Catraieiros e lancheiros em Alter do Chão: a harmonia possível. Por Telmo Moreira
Catraieiro faz atravessia do rio Tapajós em Alter do Chão

Nos últimos dias, a imprensa santareno noticiou uma matéria  trazendo à tona um fato que já vinha me chamando atenção há algum tempo.

Trata-se do embate nem tão ferrenho, nem tão harmonioso entre os lancheiros e os catraieiros da vila balneária de Alter do Chão. Os catraeiros mais antigos, mais charmosos, mais lentos e mais simples utilizam suas canoas ou catraias construídas em madeira, impulsionadas a remo, operadas por um único homem.

Telmo Alves (*)

Trabalham quase que exclusivamente fazendo travessias de pessoas da vila para a Ilha do Amor, onde ficam as barracas que comercializam bebidas e comidas.

Os lancheiros, uma versão mais moderna de transporte no mesmo local, trabalham com lanchas pequenas e médias, movidas a motor de popa e que, além da travessia para a ilha do Amor, oferecem passeios para as praias próximas de Alter, valendo-se da maior rapidez, conforto e segurança que detém sobre as catraias.

As lanchas já representam uma realidade concreta e assim como foi o Uber com os táxis. A briga só trará desgastes para ambos e se houver uma perda, essa sempre estará mais próxima dos catraieiros. O sensato é fazer reflexões, diálogo educado, de preferência mediado pelo poder público.

 

Sempre achei que o terminal destinado as lanchas ficou muito próximo do outro utilizado pelas catraias. Elas, por serem mais antigas e mais charmosas, tem que se reinventar se pretendem sobreviver.

Primeiro tem que se tornar mais confortáveis, mantendo suas características rústicas, porém com bancos confortáveis, com encosto e estofado. Tem que entrar com profissionalismo e competência naquilo que é a mola mestra do turismo, ou seja, a fantasia.

Tem que inventar umas rotas novas de passeio dentro do Lago Verde. Um exemplo: a Rota do Muiraquitã, onde fariam um passeio pelo lago e o catraieiro contaria durante o percurso a lenda do muiraquitã. No final do passeio, os catraieiros ofereceriam aos passageiros muiraquitãs como venda, feitos de vários materiais como barro, entrecasca de coco e até de ouro para ficar acessível a vários bolsos.

Não estou inventando nada, temos paralelos dentro de Alter. Hoje o passeio pela Floresta Encantada na época certa é o maior sucesso. Por questões de charme e fantasia, as gôndolas de Veneza até hoje sobrevivem muito bem obrigado.

Ainda faria mais um acordo: da ponta até metade da ilha somente as catraias poderiam fazer travessia. Da metade até próximo da Serra Pira Oca tanto um quanto o outro poderiam fazer a travessia dependendo da opção do cliente.

 

Foi por saber se inventar na hora certa que a fábrica de motocicletas Harley Davidson não faliu nos Estados Unidos da América quando da entrada maciça das motocicletas japonesas — rápidas, econômicas e mais baratas.

Eles partiram para a fantasia e fizeram valer a filosofia: se você quiser uma motocicleta rápida, econômica e barata, compre uma japonesa; agora se você quiser uma moto, cujo ronco é patenteado e você usando sua jaqueta de couro, monta na mesma e atravessa de costa a costa os Estados Unidos e todo mundo te olha, aí você compra uma Harley Davidson.

Então, se você tiver pressa, vá numa lancha. Agora se você prefere charme, fantasia, história e ainda fazer bonito com a amada, prefira uma catraia.


— * Telmo Moreira Alves é médico.

LEIA também do colunista: A obra do Apolinário na crista da onda.

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Um comentário em: Catraieiros e lancheiros em Alter do Chão: a harmonia possível. Por Telmo Moreira Alves

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  • Maicon Bruno disse:

    Complicada essa alter do chon…. Na água é o medo de ser “atropelado” por lancha comercial ou jet particular. Poder público não tem capacidade de fiscalização ou não quer.