um inferno!

A professora Jeanett, apesar de enérgica, era uma pessoa de temperamento calmo e trato extremamente afável. Fez-me gostar de geografia nas primeiras aulas que ministrou, mercê da habilidade demonstrada nas explicações e dos recursos didáticos que lançava mão. Estudar matemática com ela virou um prazer. Aprendi, mesmo sem alcançar a utilidade prática da equação, “que um decímetro cúbico é igual a um litro”.

Eventualmente, entretanto, necessitava ela paralisar suas aulas, para acalmar o molecório que ameaçava uma nova briga, por razões de beiravam a futilidade.

No vasto quintal do José Veríssimo, alguns metros atrás da cantina onde diariamente era distribuído um mingau de fubá com gosto de pólvora, existia um umbroso pé de azeitona, periodicamente recheado de frutos, que vinham ao chão ao menor sopro do vento. A azeitona preta deixa no tecido uma nódoa que só pode ser removida após várias lavagens, dando um trabalhão para não deixar qualquer vestígio. Aquela molecada, encontrava enorme prazer em esmagá-las na blusa dos colegas, apenas pelo mórbido prazer de ver o estrago causado pela brincadeira de extremo mau gosto.

Lembro-me que certa vez certo aluno, de prenome Joel, clandestinamente contrabandeou para dentro da sala de aula, durante o recreio, um casco de tartaruga encontrado no lixo, com o propósito de colocá-lo embaixo da mesa da professora, com o intuito de fazê-la desmaiar de susto. Não chegou a consumar seu audacioso plano, porém, pela sua malévola intenção, dá para fazer uma exata avaliação do nível daquela escumalha travestida de alunos.

Notando que na base da repressão seria difícil cumprir sua tarefa, a mestra teve um estalo que se revelou como definitiva solução para o incontornável problema disciplinar. Informalmente, convidou-nos e a outros discentes vistos como indisciplinados, para confeccionar um jornal mural, onde seriam divulgadas poesias de nossas autorias e exibidas matérias de interesse geral, com ilustrações recortadas da revista “O Cruzeiro”, a mais prestigiada daquele tempo. O intuito era despertar o interesse, a curiosidade e a colaboração de toda a classe em prol do modesto empreendimento. Inicialmente hesitantes, fomos aos poucos aderindo e sob sua firme liderança, passamos todos os meses do ano de 1961 confeccionando, redigindo e divulgando nosso jornal.

Faltava-lhe porém um nome de consenso, algo ligado à Amazônia e esse foi escolhido em homenagem ao pássaro cujo canto, encanta. O periódico foi batizado de Uirapuru. Um santo remédio para nossa natural falta de vergonha na cara; a calma, como num passo de mágica, prevaleceu até o último dia de aula entre os integrantes daquela conturbada turma, cujos integrantes ganharam o mundo e consolidaram seu futuro.

Posso dizer, sem receio de errar, que a incipiente experiência de confeccionar um jornal de forma artesanal, bolado por uma criativa professora como forma de superar o tormento de ministrar aulas para aqueles candidatos a marginais, foi o passo inicial, certamente a primeira experiência a despertar-me o gosto pela leitura, o prazer de redigir, embora minha Cidade Presépio seja um celeiro de personalidades que o fazem infinitamente melhor, marcando época como consagrados escritores. Dos três paraenses que fundaram a Academia Brasileira de Letras, dois eram de Óbidos, respectivamente Inglês de Sousa e José Veríssimo, ambos dispensando apresentações.

A quando da fundação da Academia Paraense de Jornalismo, outorgaram-me o título de Sócio Honorário Fundador daquele silogeu, do qual mais tarde me tornaria sócio efetivo, embora não seja eu jornalista profissional, eis que escrevo minhas garatujas por diletantismo, divulgando-as mercê da generosidade de blogueiros e amigos donos de sites.

Ao receber o honroso galardão na APJ me veio à mente o modesto jornal mural do Colégio José Veríssimo, quiçá o passo inicial do amor aos livros que, a par da família e do trabalho, ocupam todo meu tempo e constituem minha motivação de vida.

De qualquer ângulo que a iniciativa habilmente urdida pela mestra Jeanett possa ser vista, com intuito disciplinador ou não, sua estratégia teve pleno êxito, por isso não me furto a esse reconhecimento, só agora tornado público mesmo de forma serôdia, pois mais de cinqüenta anos se passaram, e a gratidão permanece intocada em relação aos que me orientaram nos primeiros passos, o que deve ser dito e repetido nesses tempos bicudos de violência absurda e gratuita em que dedicados professores colecionam agressões de alunos, sob o olhar conivente dos próprios pais. Agradecer, apenas isso, atende os clamores da consciência e aqui o faço sem rebuços, movido por imperativo de justiça.

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* É advogado, membro da Academia Paraense de Jornalismo, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e da Academia Paraense de Letras Jurídicas. Escreve regularmente neste blog.


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Advogado e escritor, nasceu em Óbidos. É membro da Academia Paraense de Letras Jurídicas e do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Reside em Belém e escreve regularmente neste blog.

2 Responses to O Uirapuru

  • Parabéns Célio Simões pelo consistente comentário. Jeso Carneiro, é gostoso e faz bem ao espírito, ler um comentário consubstanciado no conhecimento profundo do seu relator. Realmente, sobre o pássaro o UIRAPURU, tem muitas prosas, versos e lendas. Com muitos matizes e nuances, ele é parte da nossa fauna AMAZÔNIDA ! Que abunda e exubera ! Acredito imensamente no seu poder da sorte ! Quando vou atrás das …, solto meu UIRAPURU e vou enfrente a procura …; e não é que dá sorte mesmo !!!

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