
Série · Santarém pelo Brasil
Emmanuel Penna nasceu às margens do Tapajós, formou-se em Belém, construiu carreira e família na capital paraense — mas nunca deixou de ser, antes de tudo, um santareno.
Às margens do rio Tapajós, numa Santarém que ainda não tinha faculdades nem asfalto por todos os lados, Emmanuel Penna aprendeu o que nenhuma universidade ensina: o valor das raízes. Filho de um baiano e de uma cearense que chegaram ao Pará em 1953 atraídos pelas promessas daquela terra fértil, ele nasceu no dia 17 de novembro de 1956 e cresceu cercado pelas belezas naturais e pelos costumes que, como ele mesmo diz, “moldaram minha forma de ver o mundo.”
A história de Emmanuel é também a história de uma geração de santarenos que precisaram partir para crescer — sem nunca deixar de pertencer. Hoje com quase 70 anos, engenheiro civil com mais de quatro décadas na Caixa Econômica Federal, pai de quatro filhos e avô, ele olha para trás com a serenidade de quem construiu uma vida sólida sem perder o fio que o conecta ao começo de tudo.
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“Sou, antes de tudo, um santareno que encontrou novos caminhos, sem jamais esquecer de onde veio.”
Infância à beira do rio
Waldemar e Haydee — o baiano e a cearense — chegaram a Santarém dois anos antes do nascimento do filho, trazendo consigo a coragem típica dos migrantes nordestinos que ajudaram a construir a Amazônia. Foi nesse ambiente de afeto, trabalho e natureza exuberante que Emmanuel viveu sua primeira infância, ao lado dos irmãos. “Banhos e pescarias no rio Tapajós, as gincanas das férias, as noitadas esportivas, as sessões de cinema do Cine Olímpia, as festinhas, os bailes de carnaval do Centro Recreativo e as paqueras na pracinha” — são essas as imagens que ele carrega, como fotografias guardadas num álbum que o tempo não consegue desbotar.
Houve uma interrupção nessa infância tapajônica: a família ficou ausente de Santarém durante a década de 1960. Mas em 1970, Emmanuel voltou — e foi nesse retorno que encontrou o ambiente que marcaria definitivamente sua formação.
O Dom Amando e a formação de um caráter
A escola que o recebeu nesse retorno foi o Colégio Dom Amando, instituição que ele recorda com carinho declarado. Lá, além de uma educação que considera privilegiada, construiu amizades que perduram até hoje. O colégio aparece em suas memórias não apenas como instituição de ensino, mas como palco de uma juventude intensa — com direito a noitadas esportivas e toda a sociabilidade que uma cidade de interior, na virada dos anos 1970, podia oferecer.
Foi no Dom Amando que Emmanuel completou o que seria sua última fase de estudos em Santarém. Em 1975, aos 18 anos, chegou a hora mais difícil: partir.
A partida necessária
A Santarém de meados dos anos 1970 ainda não tinha faculdades. Para quem queria uma formação superior, a única saída era Belém — capital distante, mundo diferente. “Não foi fácil sair de perto da família e dos amigos, mas eu sabia que era necessário para construir um futuro melhor”, recorda Emmanuel, com a honestidade direta de quem já digeriu há muito essa dor.
Em Belém, matriculou-se no curso de engenharia civil da Universidade Federal do Pará (UFPA). A escolha não era trivial: engenharia civil exige raciocínio, disciplina e visão de longo prazo — qualidades que Emmanuel parece ter absorvido tanto nos bancos da universidade quanto à beira do Tapajós, observando a vida fluir. Em 1980, formou-se.
“Sair de Santarém foi necessário para crescer, mas também tenho a convicção de que nunca deixei de pertencer àquela terra.”
Uma carreira construída tijolo a tijolo
Com o diploma nas mãos, Emmanuel iniciou sua trajetória profissional na Cohab — Companhia de Habitação do Estado do Pará. Em seguida, passou pelo BNH (Banco Nacional da Habitação) e chegou àquela que seria sua casa por mais de quatro décadas: a Caixa Econômica Federal. São mais de 45 anos de dedicação à instituição — um número que, por si só, diz muito sobre o compromisso de um homem que leva a sério o que assume.
A ironia afetiva não passa despercebida: o menino que cresceu num estado onde moradia era sinônimo de casas à beira d’água passou a vida profissional trabalhando com habitação e crédito imobiliário. Como se a Amazônia, de alguma forma, nunca tivesse saído do seu campo de visão.
Família: a obra mais importante
Foi em Belém que Emmanuel construiu também sua família. Quatro filhos — Yvens, Ingrid, Emmanuel Filho e Ivana — e um neto, Gael, nasceram na capital paraense. Hoje, divide a vida com Alyne, uma belenense, como ele mesmo destaca, “da gema.”
Mas se Belém é o endereço, a filosofia de vida veio de Santarém — mais especificamente, de Waldemar e Haydee. Emmanuel fala dos pais com uma reverência que vai além da gratidão filial. “São, sem sombra de dúvida, minhas principais referências de vida”, afirma. E o que recebeu deles, ele trata de transmitir aos filhos — não por palavras, mas por ação. “Não simplesmente por falas e conselhos e sim, principalmente, pelos atos praticados no dia a dia da vida.”
Trajetória
O fio invisível que nunca se rompeu
Mesmo com a vida estruturada em Belém, Emmanuel nunca cortou o cordão umbilical com Santarém. Ao longo dos anos, fez questão de voltar sempre que pôde — para rever o pai, matar a saudade e, como ele descreve, manter vivo o vínculo com suas origens. “Cada visita era um reencontro com minhas raízes, com a minha história”, diz.
Essa devoção às origens não é nostalgia paralisante. É identidade ativa. Emmanuel reconhece que a partida foi necessária — e não se arrepende. Mas reconhece também que o que o faz inteiro é exatamente essa combinação: o horizonte que Belém abriu e o chão de Santarém que nunca deixou seus pés.
“Nessa já relativamente longa trajetória de vida, tenho como grande aprendizado ser honesto comigo mesmo e colocar em prática todos os ensinamentos recebidos dos meus pais.”
Desejos para o futuro — e para o mundo
Quando perguntado sobre desejos ainda não realizados, Emmanuel responde com uma generosidade que surpreende pela simplicidade. Ele reconhece ter muitos desejos, mas prefere resumi-los em apenas um: “Saúde e paz para toda minha família e amigos e que a humanidade possa encontrar a paz nesses dias tão difíceis que se apresentam.”
É a fala de um homem que já passou pelas urgências pessoais e chegou ao ponto mais largo da existência — aquele em que o bem individual e o bem coletivo começam a se confundir.
Para encerrar o que chama de “resumo de vida”, Emmanuel deixa uma sugestão de leitura que diz muito sobre quem ele é: a biografia de Baruch Espinosa, o filósofo holandês do século XVII que defendia que a liberdade só é possível quando vivemos em acordo com nossa natureza mais profunda. “Foi, na minha modesta e humilde opinião, um dos maiores filósofos de todos os tempos”, afirma.
Difícil não enxergar, nessa escolha, um autorretrato disfarçado de recomendação literária. Um homem que partiu sem se perder. Que construiu longe sem demolir o que ficou para trás. Um santareno, antes de tudo.
Sugestão de leitura do perfilado
Baruch Espinosa — biografia do filósofo holandês (1632–1677), autor da Ética, obra seminal sobre liberdade, razão e a natureza humana. Para Emmanuel Penna, “um dos maiores filósofos de todos os tempos.”
Série Santarém pelo Brasil, do JC — histórias de santarenos que partiram e construíram vidas em outros lugares, sem perder o vínculo com suas origens
● Leia também dessa série: Da Amazônia para Amazônia: a rota da paraense Nair Lima em busca do conhecimento.
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