Jeso Carneiro

Gusttavo Lima, meu pirão primeiro – ou o tororó de Anitta. Por Joaquim Barbosa

Gusttavo Lima, meu pirão primeiro - ou o tororó de Anitta. Por Joaquim Barbosa
Ze Neto, Anitta e Gusttavo LIma: “Quem tem telhado de vidro não joga pedra no dos outros”.

Larissa de Macedo Machado, a Anitta, tatuou o “tororó”, seu, unicamente seu, mas a tinta espirrou na fuça dos desse tal “sertanejo universitário”, cuja voz retumba em gente como Gusttavo Lima, de perfil conservador (?), moralista e ferrenho crítico da Lei Rouanet (Lei de incentivo à Cultura, criada em 1991), entretanto amante de verbas públicas – e se for de cidades pobres, onde falta quase tudo, que mal tem? Meu pirão primeiro. Oras…

Depois de mexer com o tororó da Anitta, durante o show na cidade de Sorriso-MT, no intento de hitar com a galera da bolha moralista – dessa que defende a família, os bons costumes e arminhas, mesmo em “marcha para Jesus(?) – o tal Zé Neto flopou, como diz a galera antenada da internet.

A galera fã da cantora – que até ganhou um boneco de cera no museu Madame Tussauds de Nova Iorque – foi fuçar a vida dos do telhado de vidro e achou motivos suficientes para que o Ministério Público abrisse uma frente de investigações sobre o uso de verbas públicas de prefeituras de pequenos municípios, com altos valores, para pagar shows, entre eles o de Gusttavo Lima, caso da cidadezinha São Luiz, ao Sul de Roraima, com exatamente 8.232 habitantes, cujo prefeito visa agraciar ao cantor com 800 mil. Depois sugiram outros tantos contratos nos valores acima de 1 milhão de reais.

Na cidade, onde o prefeito pretende torrar 800 mil com o show de Gusttavo Lima, quase metade da população vive do Bolsa Família, recapeado para até o final de 2022 em Auxílio Brasil.

A realidade de outras cidades – terras onde manam leite e mel dos cofres públicos e espaço de preferência dos críticos da Lei Rouanet – a realidade não é certamente diferente. Falta dinheiro para quase tudo, menos para gastar com o desnecessário.

A propósito, para o show de Gusttavo Lima, se se concretizar o pagamento, a relação entre o valor e o número de habitantes, equivale dizer que cada morador pagará 100 reais para a realização do evento.

Saber da diferença entre o dinheiro que se torra com shows Brasil por aí e aquele que sai da Lei Rouanet explica por que os dos discursos moralistas e patrióticos preferem o dinheiro das prefeituras, que não precisa passar por uma comissão de avaliação – porque os que deveriam fiscalizar, os vereadores e órgãos de controle, não o fazem – a buscar verbas de incentivos fiscais.

Para captar recurso, quem prefere os benefícios da Lei Rouanet, que em maioria esmagadora dos casos não passam dos 10 mil reais, o candidato precisa apresentar um projeto, explicando inúmeros questionamentos, depois passar por seleção e análise de uma comissão de especialistas (na proposta aprovada da Lei) do Ministério da Cultura, hoje Secretaria da Cultura, para, então, receber o aval para buscar a captação de recursos.

O dinheiro provém de empresas privadas que optam por dedução de até 6% de imposto de renda, portanto, embora um dinheiro privado, tem aval público. Depois quem teve o projeto aprovado e recebeu incentivos deverá prestar contas à mesma comissão que o avaliou, e se as contas não forem justificadas com a devida formalidade e veracidade, deve-se devolver o dinheiro recebido ou parte do que não se justificou com exatidão.

No caso do dinheiro torrado por prefeituras em shows, não precisa de explicação rigorosa para que o contratado receba a bolada. Basta que tenha o aval do prefeito – e atenda aos seus intentos eleitorais – e esse prefeito tenha a maioria dos vereadores para chamar de seus (qualquer semelhança com os nossos de terras mocorongas não será mera coincidência), que fecham os olhos para a malandragem da torração do dinheiro público.

Aí faz-se, literalmente, a festa com dinheiro que sai da educação, da saúde, da segurança, da infraestrutura e de onde mais se puder espremer.

Para isso, o discurso é aquele de sempre: a busca do desenvolvimento econômico, levar o município ao conhecimento dos outros, mesmo que para isso morram alguns em hospitais e faltem estruturas nas escolas e merenda para os alunos. Vale o que o político cretino sabe que vai receber depois, ele e seus asseclas.

Cantores que recebem as altas somas para shows não estão fazendo – a princípio – nada de ilícito, eles, certamente, fazem suas propostas – muitas delas nada generosas – e o gestor municipal e sua trupe é que decidem se aceitam ou não.

O problema está justamente nestes: prefeitos e demais asseclas, que preferem torrar o dinheiro que, indubitavelmente, faz falta ao povo, a investir onde há necessidade. A cretinice – os atos criminosos, pode-se dizer – são de gestores, não dos cantores, mas também de quem deveria fiscalizar, no caso de municípios, os vereadores, ou órgãos de controle. Não fazem.

Entretanto, toda essa malandragem que agora vem à tona esclarece e contrapõe também – ainda que rasteiramente – a diferença entre mamar nas tetas do povo facilmente e seguir os caminhos para conseguir patrocínio para evento, além de desmascarar os dos discursos moralistas e falsos patriotas.

Das lágrimas de Gusttavo Lima vitimizando-se em live – ou seria mimimi?, os ditos populares me parecem mais verdadeiros. Em terras de cego quem tem olho é rei. Em terra de sapo, de cócoras com ele. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Quem tem telhado de vidro não joga pedra no dos outros. Mas, preferem eles, meu pirão primeiro.

Anselmo Colares

É professor titular da Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará).

LEIA também de Joaquim Barbosa: O Estado assassino e O filho das elites no 13 de maio.

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