
As eleições de 2026 no Pará terminaram, e os números já contam uma história interessante — principalmente quando colocamos lado a lado o que aconteceu na Assembleia Legislativa (Alepa) e na bancada federal, da Câmara dos Deputados.
Dois parlamentos, dois ritmos de renovação e, no fundo, um só eleitor tentando dizer alguma coisa. Vale a pena ouvir.
Dois parlamentos, duas velocidades
O dado que salta aos olhos é o contraste na taxa de renovação. Na Alepa, dos 41 deputados estaduais eleitos, 19 são caras novas — uma renovação de 46%. Quase metade da Casa mudará a partir de 2027. Já na bancada federal, das 17 cadeiras, só 6 trocaram de dono: renovação de 35%, com 11 reeleitos. Ou seja, o paraense foi muito mais ousado ao escolher quem o representa em Belém do que quem o representa em Brasília.
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O que isso quer dizer? À primeira vista pode parecer contradição, mas não é. Diz muito sobre como o eleitor calcula poder e proximidade.
O recado do eleitor
Na política estadual, o eleitor está perto. Ele sente na pele o resultado — ou a falta dele — e cobra. A Alepa é o parlamento do dia a dia, o das demandas locais, e foi justamente onde o desejo de mudança apareceu com força. A renovação de 46% caminha na mesma direção do resultado para o governo, em que o eleitorado recusou a continuidade e escolheu a alternância. É um recado coerente: na esfera que o paraense sente mais de perto, ele pediu renovação.
Na Câmara Federal, a lógica é outra. O deputado federal trabalha com um “produto” diferente: emendas, verbas, articulação em Brasília, acesso a ministérios.
Esse tipo de capital político é construído com tempo e mandato, e o eleitor tende a preservar quem já tem trânsito na capital federal — afinal, trocar um nome experiente por um iniciante pode significar perder influência na disputa por recursos. Por isso, a renovação federal foi mais tímida: ali o eleitor premiou a experiência e a capacidade de “trazer para casa”.
Resumindo o recado em uma frase: o paraense quis mudança onde a mudança dói menos e rende mais rápido (o estadual), e estabilidade onde a experiência vale ouro (o federal).
Delegado Caveira e um recorde histórico
A eleição também produziu um fenômeno individual que merece destaque. Delegado Caveira (PL) foi o deputado federal mais votado da história recente do Pará, com 414.927 votos — mais de 400 mil, um patamar que até então pertencia a nomes de peso como o do hoje senador Jader Barbalho.
Isso não é detalhe. Um voto dessa magnitude mostra o surgimento de uma liderança de alcance estadual, com capital eleitoral próprio e capacidade de arrastar votos — exatamente o tipo de ativo que reorganiza o tabuleiro para as próximas disputas, inclusive majoritárias. É um nome que entra no radar de 2028 e 2030.
A Alepa mais feminina da história
Outro ponto que não pode passar batido: a Alepa elegeu 11 mulheres, ampliando de forma significativa a presença feminina no parlamento estadual. E há um dado curioso dentro do dado: o PL, sozinho, elegeu 4 das 11 deputadas. Um partido geralmente associado a uma pauta mais conservadora foi, na prática, o maior responsável por levar mulheres à Casa neste ciclo.
Isso tende a mudar o clima das sessões. Mais mulheres significam, potencialmente, novas pautas, novos embates e uma correlação de forças diferente nas comissões.
A legislatura promete debates mais plurais e, provavelmente, mais acalorados.
A conta que Dr. Daniel precisa fechar
E aqui entra o xadrez que vai definir os próximos quatro anos. O governador eleito, Dr. Daniel, chega com uma base inicial de 10 deputados estaduais: 7 do PL e 3 do Podemos. É um ponto de partida, mas está longe do conforto. Em uma Casa de 41 cadeiras, a maioria simples exige 21 votos. Faltam, portanto, pelo menos 11 apoios para governar com tranquilidade.
O que vem a seguir é o roteiro mais previsível da política brasileira: a construção da maioria. Dr. Daniel vai partir para a atração de novos deputados, e isso, convém dizer sem rodeios, é parte normal do jogo.
A maior parte dos parlamentares não é movida por ideologia, mas por entrega: eles precisam de emendas, convênios e recursos para levar obras e serviços às suas bases. Quem controla a caneta do Executivo controla boa parte dessa moeda.
A pergunta, então, não é se a base vai crescer, mas a que preço.
Um governo que monta maioria à base de troca fisiológica ganha governabilidade e perde autonomia; um governo que negocia a partir de um projeto consegue cooptar sem se tornar refém. O desenho da Alepa, fragmentada, com MDB ainda grande (o maior bloco) e um PL robusto já aliado, vai exigir de Dr. Daniel muita habilidade política logo de largada.
O que esperar
Juntando as peças, a legislatura 2027–2030 no Pará nasce com três marcas: um parlamento estadual renovado e inquieto, uma bancada federal estável e experiente e um governador que precisará transformar 10 deputados em maioria sem se perder pelo caminho. Some-se a isso uma Alepa mais feminina e a ascensão de uma liderança de votação recorde, e o resultado é um cenário de disputas intensas e, provavelmente, muitas surpresas.
O eleitor paraense já deu o seu recado. Agora é a vez de os eleitos mostrarem se entenderam.
∎ Dornélio Silva, paraense, é cientista político e diretor da Doxa. Leia também dele: A esquerda no Pará se esfacelou. Centro domina o cenário municipal. e ainda: O eleitor preferiu o continuísmo em vez da alternância de poder.
∎ Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião do JC. A publicação deles obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros, prioritariamente, e de refletir as diversas tendências do pensamentos contemporâneo.
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