Jeso Carneiro

A filha da verdade

por Cristovam Sena

Observando o momento atual do país, com as denúncias de corrupção de políticos pipocando por todo canto e lugar, passeatas, deputado falsificando assinatura na Comissão de Ética da Câmara, me veio à mente um texto do escritor maranhense Coelho Neto (1864/1934), crônica editada em 1928 no livro “Vesperal” com o título “A filha da Verdade”. Que irei resumir:

“Hermes, o mensageiro dos deuses, chegou até a presença de Zeus para informá-lo que uma das suas filhas mais amadas estava em perigo.
– E qual é ela? Seu nome? – perguntou Zeus.
– A Verdade.
– Uma das mais amadas do meu coração, dizes bem, e a preferida do meu espírito. E que perigo a ameaça?

Fui encontrá-la chorando, fugida dos homens que a apedrejam, ameaçada pelos que frequentam os paços; pelos que legislam; pelos que oram na ágora; pelos sacerdotes que oficiam nos templos; pelos que exercem as artes; pelos que cultivam a ciência; e até pelas crianças. Tanto tem ela sofrido dos que a detestam que está à morte e, se lhe não mandares socorro imediato, talvez não veja florir a próxima primavera.

– Mas a verdade é imortal, disse Zeus.
– Só Cronos é imutável e eterno, Padre. Tu mesmo só viverás no tempo através dos teus filhos, que serão outros deuses, dominando em outras religiões. A Verdade, porém, desaparecerá sem prole e os homens ficarão privados do esplendor dos seus olhos puros. Só há um meio de conservar a beleza que fenece: é casá-la, desde já, para que transmita para um filho o que a faz admirável e amada dos deuses.

– E não haverá entre os deuses um que a queira como esposa?
– Os deuses preferem a Ilusão. Existe um ser que se prestará a desposá-la. Esse, porém, não o fará pela beleza do rosto, nem pela graça do corpo, nem pelo esplendor dos olhos, nem pela suavidade da voz da tua filha, mas pelos cabedais que lhe deres, se forem em ouro bom, em pedras de valor.

– E esse quem é?
– O Interesse.
– Pois vai e oferece-lhe o dote que te parecer e que se celebre o casamento antes que desabrochem as flores já abotoadas nas árvores.

Hermes foi procurar a Verdade. Tomou-a consigo e foram ao encontro do noivo e celebraram-se as bodas. Interesse, o noivo, não chegou a olhar para a beleza da noiva, porque não tirava os olhos dos riquíssimos presentes que recebera.

Após a cerimônia, abandonada, a Verdade ficou encolhida a um canto, foi definhando, só e triste. A coitada expirou sem socorro, saindo-lhe da morte uma vida, a filha. Foi necessário dar-lhe ama, e como a recompensa pelo serviço fosse generosa, apresentou-se a Ambição para criá-la em seu regaço, educá-la nos seus princípios, e instruí-la com os conselhos da sua larga experiência. E a menina cresceu, desenvolveu-se em beleza e em graça, aperfeiçoando-se nas lições que recebera da ama.
Hermes, que a vira nascer e a estimava, levou-a a presença de Zeus. Que deslumbrado com a beleza da donzela disse:

– É linda! E lembra, nas feições do rosto e no donaire a mísera que deu a vida por ela. Que nome tem?
– Ainda nenhum, disse Hermes. Lembra a mãe nas feições do rosto e no donaire, a alma, porém, é do pai e ainda aperfeiçoada pela da que lhe deu o leite da vida. O que há nela da Verdade é só a aparência.
– E que nome propões, tu que a conheces?
– Eu lembraria o que, a meu ver, mais lhe convém – Hipocrisia.
– Pois seja, concordou Zeus, e que viva!
– Há de viver e será eterna, afirmou Hermes.
E foi com tal nome que apareceu e triunfou a filha da Verdade”.

E a Hipocrisia se infiltrou nas alcovas, nos palácios, nas igrejas, nos lares, no futebol, nos botequins, nas favelas, nas salas de aula e, principalmente, no ambiente político, onde é grande o esforço dos representantes da sociedade em demonstrar bons sentimentos, devoção religiosa, compaixão pela população desabrigada pelas calamidades, patriotismo, honradez, honestidade.

Quando se verifica que um dos políticos mais contestados da história do Brasil, o ex-governador e ex-prefeito de São Paulo, hoje deputado federal Paulo Maluf, participa como membro titular da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania; que o presidente da Câmara Federal e do Senado respondem processos na Justiça; acrescido da incompetência e desmandos do PT no Palácio do Governo e da fragilidade ética da oposição; percebe-se a forte presença da filha da Verdade no meio político.

Diante desse quadro dantesco da realidade brasileira é que sentimos o quanto estamos órfãos de lideranças que alimentem nossas esperanças por um Brasil melhor.

Mesmo assim, acredito que sairemos fortalecidos após acordarmos desse pesadelo.

Na política, identificar o joio para separá-lo do trigo, não é tarefa difícil. Não devemos culpar a Hipocrisia pela proliferação dos políticos corruptos, mas a nossa negligência como eleitores. Nossa arma para combater o joio é o voto. E o campo de batalha a educação. Não há outra alternativa!

Esperar somente pela justiça é ilusão!

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