Jeso Carneiro

Curió, o canto da alma, 10 anos. Por Gonzaga Blantez

Gonzaga Blantez - CURIÓ DO BICO DOCE - A Força do Querer

Não é apenas sobre um pássaro.
Não é apenas sobre uma música.
É sobre uma identidade.
O curió é aquele que voa, mas também aquele que canta.
Ele não separa asa e voz.
Assim também eu não separo música e poesia.
Elas são duas formas do mesmo canto.
A música é o voo.
A poesia é o pouso.
E o curió que atravessa essa paisagem sou eu, pilotando o meu corpo.
Sempre achei que existem duas vozes comigo.
Uma conduz a música.
A outra conduz a poesia.
A música vem pelo ouvido.
A poesia vem pelas mãos.
Às vezes caminham juntas.
São filhas da mesma alma.
Sempre acordo com alguma coisa sussurrando na cabeça.
Se for poesia, vem uma frase.
Um pensamento.
Uma reflexão.
Se for música, vem um pedaço de melodia.
Às vezes ela já vem inteira.
Eu apenas recebo o que chega.
Quando nasceu o Curió, veio em forma de canção.
O reconhecimento chegou.
As pessoas ouviram.
Mas eu sentia que havia algo ali que ainda precisava compreender.
Continuei olhando para a música como sempre olhei.
Como uma forma de entregar algo que continuava além de mim.
O que me movia era ver a arte encontrando quem precisava dela.
Talvez por isso, hoje, eu não veja o Curió apenas como uma canção.
Ele ganhou vida própria.
Caminhou por lugares que eu nunca imaginei.
Levou a minha voz para pessoas que eu nunca conheci.
Hoje, depois de tudo que vivi com esse canto, ainda me pergunto:
Será que fui eu quem escreveu o Curió?
Ou foi o Curió que me escreveu?


Gonzaga Blantez, poeta, músico e compositor amazônico nascido em Alenquer (PA).

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