Jeso Carneiro

Carta para Socorro Pena

por Apolinário (*)

Gloriosa amiga Socorro Pena,

Faz muito tempo que eu estava entalado com a vontade de lhe escrever. Demorei muito porque esperava um momento seu de felicidade, pois a vida sempre me deixou em ângulos nos quais te observava com certas dificuldades de te ver feliz.

Leia também do autor – Carta para o prefeito Alexandre Von.

Durante o governo Maria do Carmo, por exemplo, ex-prefeita e cunhada sua, por todas as portas e janelas que eu te olhava, você estava chorando e sofrendo por algum constrangimento por seleções familiares dos Limas que você não se encaixava. Muitas reuniões saturnas e misteriosas que você ficava de fora.

Discriminação por parte dos cunhados, concunhados, primos e amigos mais próximos dos Limas e Martins, por abraços, escarros e tabefes do seu fecundo amor. Coleiras, argolas e cravos, ferrada a ferro e fogo pela sua pele inteira. Refém do seu carrasco pela ternura de toda a poesia notívaga prometida em versos de canções, beijos salobres e serenos…

Finalmente tive a oportunidade de vê-la feliz, causando assim inspiração para te escrever e te dizer que sempre fui apaixonado por você. Entrei em delírios quando lembro das tuas curvas nos anos 90, das tuas buscas, da tua forma de falar, de se manifestar, de escrever, ler, se banhar.

Antes do Everaldo Martins, Everaldo Portela e padre Edilberto Sena, já te curtia. Lembra quando eu sentava bem do teu lado e ficava fascinado até com o pitiú das tuas axilas? Já estava apaixonado por você!

Então vi você feliz na noite de sexta-feira, dia 27 de maio de 2016, no Iate Clube, no show do Guilherme Arantes, em comemoração aos 11 anos do Blog do Jeso.

Você dançava suave, terna e sutilmente, muito embora não tirasse o seu olhar do seu ex-amor que atravessava o salão, como se tivesse sido escrito com veneno santo de cobras que ainda estão no céu.

Eu lhe fitava com o mesmo olhar que nunca te diminuiu, que nunca te discriminou, que nunca te disse não. Um olhar que sempre apenas chorou pelos choros seus. Um olhar de um apaixonado que nunca se desapaixonou, um olhar que disse, diz e vai continuar dizendo “eu sou seu”.

O seu ex-amor Everaldo Martins envaidecidamente dançava um pouco mais próximo do palco, onde o Guilherme Arantes tocava os seus sucessos de novelas.

Envaidecido, pois ele sabia que olhares de pelo menos cinco ex-mulheres sua se embaralhavam, rastejavam em sua direção. Sua felicidade era tanta que meu coração saltitou de emoção, e feito água de correnteza severa, que ninguém sabe de onde vem tanto, que nunca acaba, e para onde vai, que nunca enche.

Chorei perdido e meditei… “Por que você ainda olha para essa gente?” Gente que lhe deu amor com restrição, que lhe deu poder com sovina, que te comprou com dinheiro sujo, com cargos políticos temporários e mesquinhos e te abandonou no deserto da solidão.

Eu ia oferecer para você a música “Fã Número Um”, mas o Guilherme Arantes não cantou. Logo pela manhã ele esteve comigo na orla do Iate, onde estou concluindo uma escultura da tocha olímpica em homenagem à passagem da tocha por aqui. Que a “chama” do espírito olímpico nos inspire luz, paz e harmonia.

Contei a ele a história da minha paixão por você, e ficou combinado de que quando ele cantasse a música “Fã Número Um”, dissesse que foi um oferecimento meu para você. Acho que ele esqueceu e no lugar cantou a música “Êxtase”. A música “Êxtase” não combina com nós dois. Combina mais com uma outra paixão minha não correspondida também. “A gente sofre de amor por pessoas no lugar das pessoas que sofreram de amor pela gente”.

Você, por exemplo, brincou demais com o amor do padre Edilberto Sena, que foi quem lhe mostrou o verdadeiro caminho da dignidade política do ser humano. Você abusou e esfacelou o coração, a mente e toda a expectativa do espírito de Everaldo Portela.

O que mais entre nós te amou de verdade, quem fez os primeiros rascunhos seus, da Socorro Pena, força jovem e garra de mulher, daquela Socorro Pena estudante indo pra rua, questionando, criticando, rascunhando soluções político-sociais para a comunidade do Laguinho e para todos os bairros; Everaldo Portela, ainda estudante da PUC (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) mandava para você seus primeiros materiais de sua campanha para vereadora com dinheiro que sobrava de sua suada mesada estudantil que recebia do seu pai, o saudoso Godofredo Portela.

O amor intenso e alimentado pela distância, cartas e telefonemas possibilitou reencontro entre vocês, logo depois despedaçado pela surpresa de sua declaração que estava amando um outro Everaldo, homens com o mesmo nome, totalmente distintos e contrários um ao outro dentro do próprio partido, na época, PT ainda singelo.

O tempo passou. Você evoluiu. Ganhou dinheiro que nunca tinha visto antes. Se quiser, pode até comprar um amor descartável totalmente seu. Um homem inflável com poder de pegada constante, com pique de 18 anos, com um rosto que pode ser programado por uma impressora tridimensional de qualquer ex-namorado seu.

Se quiser, pode até criar um rosto exótico: a boca do Everaldo Martins com os olhos do padre Edilberto e a inquietação efervescente de Everaldo Portela. E se sobrar um espaço, pode colocar um fio do cabelo meu.

Sei que o tempo vai continuar passando e irei continuar me alimentando da esperança de um dia chegar a minha vez de ter você em meus braços.

“Eu nem sonhava te amar desse jeito. Hoje nasceu novo sol no meu peito. Quero acordar te sentindo ao meu lado. Viver um êxtase de ser amado. Espero que a música que eu canto agora possa expressar o meu súbito amor… Com sua ajuda tranquila e serena, vou aprendendo que amar vale a pena, que esta amizade é tão gratificante, que este diálogo é muito importante”.

Foi bonita a festa. Guilherme Arantes veio para cantar na comemoração do aniversário do blog do Jeso, e podemos dizer que foi a “festa dos ex”: ex-maridos, ex-mulheres, ex-namorados, ex-amantes, ex-secretários, ex-governo. Mas o rei dos ex da festa que apareceu com a sua atual futura ex foi o advogado Eder Coelho! Ninguém tem mais ex que ele no currículo amoroso. A casa só não lotou porque não tinha mais ex na cidade para ocupar as outras mesas de quinhentos reais.

Querida Socorro, sou seu fã número um. Sei que tão cedo não terei resposta sua. Não posso dizer que todo o meu amor de paixão por você seja suficiente para votar em você para prefeita de Santarém. Pois ainda acho que, de Rui Corrêa pra cá, o Alexandre Von tem se saído melhor. Mas desejo que tenha sucesso na sua busca. E que não esqueça que eu estou sempre ligado em você.

Beijos e abraços do seu ex-eleitor e atual apaixonado amigo Apolinário.

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* É artista plástico santareno e articulista deste blog.

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