
O escândalo envolvendo suspeitas de irregularidades e conflito de interesses na Fundação de Integração Amazônica (Fiam) ganha novas camadas ao se analisar o perfil profissional de seus dirigentes. Otto Narry Tavares da Silva, atual diretor-presidente da fundação e figura central nas investigações do Ministério Público do Pará (MPPA), acumula uma função estratégica dentro da própria Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa): ele é servidor público e atua oficialmente como agente de contratação e pregoeiro da instituição de ensino.
Lotado na Diretoria de Compras e Serviços (DCS), setor vinculado à Pró-Reitoria de Administração (Proad) da universidade, Otto exerce suas atividades laborais na Ufopa em regime de teletrabalho integral.
De acordo com os dados da ficha de remuneração do Portal da Transparência da Controladoria-Geral da União (CGU), referentes ao mês de maio de 2026, o servidor recebe remuneração básica bruta de R$ 6,4 mil.
Com os descontos obrigatórios (como imposto de renda e previdência oficial), o valor líquido da remuneração fica em R$ 5,1 mil. O documento aponta ainda o recebimento de R$ 1.192,00 referentes a verbas indenizatórias.
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A dupla posição de Otto Narry chama atenção pela natureza de suas atribuições. Na estrutura da Ufopa, o cargo de pregoeiro e agente de contratação exige do servidor a condução rigorosa de processos licitatórios, zelando sempre pela legalidade, impessoalidade e proteção do dinheiro público.
Na cadeira de diretor da fundação de apoio (Fiam), contudo, sua gestão tornou-se o alvo principal de um inquérito aberto pelo Ministério Público e conduzido pelo promotor Túlio Chaves Novaes.
O ponto mais sensível de seu envolvimento no escândalo foi a sua própria admissão aos investigadores.
Em reunião realizada no MPPA, Otto confessou que a Fiam descobriu, em outubro de 2025, que o então assessor jurídico da fundação, Kennedy Kester da Silva Lima, era também o sócio-administrador da construtora J. L. Pinto Gomes Ltda. A empresa havia vencido uma licitação de R$ 1,86 milhão para realizar adequações no campus da Ufopa em Juruti.
Apesar de constatar o flagrante conflito de interesses, o diretor-presidente admitiu que a Fiam decidiu manter o contrato em vigor e os pagamentos fluindo até o encerramento daquele exercício financeiro, sob a justificativa de não paralisar os serviços. A quebra de vínculo com o advogado só foi formalizada em janeiro de 2026.
O próprio Otto Narry reconheceu perante o Ministério Público que a fundação não possuía uma estrutura robusta de controle interno e auditoria para suas contratações.
Recomendação
Diante da gravidade da situação e do risco contínuo de danos ao erário, o MPPA expediu uma recomendação dura, exigindo que Otto, na condição de diretor-presidente da Fiam, suspendesse imediatamente todos os pagamentos, empenhos e contratos com a construtora investigada.
O descumprimento das medidas, alertou o promotor, poderá resultar em ações judiciais severas, incluindo processos por improbidade administrativa para garantir o ressarcimento aos cofres públicos.
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