
Como observador atento desse universo evangélico e com muitas informações de bastidores, penso que a explicação lógica e realista para o fenômeno da investida dessas igrejas sobre os conselhos tutelares é mais terrena que religiosa propriamente.
Denúncias de abusos sexuais contra crianças e mulheres são endêmicas nessas igrejas. Do mesmo jeito, abusos familiares, como espancamento e maus tratos de crianças, acumulam-se nessas famílias.
Geralmente, são as escolas que descobrem esses casos. Assim, a primeira instância acolhedora dessas denúncias é o conselho tutelar.
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Quando ocupados por pessoas de fora das igrejas, essas denúncias tendem a prosperar. Quando são religiosos com interesses políticos, valores patriarcais e cúmplices de criminosos da família ou da igreja, as denúncias tendem a ser relativizadas e engavetadas.
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Ou seja, a investida das igrejas evangélicas sobre o comando dos conselhos tutelares no Brasil pode ter uma explicação histórica que nada tem a ver com a defesa da família ou de valores conservadores e tradicionais, mas com a defesa de crimes sexuais e abusos familiares.
Enfim, por esta perspectiva mais realista, até porque, como diz o ditado “quanto mais as pessoas se apresentam como moralistas mais perversas, imorais e pervertidas elas são”, esse fenômeno histórico é mais um elemento que agrega no retrocesso civilizatório e democrático que o Brasil mergulhou desde 2014.
É preciso ser freado antes que deteriore completamente as instituições sociais encarregadas de promover a vida civilizada e democrática.
Válber Pires
É professor universitário, doutor em Sociologia, com pós-doutorado em Socioeconomia e Sustentabilidade. Escreve regularmente no JC.
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