Jeso Carneiro

Novo ano e a velha política santarena

por Ib Sales Tapajós (*)

2013 é um ano que já começa mal na política institucional de Santarém. No primeiro dia do ano, o vereador Henderson Pinto (DEM) foi eleito para presidir a Câmara Municipal de Santarém. Como todos sabemos, Henderson é sobrinho de Lira Maia, político campeão de processos nas costas por desvio de verbas públicas.

Assim, a presidência da “Casa do Povo” estará a serviço dos interesses da “república cipoalense”, que representa o que há de pior na política santarena.

O outro lado da história é igualmente desanimador: o adversário de Henderson Pinto na disputa pela presidência da Câmara foi Maurício Corrêa (PSD), membro de uma das famílias mais ricas de Santarém, detentora de grandes extensões de terra, na cidade e no interior.

Uma das últimas ações de Maurício Corrêa como vereador em 2012 foi propor que a Câmara de Santarém condecorasse a empresa Buriti Imóveis pelos serviços prestados à sociedade santarena.

Tais serviços, em síntese, se resumem em devastar uma área de quase 200 hectares para loteamento, sem a realização de Estudo de Impacto Ambiental e com autorização irregular do secretário de meio ambiente Marcelo Corrêa, irmão do Maurício. [Detalhe: a área do loteamento da Buriti pertence – ou pertencia até pouco tempo atrás – à família Corrêa. Típico caso de relações espúrias entre o público e o privado].

Numa disputa Henderson x Maurício, o mais difícil mesmo é saber quem é o pior! Mas isso revela também a fragilidade da “oposição” ao Governo Von, capitaneada pelo PT e PDT, que votaram no Maurício Corrêa [cujo partido compôs a coligação que elegeu Alexandre Von]. Os partidos da “oposição” sequer tiveram condições de apresentar um nome autenticamente de oposição, alternativo à candidatura do cipoalense Henderson Pinto.

Ao final, Henderson derrotou Maurício por 12 votos a 9.

Além dessa fragilidade da oposição, a nova Câmara de Santarém é marcada também pela ausência de representantes legítimos dos movimentos populares, sociais, sindicais etc. A única vereadora que foge à regra é Ivete Bastos (PT), que possui ligação orgânica com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais.

Ivete, no entanto, teve uma atuação bem pífia como vereadora desde que assumiu a cadeira que era de Evaldo da Premac. Esteve muito longe de se referenciar como uma liderança política expressiva perante o povo santareno.

Rogério Cebulisk (PSB), o “Gaúcho”, que possuía uma ligação com movimentos sociais devido à sua atuação na Unecos, consolidou seu giro à direita votando no sobrinho de Lira Maia para presidente da Câmara. Claramente não representa as aspirações dos sujeitos coletivos que clamam por mudanças em nosso município.

Diante desse cenário, os movimentos sociais, sindicatos, estudantes, associações de moradores, indígenas, quilombolas, dentre outros setores, precisam fazer uma opção clara: o lugar central das lutas nos próximos anos deve ser as ruas. A Câmara de Santarém encontra-se, mais do que nunca, esvaziada de legitimidade política para atuar como porta-voz das reivindicações do povo perante o Governo Von.

Resta agora o caminho da pressão direta, com mobilização, greves, ocupações, passeatas. Os movimentos que estavam adormecidos ou cooptados pelo governo petista precisam acordar! Aqueles que mantiveram firmes suas bandeiras nos últimos anos precisam agora levantá-las com mais força.

A juventude, em particular, terá uma dura batalha pela frente: barrar o aumento da tarifa de ônibus dos estudantes. Desde 2008, a meia-passagem está congelada em R$ 0,65. Mas agora os empresários do transporte coletivo, representados pelo Setrans, estão vorazes para acabar com o congelamento, que foi uma vitória coletiva alcançada pelo movimento estudantil.

Muitos vereadores, inclusive o novo presidente da Câmara Henderson Pinto, já declararam publicamente que o congelamento é “insustentável”. Certamente o novo prefeito vai ter o apoio da Câmara de Vereadores para aumentar a tarifa estudantil. Os estudantes precisam levantar suas barricadas e lutar pela manutenção dessa conquista histórica!

Por outro lado, as pautas ambientais terão cada vez mais centralidade no próximo período. As ameaças do grande capital contra nossas riquezas naturais são muitas e não param de aumentar. Dezenas hidrelétricas estão sendo planejadas para o rio Tapajós, colocando em risco a vida e a cultura de vários povos indígenas.

A mineradora multinacional Alcoa, que vem auferindo lucros extraordinários com a bauxita do município de Juruti, está com os olhos arregalados para as jazidas de bauxita do Lago Grande em Santarém. Nossa cidade cresce e, com isso, aparecem cada vez mais projetos urbanísticos irresponsáveis com o meio ambiente. Além da “Cidade Jardim” da empresa Buriti, na Fernando Guilhon, chamou atenção o condomínio “Cidade dos Pássaros”, que seria construído em cima de terra indígena Borari, na APA Alter do Chão.

A luta por um meio ambiente ecologicamente equilibrado tem um importante e recente exemplo com o Movimento em Defesa do Juá, que levou mais de 200 pessoas às ruas no dia 13 de Dezembro para protestar contra o crime ambiental cometido pela Buriti na Fernando Guilhon.

Entidades ambientalistas, sindicatos, movimentos de luta por moradia, associações de moradores, movimento estudantil, povos indígenas, quilombolas, professores etc., protagonizaram uma das mais bonitas manifestações dos últimos anos em Santarém. O “Abraço ao Juá” promoveu o encontro de lutadores históricos com uma nova geração de ativistas, unidos na defesa do meio ambiente.

A articulação e unificação de diversos movimentos e setores sociais em torno de objetivos e pautas comuns devem ser a tônica do novo período que se abre em 2013. Isso é necessário para que a sociedade civil organizada seja ouvida pelos novos “donos do poder”.

Ademais, a retomada das lutas sociais e a reorganização dos movimentos devem apontar para um novo ciclo de esquerda na política santarena, com novas lideranças e novas práticas, bem diferentes daquelas que marcaram a presença da dita “esquerda” no poder, de 2005 a 2012, num governo que passou muito longe de realizar as mudanças que nosso município precisa.

O III Encontro da Cabanagem na comunidade de Cuipiranga, em Santarém, nos dias 4, 5 e 6 de janeiro, é um bom momento para animar e renovar as forças dos homens e mulheres que querem mudar os rumos da nossa cidade.

Que o sangue e a memória dos cabanos possam nos preparar para um ano de 2013 de muitas lutas. Precisamos mostrar que política não se faz somente na Câmara ou na Prefeitura. Ela é feita também nas ruas, nas lutas. Sigamos em frente. Até a vitória sempre!

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* Santareno, é graduado em Direito pela Ufopa e integrante da Executiva municipal do PSOL.

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