
Das três instituições de ensino que frequentei em Santarém, nesta ordem – Grupo Escolar Frei Ambrósio, Colégio Dom Amando e Colégio Estadual Álvaro Adolfo da Silveira -, o Dom Amando foi o que mais me marcou, talvez por ter passado muito mais tempo lá.
A sua lembrança sempre me leva a um relicário de recordações: os colegas – dos quais alguns mantenho como amigos até hoje, outros se perderam nos escaninhos da vida -, as instalações, as excursões, os torneios esportivos, as festas folclóricas e festas de época.
E os professores?
Ah! Estes são eternos, inesquecíveis! Compõem um rico tesouro latente em minha memória. Sem querer exagerar, na minha visão, beiram à santidade.
São anjos que caminharam e ainda caminhamos juntos, tornando a vida mais serena. Sempre presentes, a cada esquina os reencontro através dos seus indeléveis ensinamentos, úteis e atuais, cinzelados no mais profundo de minha mente, à salvo da fuga dos dias.
Para o que vou comentar, especificamente quero lembrar dos ensinamentos e prestar reverência à professora de português Neires Nadal, que constela entre outros mestres e mestras tão brilhantes que tive.
Não sei se por grau de parentesco ou se por amizade, morava na casa do “Seu” Meschede, pai dos amigos Carlos e José Carlos, ali na Galdino esquina da 15 de Agosto.
O complexo escolar do Dom amando era composto de quatro blocos e sua aula era ministrada na sala C-4, do Bloco C, construção de um andar, telhas em estilo colonial que ficava nos fundos do terreno do colégio, perto da casa do funileiro Quelé, dando vista para a Praça São Sebastião.
Ali, com sua inesgotável paciência, carinho e muito amor pela nobre missão, nos ensinou a fazer leitura com a correta pontuação, a fazer composição, a escrever um texto com as subordinações exigidas e inúmeras outras regras da nossa língua pátria.
Mas, dentre tantos detalhes, um lhe inspirava especial cuidado, a ele dedicava atenção dobrada e dele não abria mão.
Se em um texto aparecia alguma palavra diferente, da qual não sabíamos o significado, aquilo se tornava o primeiro tema da aula seguinte e tínhamos que trazer o “dever de casa” na ponta da língua, vez que um aluno seria sorteado para discorrer sobre o que havíamos achado no dicionário.
Ela jamais dizia o significado da palavra. Ensinou onde e como buscar o significado e sempre na aula seguinte cobrava o resultado da busca. Como no dito popular, ela não deu o peixe. Fez melhor! Ensinou a pescar. Ela e outros mestres e mestras nos deram asas e muitos de nós voamos.
Numa época em que internet só era mencionada de forma superficial nos livros de autores futuristas, o dicionário, ou “pai dos burros”, ou “Aurélio”, para qualquer aluno era peça fundamental.
A querida professora repetia constantemente que ela só conhecia uma pessoa que lia qualquer livro sempre acompanhado de um dicionário. A pessoa era justamente o “Seu” Meschede.
Como sempre pensei que o bom aluno é aquele que ouve os professores não só quando na cátedra mas principalmente pelo resto da vida, copiei o “Seu” Meschede e incorporei o hábito da consulta ao dicionário e não deixo palavra nenhuma passar “batida”.
Hoje, graças à internet, o hábito se tornou mais fácil.
Foi assim que aprendi que a lindíssima letra da “Canção de minha saudade”, do imortal Wilmar Fonseca, não é “não medi as turvas ondas”, como muitos cantam. Para mim, cantada assim, os versos não faziam sentido e fui à luta. Lembrei da querida professora, apliquei seu “mantra” e descobri que o correto é “Mergulhei já no AMAZONAS / (Não me digas: tu blasonas) / P’ra no Tapajós boiar”.
Blasonas? Sim! Vem do verbo blasonar e significa “vangloriar-se, jactar-se de supostas valentias, gabar-se de”.
Nessa linha, em 15/09/2019, li neste blog, “Catraieiros e lancheiros em Alter do Chão: a harmonia possível”, do Dr. Telmo Moreira Alves.
O oportuno texto comenta sobre a concorrência entre os dois grupos e o meu ínclito amigo mostra que há espaço para ambos, que um não limita ou exclui o outro e o que falta é lançarem um olhar mais profundo sobre a situação e conversarem.
De rebarba, como forma de reforçar a argumentação, dá uma “palhinha” sobre a longevidade das gôndolas em Veneza e das motocicletas Harley Davidson e, lá pelas tantas, o letrado amigo cita a Serra da Pira Oca como ponto de referência para a solução do impasse.
E o que isso tem a ver com uso do dicionário, “Seu” Meschede e minha inesquecível professora?
Ocorre que eu, como muitos por aí, nominamos erradamente a nossa charmosa serra e sempre que no Rio de Janeiro, onde moro, falo sobre Alter do Chão e faço referência à Serra Piroca, fico constrangido pois por estas bandas esta palavra não tem o sentido de “livre de vegetação”, que tem por aí.
O texto do nobre amigo ensinou-me que o nome correto é Serra da Pira Oca ou Serra Piraoca e para completar, em homenagem à minha estimada professora, Pira Oca vem do indígena e significa Casa de Peixe (Pira=Peixe; Oca=Casa).
Por um vício de linguagem Pira Oca virou Piroca, persistimos no erro e os visitantes difundiram.
Nas minhas futuras prosas sobre Alter do Chão não mais passarei vexame por causa da, agora, Serra da Pira Oca e ainda mostrarei cultura dando o significado do termo indígena, graças ao meu querido Dr.Telmo, razão porque me sinto na obrigação de publicamente agradecer ao mais santareno e tapajoara dos maranhenses.
— * É advogado e economista santareno. Reside no Rio de Janeiro, de onde escreve regularmente neste blog.
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