
Leio todos os dias. É vício crônico, fricção física e diária com a palavra. Desde o final de 2025, porém, minha solidão literária foi alterada. A Inteligência Artificial (IA) me fisgou de um jeito inescapável. Rendi-me, assinei a versão pro da Gemini e acabei instituindo um ritual absolutamente novo para as minhas leituras: leio agora rabiscando as margens dos livros com a fúria de quem procura chão, fotografo esses manuscritos caóticos pelo celular e, sem pudores, submeto-os à análise fria do algoritmo.
O flagrante mais recente dessa nova prática ocorreu nas páginas de Noites do Sertão, de Guimarães Rosa. Enquanto eu mergulhava fundo na psique atormentada de Soropita e nos seus delírios circulares de ciúme na trama de Dão-Lalalão (O Devente), minha caneta sangrava na margem do papel.
Grifei e anotei dores, prazeres, neologismos, reflexões e espelhamentos com a minha própria carne. Várias dessas sensações enviei a fotografia para a IA. Interroguei a máquina. Exigi respostas e proibi-a terminantemente de fornecer qualquer spoiler do enredo. O que se seguiu nunca foi um simples resumo de enredo, mas um fecundo debate lítero-existencial.
Dessa colisão diária entre o meu suor analógico de leitor madrugador e a arquitetura probabilística da máquina, brotou a ideia de escrever artigos. Mas, imediatamente, um incômodo dilema ético me assombrou: se eu passar a escrever e publicar usando a IA para lapidar meus textos, eu não estaria fraudando o leitor?
Não estaria vendendo a falsa ideia de um esforço inteiramente solitário e meu? A resposta honesta para essa angústia é este texto. Apresento-lhes o conceito orgânico do “artigo centauro”.
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Não existe fraude alguma onde há transparência absoluta. O pacto que firmo aqui com quem me lê é reto. A centelha, a dor, o arrepio, o “despadrão” — aquela intuição torta que só o ar rarefeito da grande literatura provoca nas entranhas —, tudo isso é meu. Exclusivamente meu.
A máquina não tem sede, não ama, não sofre e, definitivamente, não sua sob o calor de Santarém. O algoritmo apenas calcula. O que a IA faz, sob o meu estrito comando, é organizar o caos ruidoso dos meus escombros intelectuais.
A metodologia operará em 5 etapas. Gero a ideia central e redijo o manuscrito emocional. Submeto o material à IA para um ordenamento preliminar. Na sequência — e aqui mora a essência do processo —, eu retomo ferozmente o texto. Corto a assepsia do algoritmo, reviso a cadência, devolvo a violência poética das palavras e concedo o sagrado acabamento autoral para a publicação final do centauro.
Esses artigos terão a minha pegada e a minha vivência, sustentados discretamente pela arquitetura da IA. Sempre que este formato híbrido for utilizado, deixarei o método transparente. O suor e a vertigem serão meus, carne e osso.
Bem-vindos ao formato centauro.
∎ Jeso Carneiro, jornalista paraense, é editor-chefe do portal JC. Esse é um artigo centauro – a dor, a ideia e o suor são estritamente humanos; o ordenamento estrutural teve suporte de Inteligência Artificial.
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