
Do professor pós-doutor Anselmo Colores, a propósito do artigo A selvagem de Santarém: Paisagem 1 X 0 Roteiro (A guerra dos estereótipos), da lavra do jornalista Jota Ninos:
Ninos, parabéns pela sua análise. Podemos até discordar dos seus argumentos, mas temos de reconhecer sua capacidade de apontar questões fundamentais. Pena que alguns leitores fiquem nos velhos chavões e revelem com isso suas fragilidades na leitura do que se apresenta como realidade.
Fiz a provocação, dois dias atrás (antes do programa ser exibido) basicamente com relação ao título (A selvagem de Santarém) agora você complementa com esta leitura atenta e interessante na qual faz o contraponto entre a paisagem e o roteiro.
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Como tenho me dedicado a estudar o período colonial, vejo uma certa continuidade nos estereótipos, assim como na aceitação ou negação por parte dos “nativos” sobre o que é retratado pelo “olhar do visitante”.
Foi a partir dos relatos dos “estrangeiros” que circularam pela América, especialmente entre os séculos XVI e XIX, que as pessoas nativas ganharam atributos ainda hoje explorados. Foram descritos como avaros, cruéis, demasiado tementes e subservientes às autoridades, pouco dados às atividades produtivas, e muito inclinados aos prazeres carnais.
Enfim, eram criaturas distantes dos padrões de civilidade admitidos pelos europeus que os descreveram (tais como Vespúcio, Thévet, Léry, Pirard de Laval, françois Froger, Wiliam Dampier, Amédée Frézier, James Cook, George Stauntion, John Mawe, e outros).
Nos relatos daqueles visitantes, não havia quase nenhuma distinção entre índios, negros e mesmo os colonos de origem européia. Aqui, todos haviam se fundido em um amálgama de incivilidade. Consideravam as cidades edificadas sem cuidado e sem normas, construções de aparência mesquinha e deselegante, ruas sujas, casas mal conservadas e mal mobiliadas, atividades sociais limitadas a festas cívicas e religiosas.
Tais relatos, não eram apenas relacionados a Amazônia, incluiam locais onde hoje se encontram nossas mais “civilizadas” metrópoles. Ao mesmo tempo, os relatos sempre enfatizavam as potencialidades da terra – naturalmente rica e privilegiada com belezas indescritíveis.
O contraste civilizado x selvagem permanece como parâmetro de comparação, assim como a beleza natural e a riqueza potencial continuam sendo cobiçadas e vistas como propriedade de todos (os que podem explorá-las). Ainda continuamos as voltas para encontrarmos um ponto de equilíbrio (se é que existe) entre estes dois mundos. E enquanto não encontramos, continuamos sofrendo os processos de colonização, atualizados historicamente.