Jeso Carneiro

Fecan, quem ganhou?

por Paulo Lima (*)

Quem ganhou o Fecan? Isso não é o mais importante. O mais importante é quem ganhou com o Fecan. E a resposta é óbvia: quem ganhou foi a cidade de Santarém, que teve, e espero que continue tendo, um festival de música de qualidade como o XI Fecan. 24 músicas de boa qualidade, bons shows, intercâmbio entre artistas numa saudável competição que teve resultados incontestáveis.

Parabéns à organização e à Mineração Rio do Norte pela decisão de trazer para Santarém o festival. A cidade respondeu bem ao festival que teve excelente público todos os dias. O som esteve impecável. A banda base se destacou e não houve músico de qualquer parte que não leve daqui a melhor impressão da música que é feita em nossa cidade, qualidade técnica e artística de gente jovem e muito talentosa.

O Fecan nessa edição alcança uma dimensão mais amazônica, ampliando público e visibilidade. Com isso, não podemos olhar com a perspectiva provinciana de que um dos participantes locais teria obrigatoriamente de ganhar. E isso numa disputa que, especialmente no campo das artes, não faz o menor sentido contra nenhuma outra cidade, quanto mais Belém. Ao respeitar e prestigiar a música de qualidade criada em Belém, Santarém deve sim ser louvada pela sua maturidade de avaliação estética.

Caravelas, a música que venceu o Fecan, é uma obra de primeira qualidade. Original, delicada, excepcionalmente levada pelo Olivar Barreto e pelos músicos, entre eles o nosso Djalma, não deixou dúvida sobre seu merecimento. A mim me fez lembrar as melhores canções do extinto grupo português Madredeus, com um acento do norte do Brasil que a fez ainda mais bonita. Música de padrão para qualquer festival no mundo de língua portuguesa.

É preciso também que a cidade se adapte a um evento como esse. Ao fim das atividades do festival, todos os dias, não havia um restaurante aberto. Uma cidade musical, a Pérola do Tapajós, só tem locais para tomar cerveja com hambúrguer? Eu fiquei constrangido com os músicos já cansados de longos dias de trabalho e expectativa, lanchando na Santarém-Cuiabá ao cheiro de esgoto daquela parte onde está a casa de shows.

Também na casa de show, que tem boa estrutura um atendimento precário, três garçons e bebidas. Um espetáculo de quase cinco horas e os garçons dizendo que era melhor não pedir nada, exceto batata frita, pois iria demorar muito… isso é lamentável, isso diz contra o empresariado e os serviços da cidade.

É preciso agora é assegurar que o Festival da Canção do Oeste do Pará se consolide em Santarém e tenha maior investimento. Premiações maiores e ainda mais visibilidade. Foram três dias de música ao preço da solidariedade, outra boa medida da organização. Dois quilos de alimentos que serão bem utilizados, isso não dá cinco reais. Quinze reais e mais ou menos quinze horas de música, excelente custo benefício! Com direito a Ney Conceição e Mariana Leporace.

E pra terminar, fiquei com a música do Luís Melodia na cabeça, depois do show de encerramento: “se a gente falasse menos, talvez compreendesse mais…” É preciso fazer mais e falar menos, vamos prestigiar mais e mais experiências como Fecan. Vamos realizar uma feira literária como a de Paraty, vamos criar um festival de cinema, fortalecer o de teatro, vamos investir e melhorar os serviços da cidade. Investir nela e no seu potencial artístico e cultural. Vamos difundir nas rádios AM e FM os músicos da região.

Estão postos vários desafios para que a cidade cada vez mais possa se impor como capital de um Estado e como referência no campo da cultura e das artes.

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* É historiador e professor universitário. Reside em Santarém.

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