A dama da madrugada

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por Célio Simões (*)

Célio Simões - Blog do JesoPassava muito da meia-noite naquele junho de 1965 e o luar, varando as folhas das árvores da rua de terra batida, iluminava as feições cansadas e sonolentas do sargento Bulhões, um negro alto e corpulento que integrava o destacamento da Polícia Militar de Óbidos.

A situação vivida por ele e seus colegas de farda era a mais incômoda possível. Não era obidense, porém conhecia praticamente todos os moradores da cidade, uns pelo nome, outros apenas de vista, “do mais pobre ao mais nobre”. E a tal de revolução de Março do ano anterior, como que passara ao largo daquele lugar abençoado, perdido nos rincões da Amazônia, só acessível de barco partindo de Santarém, aonde se chegava de avião, vindo de Belém.

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O drama da cheia.
A lenda da “Cabeça do Padre”.

De Policial Militar já contava algum tempo. Sentara praça por opção, seguindo quase que por atavismo uma tradição familiar. Seu pai, avô e bisavô integraram a força pública do Estado e disso davam notícias as fotografias espalhadas pela sua casa, cada uma delas revelando um ato de heroísmo de seu protagonista.

Combates com jagunços travados nos ermos daqueles sertões, perseguições e lutas da fase da cabanagem, batalhas contra os fanáticos de Antônio Conselheiro na Bahia, refregas contra os legalistas na Revolução Constitucionalista de São Paulo apoiada por estudantes e militares paraenses, ou simples exercícios de adestramento com equipamento militar, formavam um respeitável acervo do qual sentia especial orgulho.

Daí para ingressar na milícia foi um passo. Faltava-lhe, porém, uma medalha de guerra, qual seja, uma efetiva participação num combate de verdade, coisa para exibir para filhos e netos, que o resgatasse da enfadonha rotina da vida castrense, da guerra do faz de conta. A “revolução” de 1964 era sua chance, portanto. Ao ser destacado para Óbidos, sua esperança de posar de herói foi-se esvaindo, à medida que os dias passavam. Como em toda cidade pequena do interior do Pará, ali o tempo não corria; no máximo escorria.

A vida se arrastava ao compasso das próprias embarcações que atracavam no porto, o ponto de maior ebulição do lugar. Era por ali que as notícias chegavam, sendo rapidamente divulgadas pelas “candinhas”, com a prestimosa colaboração de dona Pelelé, parteira solícita e famosa, e iam embora depois de remoídas pelos habitantes, a maioria de estudantes ou aposentados.

Até então, não havia vestígio de reação de ninguém contra o golpe militar, fosse protesto de cunho político, ideológico, ou seja lá de que ordem. A rapaziada do Ginásio São José, descontada as irreverências da idade, estava mais era preocupada em curtir a vida, fazendo serestas com músicas da jovem guarda, algumas de extremo bom gosto, desfrutando as delícias dos banhos na praia da Pedra Grande, no gostoso igarapé do Curuçambá, nas pescarias de caniço nos lagos da região ou paquerando as moças nas domingueiras do Salão Paroquial, para desespero dos seráficos sacerdotes franciscanos responsáveis pela paróquia.

A coisa mais parecida com “subversão” que ouvira falar foi sobre um aluno do ginásio, a quem os demais chamavam de “Cubano”. Pôs-se a investigar intensa e secretamente, ciente de sua condição de fiscal da lei e da nova ordem estabelecida, porém ficou sabendo que o rapaz era um tremendo gente fina, atleta do Mariano Futebol Clube, um dos melhores times de futebol local, desfrutando de imensa popularidade e estima até mesmo pelos ferrenhos torcedores do tradicional adversário, o Paraense Esporte Clube.

A alcunha não passava de ingênua brincadeira de outro ginasiano que tinha por vezo colocar apelido em todo mundo, até mesmo como forma de compensar aquele que lhe haviam dado, justa comparação de seu cabelo cortado à escovinha, todo eriçado, semelhante ao pêlo do animal escolhido: “Esquilo”.

Fosse lá o que fosse não precisava se preocupar. A causa revolucionária não estava em perigo apenas porque um jovem, boa pinta e namorador, era identificado por uma palavra que naqueles anos de chumbo, sequer podia ser pronunciada… Foi fácil, portanto ir se afeiçoando aos obidenses, gente pacata e hospitaleira, sem qualquer eiva de preconceito com os que vinham de fora, mesmo que esse alguém fosse um miliciano.

A verdade é que passou a estimar aquelas pessoas e de si para consigo, sentia-se às vezes envergonhado por haver xeretado a vida dos integrantes da comunidade, pronto para a delação, como se alguém dali representasse ameaça ao movimento revolucionário que nem mesmo ele entendia direito o porquê e com que finalidade fora deflagrado.

Afinal, era militar e não político, recusando-se a conjeturar sobre coisas desse tipo. Os homens “lá de cima” que cuidassem do assunto, porque não se sentia bem no papel de dedo duro. A única coisa que percebeu com nitidez, é que fora mandado para aquela cidade para garantir uma ordem por si mesma subsistente. A partir desse raciocínio, desligou os equipamentos de alarme que o mantinham em estado de alerta, integrando-se de uma vez por todas ao ritmo vagaroso e despreocupado dos moradores.

Viviam eles, podia observar, ao compasso dos remansos do Rio Amazonas, das suas marés lançastes que tudo leva de roldão ou das suas impiedosas vazantes que transformam as várzeas em terroadas, trazendo tristeza e mortandade de peixe. E por falar em peixe, já visitara os lagos do Mamaurú, do Curumú (verdadeiros cartões postais), pescara de linha na praia da Pedra Grande, nas ruínas da “Cabeça do Padre” e acostumara-se todo ano a degustar o jaraqui, delícia surgida do seio das águas nas piracemas de junho, que fazia a população delirar mercê de seu espetacular e pitoresco sabor.

Com regularidade de equinócio, todo ribeirinho sabe que entra ano sai ano o fenômeno da cheia e da seca se repete, sem que aquela gente outra coisa possa fazer a não ser orar para sua Padroeira Sant’Ana, à espera de um milagre cuja tardança, mesmo assim, não os faz desesperar.

Dizem que polícia é parece criança, isto é, quando está perto incomoda e quando está longe faz falta!… Que se lembre mesmo, só uma vez teve que usar de energia e fazer valer sua autoridade. Também pudera! O “Zunga”, um tapuio abusado, apaniguado do fazendeiro Brito Souza, tinha costa quente e vivia aprontando das suas.

Até que um dia, movido por uma discussão boba, deu uma tremenda rasteira no velho Deodoro, que o bom homem caiu de cara no chão na taberna onde estavam, ficando gravemente ferido. Chamado para resolver o problema, não suportou ver a covarde agressão e com o sabre em punho, deu umas boas rimpadas com o lado do chanfalho no lombo daquele atrevido, para ensiná-lo a respeitar as pessoas mais velhas. Tanto tempo já estava na cidade e nada mais que esse incidente, no qual atuou com dureza para todos saberem que ele não brincava em serviço.

Fora esse lamentável episódio, a vida ali corria mansa. Os jornais chegados de Belém, com dias de atraso, davam conta da frenética atividade dos seus colegas de farda na perseguição e captura dos “subversivos”, trancafiando-os no xadrez sem direito a qualquer defesa. Advogados, políticos e jornalistas também não escapavam. Bendita hora em que veio destacado para Óbidos, pensou, sem a responsabilidade de oprimir seus semelhantes, obedecendo ordens de superiores que ele não conhecia e que em contrapartida, também não o conheciam. Para sua satisfação, o povo ali, além de acolhedor, encarava com indiferença aquela confusão, não temendo ser molestado por ninguém.

O Tiro de Guerra já fora há tempos desativado. De milico mesmo, só a guarnição da Força Pública, por ele comandada, fazendo com que experimentasse uma nova e embriagadora sensação: a do poder. O Cabo Jaime e mais cinco soldados que aceitaram servir naquele lugar, todos seus subordinados, davam conta do recado e eram acordes sobre a paz reinante na “Cidade Presépio”, como Óbidos é chamada pela sua topografia, situada no alto de uma colina.

A estima era geral. Se estava no cais do porto, ganhava peixe dos canoeiros; em suas passagens pelo mercado, nunca saía de lá sem uma putáua de carne, de bom grado presenteada pelo talhador Chico Preto. Jamais pedira tais mimos, porque o achaque não era de seu feitio. Tudo lhe ofertavam de bom grado, em reconhecimento ao seu trabalho, ao pronto atendimento que na delegacia dava a quem o procurasse nas rarefeitas querelas de bêbados nas tardes de domingos, onde nada se tinha para fazer senão tomar uma que outra cervejinha.

Apesar da merreca de salário que o Estado lhe pagava, restava-lhe o consolo de saber-se um exímio saxofonista; assim, quando não estava de ronda, habitualmente se via chamado para animar as festas dos clubes de subúrbio, o que fazia com extremo prazer, porque nelas desfrutava de certas mordomias, como comida e bebida de graça, embora tivesse que permanecer acordado noite à dentro, exibindo-se no sopro do instrumento, suportando o ônus do cansaço, mitigado ao final pelo pagamento em dinheiro feito pelo proprietário, excelente adjutório no apertado orçamento familiar, do qual decididamente não podia prescindir.

Naquele sábado à tarde, sem nada para fazer, foi sentar-se num dos bancos do trapiche. O ócio era de esmagar e não era sujeito molóide, de ficar azeitando o eixo da lua, por isso necessitava fazer alguma coisa. As mesas de sinuca do bar do Mário Torres, nos baixos do mercado, estavam desertas, privando-o da exibição dos jogadores habituais, em especial o campeão “Legito”, que faturava mais nas partidas do que nos aluguéis de suas motocicletas.

Lembrou-se que era Junho, quando a Amazônia desperta do seu letárgico sono invernoso e o verão, em seu início, explode no colorido multifário de plantas, frutas e flores, numa verdadeira festa para os olhos. Como de costume, recebera convite para tocar a quadra junina no Alegria Clube, o mais organizado salão de danças da periferia, onde a rapaziada do centro podia se divertir à vontade, desde que não fosse para bagunçar, a mesma regra valendo para as mulheres, vedado o acesso àquelas que já eram “faladas”.

A quadra junina obidense é de uma incrível animação. Desfilam pelas ruas e salões os cordões de boi e pássaros, alimentando antigas tradições que os habitantes do lugar fazem questão de cultivar e perpetuar, temperando o sincretismo religioso com os ritmos que lembram as festividades dos antigos quilombos de escravos.

A música, onde quer que seja tocada, se torna contagiante, nela inseridas improvisadas estrofes pela fértil imaginação dos compositores de ocasião, que o sargento-músico, ali postado sozinho, tentava decorar para não fazer feio nas horas de logo mais, a quando da sua exibição para o distinto público.

A fina flor da juventude local adorava exibir-se nas quadrilhas, integradas em média por muitos casais, esbanjando desenvoltura e beleza plástica, todos trajados a caráter, os homens com blusas estampadas, calças remendadas e chapéus de palha e as mulheres ostentando saias rodadas de chita coloridas, pois se há uma particularidade onde Óbidos se destaca é na própria anatomia das obidenses, garotas de pernas torneadas, talvez pelo esforço cotidiano de subir ladeiras.

Nos “pássaros”, proliferavam índios, curandeiros, feiticeiros, caçadores e outros figurantes. Nos “bois”, esse mesmo séquito exibia-se também, porém cada qual com atuação particular e denominação própria: Mãe Catirina, Pai Francisco, Cazumbá, vaqueiros, caçadores e mais índios, que tangidos por etílica motivação, emprestavam com suas vistosas indumentárias um tom surrealista às noites quentes e mal iluminadas do verão.

Se o folguedo fosse na rua, a luz mortiça dos postes permitia o estudado brilho dos espelhos, miçangas e dos ricos adereços dos brincantes. Se nos salões dos clubes, o efeito visual era aumentado pelo refletir das luminárias e do suor dos corpos em movimento, nos ambientes carentes de refrigeração.

Tais manifestações, em homenagem a Santo Antônio, São João e São Pedro, encarnavam a essência do próprio folclore paraense ou mesmo brasileiro, com especial toque para a culinária local, como a pamonha, o mungunzá, o mingau, o tacacá, a broa de milho, o bolo de macaxeira e o aluá, para gáudio daquela gente que experimenta quase um prazer físico na hospitalidade dispensada a todos através da boa mesa.

Ainda sozinho no trapiche, deixando-se embalar pela viração que soprava de montante, já decorara a letra e música do boi; passou a assobiar a toada da Arara, da folclorista Maria Ramos que seria especialmente homenageada naquele ano. Afinal, logo mais à noite, teria que dar conta do recado. Conseguiu memorizar a letra.

Sentindo-se seguro e antevendo o seu papel de principal astro no folguedo de logo mais, foi para casa tirar uma pestana, pois passaria a noite toda acordado, no seu duplo papel de músico e policial. Sim, porque ao tempo que tocava, sua robusta figura de homem da lei inibia os excessos dos dançarinos mais afoitos. Também pudera! Ninguém se aventurava a arrumar encrenca, pois o brigão ia direitinho pro xaxado, levado pelo vigoroso sargentão. Sua fama de corajoso, destemido, machão, já se espalhara pela cidade e nas longínquas vilas do interior. E com absoluta razão, pois não era de amarelar face ao perigo, fosse ele qual fosse (pois sim!).

Nessa noite, conforme o previsto, de tão animada a farra pegou fogo. Tocou ele as músicas do folclore nordestino, do boi, da arara e as demais que sabia do cancioneiro popular até alta madrugada; não escapou nem mesmo o refrão da “Pomba Preta”, composição de autoria dos estudantes Adel, Virlando e Raimundo Wilson, que pela irreverência da letra e das rimas fora proibida pelo delegado da polícia civil, o inflexível Honório Marques de Andrade.

No auge da empolgação, mirificado pela ginga sedutora e concessória da Rita “Escapole”, a mais cobiçada dama do baile (por quem arrastava a asa, diga-se de passagem…) tufou a veia do pescoço e conduziu os brincantes à suprema catarse ao executar “Elogios à Mulata”, samba de autoria do consagrado maestro Isoca, que ele a muito custo aprendeu com um santareno amigo, músico como ele, nas várias viagens de fez àquela cidade, em memoráveis serestas em Alter do Chão.

E depois de sair o último vivente, a grana recebida pelo serviço esquentando o bolso da calça, um exausto sargento Bulhões iniciou o trajeto de volta para casa, situada quase no centro, bem na esquina da Rua Almirante Barroso com a Tv. Ruy Barbosa, nas imediações da barraca do velho Luís Bode, hábil massagista de dismintiduras e torcicolos. Estava garantida a mesa farta do dia seguinte!…

A suave brisa noturna que soprava da Serra da Escama, onde estão os velhos canhões Armstrong da “Bateria Gurjão”, se espalhava por entre o cercado dos quintais; o silêncio reinava por completo vindo dos becos e vielas e o corpo do militar, vencido pelo esforço que fizera, flutuava naquela sensação de paz ofertada por aquela quietude.

Lutando contra o torpor do sono, caminhava ele pelo meio da rua, assim evitando ser surpreendido por algum cão bravo escondido nas sombras do matagal, prova maior de que seu instinto de defesa e o férreo controle que costumava exercer sobre seus sentimentos e emoções não lhe permitiam qualquer descuido, nem nos momentos de descontração como aquele, em que a cidade já dormia a sono solto e da zoeira de antes apenas se ouvia o cantar estridente dos grilos e o coaxar dos sapos.

O clube onde tocara ficava próximo do igarapé do Juncal, de águas frias e translúcidas, tributário do Lago Pauxis (que separa a cidade da serra) e ele sabia que uma boa pernada o aguardava até chegar à sua moradia. Ainda bem que deixara o pesado instrumento musical sob a guarda do dono do clube, o velho Antonico “Pé de Arpão”, pessoa de sua inteira confiança, com quem já travara sólida amizade, assim apelidado porque uma piranha preta, com certeira dentada levou numa pescaria de igapó todos os seus dedos do pé direito, menos o grandão, que se deformou por completo com o passar dos anos, originando o indesejável epíteto.

Vinha o músico matutando planos para o futuro, quando saísse daquela vidoca de interior para integrar a banda da tropa em Belém, conforme lhe fora prometido, porque quase todos os de sua época já haviam alcançado o posto de suboficial e ele, mercê da distância da Capital, foi sendo preterido e continuava marcando passo como primeiro sargento. Continuou a caminhada.

Olho pregado no chão para não cair em algum buraco, mais sentiu do que viu, aquele ser alto, magro e diáfano, envolto numa vestimenta preta, o rosto e a cabeça cobertos com um capuz, praticamente barrando-lhe a passagem, na esquina da Tv. Eloy Simões com a Av. Picanço Diniz.

Credo em cruz Ave Maria! Parou estático o milicão, persignando-se e sentindo aquela “alegria nas pernas” que experimentara na única vez que viajou num avião da Panair, quando o aparelho caiu no vácuo. Não conseguia divisar quem poderia, naquele ambiente de quietude e silêncio, onde era possível até mesmo ouvir o barulho do capim crescendo, àquela hora da madrugada, arriscar-se a levar um tiro nos cornos, porque da 45, sua arma regulamentar, jamais se separava.

Tirou-a cuidadosamente da cintura, sentindo na mão o confortável contato da coronha, examinou o tambor recheado com as seis balas e ficou avaliando suas próprias possibilidades. Um suor frio e pegajoso empapava sua testa, o coração pulsava na têmpora e quase no limiar da racionalidade, decidiu que era hora de acabar de vez com aquela lambança, com certeza, fruto da brincadeira de mau gosto de algum gaiato que saíra da festa.

Algo entretanto, como uma sensação abúlica, o impedia de reagir. Apelou para o que lhe restava de imaginação. Sim, porque fora treinado para caçar marginais, apartar briga de rua, cumprir ordens dos superiores, até mesmo para capturar os subversivos que estavam colocando a Pátria em risco.

Mas não para enfrentar aquela “coisa”, que surgira assim do nada, da escuridão da noite, salvo se estivesse sendo possuído por uma alucinação qualquer que lhe roubava as forças e lhe retirava a costumeira capacidade de ação. Tentou contornar a esquina e passar pelo outro lado, fazendo de conta que não dera pela presença do pavoroso vulto.

Apenas tentou… Como que adivinhando suas intenções, a estranha e repulsiva figura, esvoaçando no espaço, deslocou-se de modo a barrar-lhe a passagem, e sem dizer palavra apontou-lhe um dedo descarnado e acusador saído da manta preta e amarfanhada, qual um juiz faz com o acusado antes de ditar-lhe a sentença final. Suas pernas dobraram ao peso da monstruosa impotência que sobre ele se abateu.

Desde que chegou destacado para o policiamento de Óbidos, o sargento Bulhões já ouvira inúmeras histórias sobre visagens e assombrações, por sinal, recorrentes em determinados lugares, dos quais, lembrava bem, a Praça da Catedral, o quintal da Prefeitura, o Forte dos Pauxís, a casa da macumbeira “Ribite” e os fundos do antigo Quartel do Exército onde, transmudadas em animais como porcos e cavalos, almas penadas e fadistas, nas noites de quinta para sexta-feira, apavoravam os moradores com suas horripilantes aparições.

Mas nunca dera pelota para esse tipo de papo porque não era homem de acreditar em bobagens; se fosse, jamais poderia integrar a gloriosa milícia paraense, onde arriscar a vida faz parte do cotidiano.

Nos seus tempos de recruta em Belém fazendo as rondas noturnas, ouviu porrilhões de vezes a lenda da “A Moça do Táxi”, protagonizada pela bela Josefina Conte, cuja foto no túmulo a revela com um broche no peito, uma miniatura de automóvel. Diziam que ela antigamente pegava o último ônibus da noite e desaparecia defronte ao cemitério Santa Izabel.

Mais tarde ela começou utilizar os táxis, descia no pórtico do cemitério e falava ao motorista para pegar o dinheiro da corrida no endereço por ela indicado. O motora ia ao local, explicava o ocorrido, reconhecia a moça pela mesma foto do túmulo e descobria estarrecido que a jovem de há muito falecera. A conta era paga pelos familiares. Mas nunca dera pelota para aquele papo, pois não era homem de temer o místico ou o sobrenatural. O perigo eram os vivos…

Agora estava ali, na calada da noite, tremendo diante daquela assombração, espécie de dama da madrugada, que o ameaçava sem nada dizer. Foi aí que percebeu que apesar da fama de durão, das cinco lapas de primeiro sargento nas mangas do uniforme, da arma que segurava e dos músculos retesados para o revide, estava dominado pelo medo! No desespero, resolveu gritar. Quem sabe alguém abriria a porta de uma casa próxima, deixando-o entrar. E quando o fez, foi a plenos pulmões, como faz o afogado antes do mergulho fatal.

Apesar do esforço extremo, a voz não lhe brotou da garganta. Sentiu a cabeça girar, a vista ficou embaralhada e a última coisa que vislumbrou antes de desfalecer por completo foi a lua vindo de encontro a seu rosto ou, não estava bem certo, ele mesmo indo de encontro à lua.

Absurdo que aquele fato estivesse acontecendo naquele momento e ele ali, embora armado, sem capacidade de dar um pio, de disparar um único tiro, sentindo-se desfalecer, ao mesmo tempo em que o vulto, que agora divisava ser mesmo de uma mulher, rumava na negritude noturna, rente às sombras do arvoredo que o luar não conseguia devassar. Apagou de vez.
– Sargento Bulhões?
– Sim?
– O que foi que houve? Eu ia passando e dei com o senhor caído no chão.
– Nada não, estou bem, respondeu abrindo os olhos.
– O senhor bebeu demais?
– Olha cara, vê como fala com a autoridade!
– Desculpe sargento. O senhor está pertinho de sua casa e eu pensei…
– Não se preocupe comigo. Já estou indo.

Levantou-se e constatou que nenhum pertence lhe faltava. A arma, o dinheiro ganho da festa, os documentos, o relógio Óris, nada. Conferiu as horas. Cinco e meia da manhã. Não andou nem cinqüenta metros e entrou em casa pálido e trêmulo, atou a rede na varanda e dormiu o dia inteiro como há muito não fazia.

Acordou no fim da tarde, ardendo em febre e com forte dor de cabeça; contou tudo para a mulher, que católica fervorosa, prometeu que ambos acompanhariam a procissão da Padroeira no mês seguinte, rezando e carregando o andor. Mas escondeu da esposa um intrigante detalhe. Lembrava haver desmaiado na esquina da Lauro Sodré com a Picanço Diniz, palco do aparecimento da tal mulher na madrugada anterior. Como poderia ser encontrado por aquele sujeito, jogado no chão, próximo da casa do vizinho Luís Bode, a quase 500 metros de distância?

Com a dúvida remoendo-lhe as entranhas, refez mentalmente o mesmo trajeto sem conseguir entender como fora parar em local tão longe daquele em que desmaiou. Era um homem forte, pesando noventa quilos e não havia como removê-lo de um lado para outro, salvo com o concurso de várias pessoas, que não poderiam ultimar a tarefa sem a participação de outras, que ficariam sabendo daquele episódio.

E por incrível que pareça, ninguém tivera ciência do fato ocorrido naquela madrugada, em uma cidade onde, a míngua do que fazer, a boataria voava pelos oito rumos do vento e tudo era objeto de maliciosos comentários. Égua macho!

Sobre isso meditou, teve o ímpeto de dividir suas angústias com a mulher, mas finalmente desistiu. A febre desaparecera por completo. E mesmo sem sua “medalha de guerra”, pediu remoção. Vendeu a espaçosa casa no centro da cidade, sabendo que deixaria para sempre os banhos no Curuçambá, as pescarias na Pedra Grande, as festas do Alegria Clube, os desfrutes na Praça de Sant’Ana, as tarrafeações de jaraqui, os muitos amigos que o estimavam, enfim, tudo o que de melhor já tivera na vida.

Como se fosse uma praga daquela dama amorfa, veio para a Capital morar num puxadinho lá pras bandas do Benguí, rodeado de maconheiros, viajar pendurado em ônibus superlotado, correr atrás de bandidos, comendo, por assim dizer, o pão que o diabo amassou. A sonhada vaga na banda da PM ficou só na promessa e até o dia em que a idade pesou e foi para a reserva, nunca passou de sargento.

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* Advogado e professor, é membro da Academia Paraense de Jornalismo, do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGTap), do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e da Academia Paraense de Letras Jurídicas. Integra a Comissão de Folclore da Academia Paraense de Letras Interiorana.


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Advogado e escritor, nasceu em Óbidos. É membro da Academia Paraense de Letras Jurídicas e do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Reside em Belém e escreve regularmente neste blog.

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