Jeso Carneiro

O poder evangélico nas investidas sobre os conselhos tutelares. Por Válber Pires

O poder evangélico nas investidas sobre os conselhos tutelares. Por Válber Pires
Conselhos tutelares: investida mais terrena do que religiosa, segundo o articulista. E nada a ver com a defesa da família". Foto: Reprodução

Como observador atento desse universo evangélico e com muitas informações de bastidores, penso que a explicação lógica e realista para o fenômeno da investida dessas igrejas sobre os conselhos tutelares é mais terrena que religiosa propriamente.

Denúncias de abusos sexuais contra crianças e mulheres são endêmicas nessas igrejas. Do mesmo jeito, abusos familiares, como espancamento e maus tratos de crianças, acumulam-se nessas famílias.

Geralmente, são as escolas que descobrem esses casos. Assim, a primeira instância acolhedora dessas denúncias é o conselho tutelar.

Quando ocupados por pessoas de fora das igrejas, essas denúncias tendem a prosperar. Quando são religiosos com interesses políticos, valores patriarcais e cúmplices de criminosos da família ou da igreja, as denúncias tendem a ser relativizadas e engavetadas.

Ou seja, a investida das igrejas evangélicas sobre o comando dos conselhos tutelares no Brasil pode ter uma explicação histórica que nada tem a ver com a defesa da família ou de valores conservadores e tradicionais, mas com a defesa de crimes sexuais e abusos familiares.

Enfim, por esta perspectiva mais realista, até porque, como diz o ditado “quanto mais as pessoas se apresentam como moralistas mais perversas, imorais e pervertidas elas são”, esse fenômeno histórico é mais um elemento que agrega no retrocesso civilizatório e democrático que o Brasil mergulhou desde 2014.

É preciso ser freado antes que deteriore completamente as instituições sociais encarregadas de promover a vida civilizada e democrática.

Válber Pires

É professor universitário, doutor em Sociologia, com pós-doutorado em Socioeconomia e Sustentabilidade. Escreve regularmente no JC.

— O JC também está no Telegram. Siga-nos e leia notícias, veja vídeos e muito mais.

Sair da versão mobile