Jeso Carneiro

Santarém cai para segunda divisão da política no Pará. Por Sandro Lopes

Santarém cai para segunda divisão da política no Pará. Por Sandro Lopes
Vista aérea da orla de Santarém, oeste do Pará. Foto: arquivo JC

Santarém sempre teve um papel importante na política do Pará. Pela sua população, pela sua importância econômica e por ser referência para toda a região oeste, era natural esperar que a cidade tivesse também um peso político proporcional à sua importância.

Já elegemos três deputados federais e três estaduais com domicilio eleitoral na cidade numa única eleição. Tivemos deputado constituinte e por três vezes candidatos a vice na chapa majoritária, além de suplentes de senador.

Publicidade

Mas os resultados das eleições deste ano mostram que precisamos olhar para essa realidade com mais atenção.

Nas duas últimas disputas, Santarém não conseguiu superar candidatos de municípios do entorno de Belém. E o cenário atual chama ainda mais atenção: estamos começando a ficar atrás até de cidades menores, que conseguiram construir votações mais expressivas para seus candidatos.

Enquanto alguns dos principais grupos políticos do estado conseguem trabalhar com votações na faixa de 70 a 80 mil votos, Santarém continua disputando em um patamar de aproximadamente 40 a 50 mil votos, com muito esforço, quase sempre insuficientes para garantir posição de destaque e até mesmo conseguir a eleição.

O deputado estadual eleito de Santarém em 2026 melhor colocado e mais votado da história na cidade, JK do Povão, ficou na 15ª posição entre os 41 eleitos. Ficou atrás de candidatos/candidatadas de Breves, Oriximiná, Bragança, Redenção e Marabá.

A questão, portanto, não é apenas quantos votos Santarém consegue produzir. A questão é por que uma cidade com a importância e a influência regional de Santarém não está conseguindo transformar sua força econômica, social e populacional em força eleitoral?

É preciso reconhecer que o cenário político mudou. As eleições estão cada vez mais competitivas, os municípios passaram a organizar melhor suas forças e os candidatos de diferentes regiões aprenderam a construir alianças e estratégias capazes de ampliar suas votações para além de suas bases tradicionais.

Enquanto isso, talvez Santarém ainda esteja trabalhando com uma lógica eleitoral que precisa ser repensada.

Não se trata simplesmente de lançar candidatos e esperar que a força natural da cidade faça o restante. É necessário construir uma estratégia regional, ampliar o diálogo com os municípios do oeste do Pará e demais regiões e fortalecer lideranças, formar novas alianças e entender melhor como o eleitor está se comportando.

Santarém não disputa apenas com Belém. Disputa espaço político com outras regiões que também entenderam que uma eleição estadual exige organização, planejamento e capacidade de articulação. Vejo até que o plebiscito do Estado do Tapajós fez surgir em municípios menores um sentimento de pertencimento e criando para com Santarém de certa forma um olhar diferente, como tínhamos com relação a Belém ser o centro das atenções na área pública .

Por isso, o resultado das eleições deste ano deve servir menos para procurar culpados e mais para provocar uma reflexão.

Se continuarmos fazendo política da mesma maneira, podemos continuar obtendo os mesmos resultados.

Santarém precisa discutir qual papel quer ocupar no cenário político paraense nos próximos anos. Precisamos deixar de pensar apenas na eleição individual e começar a pensar em um projeto político regional, capaz de unir Santarém e os municípios do entorno em torno de objetivos comuns.

O momento exige uma mudança de postura: mais planejamento, mais organização, mais articulação regional e estratégias eleitorais pensadas com antecedência.

O desafio não é apenas eleger mais candidatos. É recuperar o peso político de Santarém e fazer com que a força da região se transforme novamente em representação e protagonismo no Pará.

Talvez esteja na hora de admitir que as estratégias utilizadas até aqui precisam ser revistas. E essa discussão precisa começar agora, muito antes da próxima eleição.

Publicidade

∎ Sandro Lopes, advogado, atua em campanhas eleitorais na região oeste do Pará há 30 anos.

∎ Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião do JC. A publicação deles obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros, prioritariamente, e de refletir as diversas tendências do pensamentos contemporâneo.

O JC mais perto de você! 📱

Gostou do que leu? Siga nossos canais e receba notícias, vídeos e alertas em primeira mão:

Sua dose diária de informação, onde você estiver.

Sair da versão mobile