Jeso Carneiro

Poetas amazônicos

Anamnese

Fiz um poema em um prontuário.
Não tinha queixa principal, sintomas e nem horários.
Foquei na história sem fim do paciente,
da furada de prego na infância à doença de agora,
passando por sarampos, fraturas, diabetes e pressão alta.
Ficou a impressão alta de que algo faltava…

Levei asperamente a mão pelo meu cabelo
para depois – com pose de sabichão – repousá-la no mento.
– Já resolvo seu caso, só um momento!
Era um caso crônico de falta de poesia!

A falta de versos (lidos, escritos ou vividos)
fez do homem um doente, um problema.
Para evitar complicações e efeitos adversos, pus no receituário:
Drummond e Bandeira duas vezes ao dia, por qualquer via.

Consulta encerrada. Aguardo retorno.
E para o próximo médico,
se não entender meus métodos ou minha promessa de cura,
deixei anotado um lembrete, um conselho:
– Fazer revisão de Literatura.

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* De João Alho, poeta santareno. É dele o blog Leia no verso.

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