Obrigado, Dona Nair! A consertadeira. Por Helvecio Santos
Ortopedista avalia o joelho. Imagem meramente ilustrativa

Desde que me entendo como gente gosto de praticar esporte ou, no mínimo, manter o corpo em forma.

Minhas primeiras lembranças são as remadas no Gundango, bote do vovô José, por sua arte cavado em tronco, enfrentando a correnteza do Furo da Sant’Aninha, ali na Costa de Óbidos, pouco antes da Ponta do Imperial, local onde nasci. 

Helvecio Santos (*)

Quando moleque, já morando em Santarém, na 24, perto da 2 de Junho, pulando de galho em galho, brincávamos de “pira” nas mangueiras do quintal da casa do “seu” Roberto Magalhães, e isso era só o começo. Disputávamos “rachas” na Coroa de Areia e fechávamos com chave de ouro em mergulhos no cristalino Tapajós.

Cresci e fechei meu ciclo santareno jogando futebol de campo no meu São Francisco “valente de guerra”, na Seleção Santarena e futebol de salão no Bola Branca.

No Rio de Janeiro participei de várias edições do disputadíssimo campeonato bancário de futebol de campo e, nos finais de semana de folga, praticava futevôlei e emendava com “peladas” nas praias do Leme, até o sol se por.

O tempo passou, a idade chegou, hoje alterno academia e natação.

Há algum tempo, numa aula de natação, errei a distância da borda da piscina e ao fazer a volta, senti uma forte fisgada no joelho o que com o passar do tempo só aumentou.

 

Fui ao ortopedista e após um raio-x, receitou-me um anti inflamatório para sair da crise e disse que aquilo com o tempo passaria. Prudente, recomendou que eu não abandonasse os exercícios. Tempo passou e a dor lá estava, incomodando.

Fui a outro ortopedista que receitou condroitina e glucosamina e disse que aquilo era da idade, mas passaria com o tempo. Azar o meu, meses depois só mesmo o tempo havia passado. A dor não passou!

Meu sagrado tempo anual de visitar Santarém se aproximava e a dor, contra meu gosto, sem ser convidada, fazia morada ininterrupta no meu joelho.  

Como na minha idade não tenho mais tempo para gastar com uma incômoda “companheira” que, repito, não convidei e nunca demonstrei ser bem vinda, olimpicamente decidi ignorá-la.

Também para não dar fama à “intrusa” e na esperança de que ela percebesse que nunca iria estragar um minuto sequer do meu precioso tempo e assim me largasse, tomei a decisão de não comentar com ninguém.

Viajei à Santa Terrinha e minha irmã notou que eu não estava fazendo meus prazerosos passeios no cais e nem me aventurando nas longas caminhadas em ruas que outrora foram minha passarela.

Instado, não resisti, abri o bico e aí a coisa complicou.

Preocupada em aliviar o meu mal, a minha irmã se muniu do que melhor tinha para o momento e não sei o que era pior: se a dor no joelho ou o fedor dos unguentos. Andiroba, banha de tartaruga, banha de sucuriju, banha de carneiro, tudo estrategicamente arrumado e à vista no canto do quarto que ocupo.

Se a dor vez por outra me dava alento, já a visão da mesinha era constante e nem era preciso olhar para lembrar. O unguinoso fedia tanto que para me ver livre, tinha noites que eu jurava que já estava bom.

Mas irmã que é irmã é meio mãe e basta esse meio mãe para perceber quando a coisa não está bem.

Por mais que se esforçasse, ela não tinha iniciação na pajelança e assim ficava a dever quanto à aplicação eficaz. 

Um belo dia ela acordou e disse: vou te levar numa “consertadeira”. Passo seguinte pegou as chaves do carro e me intimou.

 

Achando que o cuidado da minha irmã era pouco, uma moça que trabalha lá em casa disse que ela conhecia uma “consertadeira” melhor, daquelas de curar “quebranto” só com a ponta do indicador, sem nem mesmo precisar de “vassourinha”. Com fé inquebrantável na cura, foi dizendo que ela morava num beco próximo à 2 de Junho, ali atrás do Colégio Barão do Tapajós, numa casa vivamente pintada na cor laranja.

Se tinha que ir ao sacrifício, que fosse o melhor!  

Debaixo do olhar ameaçador da minha irmã, totalmente entregue, lá fomos nós rumo à casa da dona Nair.

Nem bem me acomodei no banco do carona, já o carro embicava no beco e numa cadeira de balanço, à sombra de uma frondosa mangueira, lá estava o anjo das “desmentiduras” e “quebrantos”, deliciando-se com a brisa do início da tarde.

Um largo sorriso nos recebeu e após os cumprimentos, adentrarmos no seu “consultório”.

Indicou-me uma cadeira e fiz um curto relato da minha “desdita”. Cuidadosamente ela pegou um frasco com um unguento branco e isso me deixou contente, pois não parecia em nada com os unguentos da mezinha da minha irmã.

 Acomodou minha perna sobre as suas pernas e passou uma farta porção do unguento e, pelo bocado que foi, até achei que eu estava sendo tratado como estrela. Conversou, conversou e, num movimento forte, dei um grito de dor, o que derrubou toda a minha crença no estrelismo. Meu joelho fez um barulho, na sua linguagem, um “truco” e ela disse: pronto! Passou o braço por baixo do meu joelho e dobrou. Pasmem! A dor havia desaparecido.

Ela riu do meu grito e falou que meu joelho não estava “desmentido”. Ufa! Que alívio, e continuou: na verdade o nervo estava torcido, o que sobrecarregava os outros nervos, razão de às vezes parecer que a dor andava. Deu seis meses para os nervos se rearrumarem e a dor desaparecer. 

Saí de lá feliz e sem a dor que cismava em me seguir.

Liguei para minha mulher no Rio de Janeiro e ela começou a falar, muito braba,  pois na sua apreciação, isso era uma irresponsabilidade. Deixei-a falar e ao final a convenci do meu acerto, lembrando que a visita à “consertadeira” ficava por conta da minha porção índio.

Já no Rio em uma consulta regular ao meu endocrinologista, comentei sobre a “consertadeira”. Ele mandou eu continuar com a condroitina e a glucosamina e aos risos disse que entre o céu e a terra existe ainda muito mistério e que não descarta a ajuda que a minha porção índio recebeu.

Neste junho fez seis meses que estive com dona Nair e embora a dor não tenha desaparecido por completo, cada dia ela se torna menos constante e já começa a ser uma vaga lembrança. Voltei a fazer caminhadas, esteira, ergométrica e no final de semana que passou fiz 6Km na areia fofa da praia.

O ano já virou a metade e estou novamente no meu período pré Santarém. Otimista, preparo-me para ir de casa, ali no início da 24 de Outubro, até o beco atrás do Colégio Barão do Tapajós, a pé, para exibir o feito e dar um abraço à minha benfeitora.  

Abusado, vou voltar caminhando pela orla, esticando a vista, sentindo a brisa do Tapajós agora sem o visual poluído pelos barcos, curtindo cada passo, sem dor, agradecendo à dona Nair e ao nosso Prefeito. Ela, por me livrar da dor, ele, por me livrar do visual poluído pelos barcos.   

 

Ave, dona Nair! Este ano quero lhe servir novamente sopa na Caminhada de Fé com Maria e que nossa Mãe Santíssima lhe dê muita saúde e conserve esse seu lindo sorriso para a senhora consertar muita junta, quebrar muito quebranto, distorcer muito nervo, torcendo que a vida seja sempre uma eterna caminhada de fé.

Ave, prefeito Dr.Nélio Aguiar! As eleições se aproximam e há muito trabalho a fazer mas já me contento com a devolução ao povo da linda orla santarena, arborizada, e sua praia de areia branca, cheia de traves e postes para redes de vôlei, dentes a sorrir para todos os que querem por Santarém se apaixonar.

P.S.: dedico estes escritos à Vó Maroca, consertadeira de mão cheia, benzedeira infalível e aparadeira de várias gerações da Costa de Óbidos, da Ponta do Imperial e até onde seus passos miúdos e as remadas nos botes feitos de tronco alcançavam. Sua bênção, Vó!   


— * É advogado e economista santareno. Reside no Rio de Janeiro, de onde escreve regularmente neste blog.

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7 Comentários em: Obrigado, Dona Nair! A consertadeira do meu joelho. Por Helvecio Santos

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  • Herci Maria Rebelo. Pessamilio disse:

    Helvecio, suas crônicas sempre trazem referências de vivências e de momentos enriquecedores vividos em sua Santarém. Muitas das palavras desse universo Santareno soam misteriosas para.mim, mas me instigam e divertem…sucuriju… pira…. E quem ainda não sofreu algum dia com essas dores que muitas vezes nos tolhem os passos … sim, condroitina e glucosamina são minhas velhas conhecidas… Mas a fé e a esperança colocadas nas mãos experientes de Dona Nair encontram eco também em nós, que esperamos sempre curas milagrosas Parabéns pela excelente crônica amigo!

  • paulo disse:

    TAMBEM QUERO O ENDEREÇO

  • ADELAR MICHELIN disse:

    Ola qual o endereço da D. Nair, pode informar
    Obrg

  • Jeso Carneiro disse:

    Tão longo acabei de ler esse texto, mandei uma msg privada para o autor desse “ouro puro”. Agora, o faço publicamente. “Muito obrigado pela leitura saborosíssima que vc me proporcionou com seu texto sobre Dona Nair. Que leveza! Que toque de humor sábio! Que encantador!. Gol de placa, Azul!”.

    1. HELVECIO SANTOS disse:

      Amigo Jeso, credito o elogio à amizade que nos une o que às vezes nos deixa meio de coração mole. Vou me esforçar cada vez mais pois, para mim, um elogio desses beira a porta do paraíso. De qualquer maneira, obrigado! TAPAJOARAMENTE AZUL,

  • Neivaldo José Ferreira Alves disse:

    Salve Helvécio. Novamente uma belíssima crônica pitoresca. Não conheço Dona Nair pessoalmente, pois ainda não precisei de seus dotes. Porém, ouço relatos impressionantes de seu mister, com certeza muito bem abençoado pelas mãos divinas. Em Óbidos, sua cidade natal, meados de 1996, passei por situação idêntica, com bastante dor e o joelho direito travado, num ângulo de mais ou menos 100 graus, em face de um trauma futebolístico. Dessa vez, o alívio se deu pelas mãos do “consertador” ou “puxador” Sr. Ronaldo. Não sei se ainda vive. É difícil mensurar o tamanho da gratidão. Grande abraço.

    1. HELVECIO SANTOS disse:

      Bom dia, Neivaldo! Obrigado pelo comentário. Sinceramente espero que vc nunca precise dos dotes da dona Nair mas é bom saber que ela está à postos. É impressionante constatar que depois de muitos anos fora de Santarém, com a tecnologia invadindo a tudo e a todos, ainda há pessoas que são abençoadas com esse dom, verdadeira graça de DEUS. Confesso que inicialmente fiquei temeroso mas ainda bem que minha porção índio falou mais alto. Não coloquei no texto mas a imagem que tenho mais viva na memória é o amanhecer, em frente ao Seminário São Pio X, minhas irmãs, sobrinhos, sobrinhas e a vizinha da frente, distribuíamos sopa para os participantes da Caminhada de Fé com Maria. Lá pelas tantas minha irmã chama minha atenção. Braços erguidos, largo sorriso, lá ia dona Nair cantando, dançando, enfeitando a paisagem, feliz da vida. Na minha idade não encaro esse desafio. Fico só na distribuição da sopa. Já a dona Nair, benza a DEUS e que ELE a conserve por muitos anos. TAPAJOARAMENTE AZUL,