
Como o JC revelou nesta quarta-feira (29), um esquema milionário sangrou os cofres da Prefeitura de Itaituba (PA) em mais de R$ 50 milhões apenas em 2024, sob o comando da antiga (Valmir Climaco) e da atual (Nicodemos Aguiar) gestão.
Como um volume tão colossal de dinheiro público escorre pelo ralo sem levantar suspeitas imediatas? A resposta está na engenharia contábil e no uso de “sócios-laranjas” — pessoas comuns, de origens humildes, que de uma hora para outra se tornaram “megaempresários” no papel, vencendo licitações milionárias da Seminfra (Secretaria Municipal de Infraestrutura).
Os documentos e dados do Portal da Transparência, assim como cópia da denúncia feita ao Ministério Público do Pará sobre o caso obtidos pelo JC expõem o núcleo duro desse esquema, batizado de “Grupo Magno”. O maestro dessa engrenagem seria Magno Silva Nascimento, proprietário do escritório Magnum Contabilidade.
A investigação aponta que ele não apenas gerenciava a contabilidade das 7 empresas fantasmas, mas utilizava familiares e seus próprios funcionários para ocultar os verdadeiros beneficiários do dinheiro desviado.
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Balconista dos R$ 19 milhões
O caso mais emblemático do esquema é o da Vieira Construções Ltda. A empresa foi a campeão de faturamento desse caso, embolsando impressionantes R$ 19,3 milhões em 2024, fornecendo supostamente cimento e materiais de construção para a Prefeitura de Itaituba.
A dona registrada no papel, porém, era Lara Milena Vieira Marques. O perfil da “empresária”? Uma balconista assalariada da loja Girassol Produtos Naturais — estabelecimento que, ironicamente, funciona no mesmo endereço declarado pela empreiteira milionária.
Quando as denúncias sobre o escândalo do cimento começaram a esquentar na Câmara de Vereadores de Itaituba, em agosto de 2024, a estrutura precisou ser ajustada. Lara Milena saiu de cena e repassou as cotas da empresa para Wagner Silva Nascimento — que vem a ser irmão do operador central, Magno Nascimento, e marido de uma pré-candidata a vereadora nas eleições daquele ano.
Dupla laranjagem
O escárnio com o dinheiro público ganha contornos de amadorismo ao analisarmos o perfil de Robson Silva Sobrinho. Ele não é um empresário do ramo da construção civil, mas sim um modesto funcionário do escritório Magnum Contabilidade. Ainda assim, seu CPF figura como titular nominal de não apenas uma, mas duas empresas do suposto esquema: a Comercial Estrela Construções Ltda e a RS3 Comercial Ltda.
Juntas, as empresas do funcionário do contador Magno abocanharam mais de R$ 12,4 milhões dos cofres de Itaituba. A manobra de colocar duas fornecedoras da mesma secretaria sob o nome do mesmo funcionário configura a “dupla laranjagem”, uma tática de fracionamento para tentar diluir o volume escandaloso de pagamentos e não chamar atenção dos órgãos de controle.
Negócios em família
A ramificação do Grupo Magno não para por aí. A Mageplan Service e Logs Ltda, que faturou R$ 5,6 milhões prestando “serviços diversos” para múltiplas secretarias, está registrada em nome de José James Silva Nascimento — outro irmão do operador Magno Nascimento. A prova do controle oculto é que o próprio Magno Nascimento assinou contratos da Mageplan com a prefeitura como representante legal, atropelando a fachada do irmão.
Outro alvo da investigação é a VBS Comercial Ltda, recebedora de R$ 10,4 milhões da prefeitura. O dono no papel é titular de uma modesta barbearia em Itaituba, um perfil econômico que, segundo a denúncia protocolada na Polícia Federal, é materialmente incapaz de operar o fornecimento de materiais agregados na escala contratada pela Seminfra.
A utilização sistemática de balconistas, barbeiros e funcionários administrativos como testas de ferro revela a face mais cruel do desvio de recursos públicos: a ilusão de legalidade. Enquanto milhões escorriam por CNPJs fantasiados de grandes fornecedoras, as ruas de Itaituba aguardavam os serviços que só existiram nas notas fiscais dessas empresas de fachada.
O portal JC tentou contato com a Prefeitura de Itaituba, com o ex-prefeito Valmir Clímaco, com o atual prefeito Nicodemos Aguiar, bem como com Magno Silva Nascimento, Wagner Silva Nascimento, Robson Silva Sobrinho, Ronison Aguiar Holanda e os demais citados na denúncia, mas não obteve êxito até o fechamento desta edição.
O espaço continua aberto para o contraditório e os esclarecimentos dos envolvidos.
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