por Célio Simões (*)
O título desta crônica não configura uma repetição servil da obra do mesmo nome, do autor americano Laird Koenig, transformada em filme pela Colúmbia Pictures, tendo a bela Jodie Foster no papel principal. Ao fim do texto, estarão aclaradas as razões pelas quais eu e “ele” a tratamos assim, por esse quase pseudônimo.
“Ele”, no caso, é o meu dileto amigo, engenheiro civil e talentoso escritor Ademar Amaral, que vive abiscoitando prêmios, inclusive da Academia Paraense de Letras, pelos seus livros e crônicas publicados, e eventualmente aborda esse assunto, que de mim tem merecido, até hoje, obsequioso silêncio.
Menciona Ademar, não sem razão, que na adolescência “azaramos” em Óbidos a mesma garota, sem que esse invulgar relacionamento em nenhum momento interferisse em nossa velha amizade. Numa das vezes que nos encontramos, em concorrida reunião da nossa Academia Literária, prometi discorrer sobre esse fato num dos meus insossos escritos e é isto que agora pretendo fazer.
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Lembro com nitidez que era maio. Eu estava à porta de casa, olhos pregados no céu coalhado de papagaios coloridos que eram empinados a partir do vasto terreno baldio que circundava o antigo matadouro. No quarteirão da Rua Dr. Machado, onde eu morava, um ajuntamento de moleques tirava plantão à espera do confronto aéreo que depois de iniciado, só admitia um único vencedor, geralmente o dono da linha melhor encerada, com o famigerado cerol feito de mistura de cola com o pó azul de vidro moído de magnésia bisurada.
– Chinou!!!
Ao som desse grito de guerra, a turba munida de varas desembestava atrás da pipa abatida, que rodopiava no ar enroscando a cauda no que restava da linha presa ao peitoral e seguia seu flutuante bailado ao sabor do vento, atravessando espaços, até pousar suavemente em algum telhado ou nos galhos do frondoso abieiro da dona Domingas.
Dali era prontamente recolhido por quem chegasse primeiro, desde que escapasse à ferocidade da “Sereia”, fiel cadela que pastorava o vasto e arborizado quintal. Tivesse a má sorte de cair no leito da rua, era o papagaio imediatamente trucidado pelas mãos ágeis do molecório ensandecido, sob um coro uníssono: – Guisa! guisa! Coisa de doídos…
Naquela tarde de céu lavado e vento forte, o movimento no dito quarteirão engrossava com o trânsito dos moradores vindos das bandas da Rua do Umarizal, já na cabeceira do Lago Pauxis, rumo ao trapiche; cada qual trazia uma tarrafa no ombro para bamburrar no jaraqui, o peixe símbolo da cidade que aos milhares fervilhavam no Rio Amazonas no auge da piracema.
À época, a Rua do Umarizal, apesar do leito de terra batida, era um primor de limpeza, pois caprichosamente varrida diariamente com vassoura de pauzinhos pelos próprios moradores. Dona Domiciana, nossa lavadeira, morava lá, numa casa embarreada coberta de palha como as demais e também cultivava esse saudável costume, traço comum de sub-reptícia civilidade daquela acolhedora gente.
O som cavo do guindaste do matadouro, ao ser puxada a corrente, anunciava que o abate de gado já começara. Era a hora de pegar a cesta e ir comprar fígado e coração, pesados e conferidos pelo administrador José Matos. Esses momentos propiciavam o encontro com a curriola e todos, empoleirados no curral de madeira, viviam a expectativa de ver o Sabá Cabeça promover a matança dos porcos com certeira porretada na moleira ou o Chico Preto sangrar o rosilho acutilando-o na nuca.
O matadouro municipal era uma espécie de território livre dos moleques da minha época e aqui acolá um deles era brindado com uma fiapada de chicote, quando aprontava uma sacanagem além da conta.
Eu já estava me preparando para mais uma incursão ao curro velho quando olhei para os lados da oficina do mestre Aurélio Filizzola e…lá vinha ela! Fiquei estático vendo aquela figura loura e esguia se aproximar, ao tempo que, graciosamente, procurava ela desviar-se dos garotos correndo alucinados para todos os lados na caça aos papagaios “chinados”, levando tudo de roldão e fazendo gritar de espanto os animais domésticos que placidamente beliscavam o gramado. À medida que era vencida a distância que nos separava, fixei-me nos detalhes daquela figura saída de sonho.
Alta e clara, cintura fina de caba tapiú, pernas torneadas, o vestido azul de bolhinha branca que usava destacava-lhe a firmeza do busto, parcialmente encoberto pelos cabelos que despencavam em cascatas para além dos ombros, emoldurando-lhe os olhos quase verdes, no rosto suave e belo.
Ao passar por mim, pareceu de repente notar minha presença e dirigiu-me um “Oi!” seguido de um sorriso travesso, cheio de subentendidos, continuando porém seu trajeto rumo à rua da beira, andar sinuoso de cobra lambada, enquanto eu – tímido moleque de treze anos – permaneci estático, o coração batendo na têmpora, os joelhos virando geléia, olimpicamente esquecido dos papagaios que teimavam em cair ali por perto.
– Caldo de cana! Olha o caldo de cana!… O simpático “Tá na Vez”, cujo nome de batismo nem ele lembrava, ambulante que por muito tempo vendeu garapa gelada num carrinho de mão, com o gelo embrulhado numa sarrapilha rota e encardida, tirou-me com seus gritos do estado de quase letargia que de mim tomou conta a passagem daquela musa, surgida do fim da rua.
Quem era ela? Decidi segui-la à distância. Separava-nos uns cinqüenta metros. Quando atingi a Farmácia Esculápio, ela já estava próxima do antigo solar do Barão do Solimões – obidense que logrou o título de doutor em Direito pela Universidade de Coimbra, em pleno Brasil Império – fazendo-me apressar o passo porque a vi dobrar à direita, atingindo a Praça José Veríssimo (homenagem a outro ilustre filho da terra) sala de visita da nossa cidade. Quando ali chequei ofegante, divisei o torvelinho de gente olhando para uma confusão que se formara próximo à banca de tacacá do Pindoba. Parei para olhar, movido pela curiosidade e isto me custou o preço de perdê-la de vista, pois se eclipsara entre as demais pessoas no entre e sai das casas comerciais.
Daquele momento em diante o assunto ficou zanzando da minha cabeça. A menina do fim da rua fizera brotar numa tarde de verão meus instintos de adulto, apenas porque me olhou e disse “Olá!”. Foram-se as brincadeiras de pira-mãe com os colegas do grupo escolar, as incursões na Serra da Escama para gapuiar borboletas, os mergulhos nas águas revoltas do Porto de Cima, as pescarias de tardes inteiras no Laguinho, incrustado pela natureza a pouco mais de cem metros da minha casa.
Eu só pensava nela. Esqueci meu estoque de gibis com as histórias dos meus heróis – Zorro, Durango Kid, Roy Rogers e o Fantasma – dois velhos valendo um novo, os quais, vendidos no mercado paralelo, apurávamos o dinheiro do ingresso para assistir às matinês no Cine Trianon. Releguei a segundo plano até mesmo os refrescantes banhos no Juncal, de pouca fundura e águas translúcidas, com que virtualmente mitigava o furioso calor, pois Óbidos, cidade histórica de ladeiras e casarões chantada bem no alto de uma colina, ainda assim não escapa à inclemência do clima tropical.
Ficava em casa estivado na cama, olhar pregado no firmamento de teias com que as aranhas teciam suas armadilhas nas telhas fabricadas na cerâmica “Alvorada” do velho “Ninô”. Sentia-me como que magnetizado. A criatura a modo tinha o poder da IARA, cativante deusa que vive no fundo dos rios e lagos, de encantadora voz e rara beleza, capaz de entorpecer o ânimo e a vontade, assim anulando o instinto de sobrevivência dos homens cujo amor cobiça. Para aquela situação estúrdia só havia uma solução: reencontrá-la. Onde, porém?
Fui confidenciar minhas angústias com meu fiel escudeiro Neolino, que chamávamos de “Cuca” (não por suas habilidades culinárias, próximas do zero) tapuio de rosto redondo e cabelos hirtus (que lembrava explosão em fábrica de peruca), serviçal da casa da minha avó Dica Simões, um pouco mais velho do que eu e metido a saber das coisas, mestre que dizia ser nas crendices e superstições do Matá, comunidade quilombola onde nascera e fora criado.
Encontrei-o entretido em armar um mundé para pegar ratos, próximo ao jirau da cozinha, porque o “Italiano”, seu gato de estimação, não estava mais dando conta do recado. Drama revelado, ficou pensativo, me olhando e por fim sentenciou, naquela sua voz esganiçada e na linguagem típica de caboclo do interior:
– Num forceja, meu mano. Se ela num tiver com maranha, prepara uma arapuca que ela cai. Depois dou um bordo por ai e descubro quem ela é…
A verdade é que o “Cuca” tinha outros afazeres e suas “investigações” eram limitadas, condicionadas que estavam às suas idas ao mercado, quando para lá se dirigia à tarde visando comprar cartão, senha infalível para a aquisição da carne no dia seguinte. O tempo estava passando. Minhas notas no boletim do Grupo Escolar José Veríssimo (homenagem ao filho mais ilustre da terra) começavam a declinar. Onde diabos a moçoila se escondera? Primeira paixão de moleque é fogo!
A vida escoava assim, remansosa, até que algum capricho do destino levou, tempos depois daquele primeiro encontro, a família da menina que eu continuava a ignorar quem era, a fixar residência bem próximo de minha casa. Puxa vida! A partir daí, os contatos ficaram mais freqüentes, demo-nos a conhecer, veio a amizade com seus irmãos forjada nas brincadeiras de rua e quando nos apercebemos, estávamos entregues à doce paquera que galvaniza o coração e alma dos adolescentes, com direito a furtivos encontros na calçada da residência de dona Maria Menezes, com a cumplicidade da freqüente falta de luz elétrica no poste, durante a maceteação longa, enfadonha, porém benvinda da Voz do Brasil, quando nossos pais não desgrudavam dos aparelhos de rádio à cata de novidades no centro do Poder.
Impõe-se o esclarecimento de que “paquera”, naquela época recuada, não ida além de sôfregos beijos e abraços, quando muito rarefeitas consumações periféricas desde que vencida a barreira da inibição, pois era imperioso zelar pelo conceito das moças, livrando-as da difamação. Não é isso que hoje se constata dentro ou fora das novelas, quando o casal parte para o tudo ou nada já na primeira abordagem, com o invariável objetivo de “ficar”.
A “azaração”, que ainda não tinha esse nome, tinha dia e hora para acontecer, e não podia ir além das delimitações traçadas pelas conservadoras normais ditadas pela sociedade da época, em especial nas pequenas cidades do interior. O certo é que nos entregávamos ao nosso particular idílio, como se nada estivesse acontecendo, e eu fazia questão de preservar essa aparente normalidade, pois tal me permitia vê-la com freqüência, na companhia de seus demais irmãos, em animadas brincadeiras a cada crepúsculo – para pouco mais à noite desfrutarmos de um encontro só nosso, permeado de uma energia eletrizante capaz de vir à tona ao menor contato, situações em que os reprimidos desejos me transportavam à suprema catarse.
Um dia apareceu o Ademar. De físico franzino, olhos claros, sorriso fácil, labioso, bem nascido, com grande capacidade de comunicação, prenúncio do observador arguto e premiado escritor que de futuro seria, matriculou-se na escola particular Santo Antônio, da festejada mestra Córa da Silva Simões, minha querida tia, onde por coincidência eu também estudava. Muito cedo solidificamos nossa amizade, compartilhando o gosto comum pelos encantos da vida na fazenda, origem comum de ambos.
Falava-me ele, entusiasmado, de um certo “Lago Mole”, santuário ecológico e berço de enormes pirarucus, situado nos confins do Paraná de Dona Rosa, braço do Rio Amazonas de mais de 45 km de extensão inteiramente navegáveis, para quem demandava a cidade de Juruti, que ele percorria a bordo do elegante barco “Major Veloso”, de propriedade de sua família. Dizia-lhe eu, em contrapartida, das coisas acontecidas nos verões, especialmente às margens do Igarapé do Pau Mulato, quando de férias também, eu me arriscava em habituais surtidas para tarrafear acari, aruanã e tambaqui, tendo como parceiros os curumins das redondezas.
Para ultraje aos meus brios de macho dominador, tempo depois ficou ele conhecendo a mesma menina do fim da rua, não mais em sua fase suburbana, pois que agora ela já habitava os limites centrais da urbe, com o que ficara ainda mais charmosa e “produzida”. Desdita minha, talvez tenha ele experimentado a mesma sensação que me paralisou naquela tarde de Maio, quando ela passou e disse “Oi!”. Constatei – e fingi não notar – que as atenções da menina passaram a se repartir, ora voltadas para mim, ora concentradas nele, sem que entre nós houvesse qualquer eiva de atrito, menos por nos haver dominado eventual síndrome de “Dona Flor e seus dois maridos”, porém pela pureza e grande dose de ingenuidade, típicas da infância e da adolescência dos anos cinqüenta, mercê do isolamento em que vivíamos livres das mazelas sociais que hoje enfermam os jovens das nossas metrópoles.
Essa velada e cordial porfia teve seu momento mais inusitado em determinada noite, quando Ademar e eu, tangidos por inesperado surto de intransigência, não abrimos mão de ficar em sua agradável companhia, sabendo que havíamos atingido um ponto em que não era mais possível disfarçar nossos sentimentos. Abertamente, lutávamos pelas atenções e o amor da mesma garota. Ao cair da tarde, encontramo-nos na bucólica Praça de Santana, que até mesmo pela fartura de flores naturais presta-se como nenhum outro como cenário para a convalescença da alma e os males do coração. Tivemos uma conversa séria.
Esgrimi como argumento de defesa minha antiguidade nos encontros com aquela beldade que me resgatou da meninice fazendo-me conhecer a beleza do amor que se fez tão perene quanto à relva. Ele, frio e calculista, redargüiu com um argumento aparentemente irrespondível. Chegara depois, é bem verdade, porém passara a desfrutar dos olhares e amares da mesma menina, o que significava uma tácita e definitiva escolha, da qual jamais desistiria porquanto a opção fora dela e não dele apenas.
Argumentos apresentados, os três acomodados no banco central da praça, ficamos numa expectativa de condenados no aguardo do inusitado veredicto. E quando por fim ela falou, o fez de modo a nos deixar estarrecidos, não propriamente pela salomônica decisão adotada, mas pelo fato de condenar seus ardentes amores e admiradores a uma partilha para a qual não estavam preparados. Com expressão de imensa ternura, deu-me um beijo no rosto, outro no Ademar (…que sacana…) convidou-nos para um giro pelo arraial regurgitando de gente e lá fomos os três, ela de mão dada com os dois, sem que tal atitude despertasse a mais remota suspeita, eis que até as pessoas mais próximas nos viam como simples e despretensiosos amigos.
A vida segue seu irreversível curso. Ademar foi estudar no Colégio Dom Amando em Santarém, de lá seguiu para Belém já para enfrentar os bancos acadêmicos até concluir o curso de Engenharia Civil pela Universidade Federal do Pará. É um dos melhores engenheiros que conheço, cronista, romancista e escritor de várias obras, premiado em concursos pela Assembléia Paraense e pela Academia Paraense de Letras. É também membro fundador da Academia Artística e Literária de Óbidos e tem honrado o silogeu com sua brilhante atuação intelectual.
Tomei também meu rumo, fixando residência em Belém a partir de 1966, tornando-me advogado. Afinal, cada um de nós tem que arranjar um jeito de ganhar a vida “nem que seja honestamente” como diz o Hélcio Amaral. Ao reencontrá-lo depois de muitos anos, foi possível dar continuidade à velha amizade, desta vez reforçada por um bate bola nas tardes de sábado, que hoje não jogo mais, a par de freqüentes encontros onde são invocados os episódios mais marcantes da nossa adolescência.
Até hoje não conseguimos encontrar uma explicação plausível para a trilogia amorosa protagonizada pela menina do fim da rua, que certamente ao casar (com outro), nos esqueceu por completo.
Revelado está, portanto, o insólito caso até então só conhecido nos detalhes por nós três. Pelo visto, nada de extraordinário. Primeira paixão de moleques, passageira como as chuvas de verão. Torná-la pública serve para ilustrar os sentimentos que dominavam uma época, felizmente livre de violência, gangues e drogas. Disputar a preferência daquela beldade outro resultado não teve para nós, a não ser consolidar uma amizade arrolada entre as mais autênticas, como, aliás, são todas aquelas surgidas nos bancos escolares, época da vida em que nada temos para trocar, a não ser a própria amizade. O nome da menina? Nem sob tortura. Esse é outro compromisso reciprocamente assumido e que pretendemos honrar sem prazo de validade.
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* É advogado, membro da Academia Paraense de Jornalismo, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e da Academia Paraense de Letras Jurídicas. Escreve regularmente neste blog.
Parabéns pela crônica Sr. Célio
Acho que a maioria dos garotos dessa idade e dessa época, vivenciaram esses sentimentos do despertar para a pura e inocente paixão.
Aconteceu algo parecido comigo nessa idade, quando despertei para uma garota que morava ao lado de uma casa que tinha um poço, onde com muita “preguiça” eu pegava água para minha casa.
Depois dessa descoberta, não faltou mais água em casa, e quando o “caburão” enchia e dava saudade de vê-la pelas brechas da cerca de onde pegava água, eu secava ou meiava o dito “camburão” só para buscar mais água e vê-la novamente.
Bons tempos que não voltam mais…
Que beleza. Célio, vê se não demora a publicar tuas crônicas. Não me deixa esperando tanto, seu Sacana.