por Anselmo Colares (*)
Enquanto meus olhos percorriam as letras caprichosamente desenhadas, eu era ovacionado por crianças em passagem para a adolescência e adolescentes que ora queriam ser crianças, ora desejavam antecipar a suposta liberdade do adulto. Alguns salgados, um bolo e refrigerantes. Tudo muito singelo, mas como era feito de coração, representava a mais pomposa homenagem que eu poderia imaginar receber naquela data.
Outras vezes a homenagem se repetiu, não da mesma forma e nem sempre na mesma data, mas aqueles anos em que trabalhei na educação básica ficaram eternizados por estas e outras doces lembranças.
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Percebi com o passar do tempo que nos níveis mais elementares o reconhecimento ao trabalho do professor é mais espontâneo e explícito. Desde o ano de 1994 exerço a docência em universidades, e nunca mais vivi momentos como aqueles. Mas também não sei dizer se os professores da educação básica continuam sendo homenageados.
Talvez a mudança de atitude tenha atingido a todo o sistema educacional. E se isto é verdadeiro, é uma perda lamentável para um profissional que já enfrenta a amnésia das autoridades que deveriam prestigiá-lo. Mas neste caso não me refiro a fazer festa, parabenizar ou apertar suas mãos, por mais afetuosamente que seja. Porque não basta fazer festa em um dia, e tratar mal no restante do ano.
Não basta elogiar a dedicação e o esforço, sem que haja a retribuição justa na forma de salário e de condições dignas para o exercício da profissão. Aqueles que, como eu, decidiram ser professor e permanecem sendo em meio a outras sedutoras possibilidades, acredito que o fizeram por acreditar que podem contribuir para a construção de uma sociedade melhor, na qual o conhecimento seja o antídoto contra todas as formas de opressão, de preconceitos e de inverdades.
A educação pode transformar pessoas e sociedades. O professor auxilia a transformar dados brutos em conhecimento elaborado. Faz a mediação, por meio do ensino, entre o conteúdo a ser apreendido e o ser aprendente. E tendo em vista que todos “ninguém sabe tudo, e ninguém ignora tudo”, como afirmou o grande educador Paulo Freire, somos dependentes uns dos outros, e mais ainda dos professores.
Não se pode mudar o mundo sem mudar as pessoas: mudar o mundo e mudar as pessoas são processos interligados, nos quais a educação é a força impulsora. Sem a educação não existe vida no sentido pleno. Existe tão somente a sobrevivência. A compreensão sobre o modo como funciona a sociedade, desvenda as estruturas de dominação e abre caminho para a formação crítica que permite o questionamento de tudo aquilo que se esconde sob a aparência da obviedade.
É por esta razão que a educação incomoda, pois ela pode tornar um povo difícil de governar, e impossível de ser escravizado.
Se escrevi este texto é porque fui ensinado a organizar as letras em palavras e a dar sentido a elas em frases e parágrafos. Devo isto a meus professores, e procuro retribuir ensinando com dedicação e gosto. Acredito que nisto reside a grandeza e a beleza de ser professor.
Aquele que gosta do que faz e sente orgulho pelo que realiza, é feliz. Sou professor, sou realizado, sou feliz. Parabéns aos professores que, apesar de tudo, se dedicam a ajudar pessoas a se realizarem e, por isso, merecedora de respeito e consideração.
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* Santareno, é professor universitário. Escreve regularmente neste blog.