Meu barbeiro

Nestes tempos insossos que antagoniza grupos e pessoas com o politicamente correto, preservei a identidade do barbeiro da minha adolescência, mas os que tiveram o privilégio de sentar naquela cadeira sagrada sabem do ocorrido e são testemunhas de que esta não é mais uma história de pescador.

Ele era o “bam bam bam”da Aldeia.

Helvecio Santos (*)

Ninguém, absolutamente ninguém, do Laguinho à Praça do São Raimundo que quisesse sair bem na foto, ousava sentar noutra cadeira.

Tanto a fina flor dos bailes do Veteco quanto os profanos do Tuna Bar, se quisessem mostrar fina estampa, prestavam vassalagem à milagrosa tesoura do Chiquito.

O cara era absoluto!

Funcionando de segunda a sexta, orientava o abrir e o fechar da sua charmosa barbearia pela sineta da Escola São Raimundo Nonato.

 

Aos sábados? Bom, aí era outra coisa!

Sua tesoura de ouro funcionava só até o meio dia, impreterivelmente, e quem quisesse garantir a formosura tinha que entrar na fila que se formava à porta, já às primeiras horas. Se assim não fizesse, corria o risco de ir ao baile com as costeletas mal aparadas e o cabelo enrolando por sobre as orelhas.

Meio dia fechava o salão e ia até os fundos onde ficava sua residência. Rapidamente fazia um “segura peito”, e lá ia o Chiquito e os três companheiros de sempre.

Sábado à tarde o areião em frente a Tiradentes adquiria um colorido diferente para o quarteto e a canoa fundeada onde a água dava pela canela era o veículo que os levaria ao “parque de diversões”, ondas do Tapajós como aperitivo de uma grande montanha russa.

À frente do grupo seguia o Chiquito com sua costumeira calça balão tamanho “G”, sem botão na braguilha, a qual sozinha se sustentava em pé, distante que estava o dia da última lavagem. Um estiloso trançado de envira como cinturão, dorso nu, descia da majestade no manuseio com a tesoura e feliz, como um simples mortal, ia se entregar à faina que mais lhe apetecia.

 

Remos nos ombros sustentando as tarrafas, um bornal até a boca de farinha torradinha, garrafa de tucupi com pimenta de cheiro, uma boa bocada de sal, limão a dar a pau e uns três litros de “água que passarinho não bebe”, às gargalhadas seguia o grupo.

Como tudo devia estar a contento, um radinho a pilha não podia ser esquecido, fidelidade canina a Leal de Souza, com seu romantismo nas tardes de sábado pela ZYR-9-Rádio Club de Santarém, “falando do coração da Amazônia para os céus do Brasil”.

Um grosso encerado fazia parte dos apetrechos, garantia de uma improvisada vela caso na volta um “fraquejamento” geral assolasse o grupo.

Felizes, o Igarapé do Padre era o destino.

Remadas fortes, cadenciadas, logo avistavam a velha castanheira, imponente, frondosa, hospitaleira, amiga de tantos sábados, testemunha de tantas jornadas.  

Desembarcada a tralha toda, não havia tempo a perder!

Olhos atentos, Chiquito como piloto, saiam a tarrafear. Um ficava para preparar o moquém, cuidando para que à chegada da expedição o fogo estivesse no seu ponto alto.  

 

Às vezes o braseiro era abastecido somente com uma rodada de tarrafa e ainda sobrava peixe para justificar à patroa a ausência de uma tarde de sábado. Nem era preciso chegar próximo à boca de cima, saída para o Amazonas, e justamente nesse dia foi o que aconteceu.

Um cardume de mapará rebrilhou, num passe de balet a tarrafa contornou o corpo do proeiro e se abriu numa imensa saia rodada que agora, bordada com o brilho de maparás, com grande esforço foi recolhida.

Tarrafa limpa, peixe a rodo cobrindo a caverna da canoa, extasiados, chegou a hora do maior prazer.  

Cuias de pinga com limão começaram a rodar de mão em mão e o “tchééé tchééé” da gordura caindo na brasa aumentava ainda mais o gosto e o apetite por fartas doses da “ardida”. Logo o peixe começou a ser degustado, somente o lombo, tamanha a fartura, e assim como o peixe, o efeito também não tardou.

Trôpegos, cada um buscou a raiz da castanheira que mais lhe acomodava a cabeça e todos capotaram sob o efeito dos maparás e das cuiadas de “água benta”.

Lá pelas tantas, sabe-se lá porquê, um dos companheiros acorda, dá aquela espichada e num pulo se levanta, apontando na direção do Chiquito, em cuja virilha um volume considerável se mexia. Gargalhando, imaginava que era o efeito afrodisíaco da forte gordura do mapará. Os dois outros também acordam e o coro do riso aumenta. Imóvel, Chiquito, apoiava-se nos cotovelos e via aquela aberração saindo pela braguilha, felizmente, sem botão.

 

Um companheiro aproxima-se mais e, de repente, a “aberração” ergue-se, achata a cabeça e alarga o corpo em posição de defesa ou melhor, de ataque, pois defesa só se ali fosse sua morada o que, definitivamente, não era.

Tomando pé da situação, o dito recua e com os olhos arregalados num pulo, cai três metros para trás. Como o “castigo vem a cavalo”, para seu azar cai sentado em cima duma touceira de juquiri.

A pepéua, das grandes, saiu pela braguilha do Chiquito e em debandada sumiu nas matas da Ponta Negra.

O susto curou a todos do porre.

Para uma faxina completa, Chiquito entrou com calça e tudo dentro d’água e não havia mais nada a fazer a não ser arrumar e embarcar as tralhas.

No silêncio da volta, só três remavam. Deitado de barriga para baixo no assoalho da proa, um companheiro gemia e dizem que em casa assim ficou até o dia seguinte quando sua mulher se dispôs a arrancar os espinhos de juquiri que trouxe plantado no traseiro.

No sábado seguinte lá iam os quatro mas por precaução, vai que o colubrídeo se apaixona, mudaram de castanheira, passaram a levar menos limão e menos “ardida” e tiveram o cuidado de ficarem longe de touceiras de juquiri.

 

No salão, durante um bom tempo, só se falava da pepéua que, preguiçosa, queria fazer ninho onde não devia.  

P.S: dedico estes escritos ao Élbio Pedroso, AZULINO como eu, e a todos que como nós, no salão do “Chiquito”, tiveram o privilégio de ouvir histórias memoráveis de pescarias no Igarapé do Padre, Igarapé Açu e em toda a Ponta Negra.


— * É advogado e economista santareno. Reside no Rio de Janeiro, de onde escreve regularmente neste blog.

— Leia também de Helvecio Santos: Obrigado, Dona Nair! A consertadeira do meu joelho

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2 Comentários em: Meu barbeiro “bam bam bam” e a pepéua preguiçosa. Por Helvecio Santos

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  • Herci Maria Rebelo. Pessamilio disse:

    Helvecio…. nas festas juninas que realizávamos em nosso quintal essa sua história mereceria o troféu de Mió Contadô do Causo…. não que eu esteja duvidando da sua veracidade mas tem todas as tintas e nuances de história de pescador…kkk um conto muito saboroso e bem descrito ! Parabéns, meu amigo!!

  • Ludovico disse:

    Obrigado, amigo Helvecio, pelo compartilhar desse conto. Achei muito bom, que proproria transformar em um documentário.