por Helvecio Santos (*)
Nestes tempos de morde e assopra, além dos políticos e suas insípidas, inodoras e repetitivas perorações que nada acrescentam de útil ao cenário nacional, o que também destoava do espaço reservado aos comerciais era a insistência da emissora em, insistentemente, tentar direcionar os corações dos brasileiros e brasileiras para abraçarem uma campanha de doação em dinheiro, só comparável em abrangência à campanha do Natal sem Fome o que, no fundo, no fundo, não destoa do espaço comercial.
Para azar do já sofrido povo, livramo-nos da campanha, mas os políticos continuam a desfilar os cabelos engomados e coloridos e o eterno sorriso de dentes implantados.
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Recentemente o ator Mateus Solano, contracenando com uma criança que faz o papel de seu filho, quase chega às lágrimas ao atender pedido da criança para usar o celular do pai e fazer uma doação. Lógico, a doação foi a de maior valor, R$ 40,00 e, claro, esperou até o final da mensagem para ter certeza que a doação fora feita. O gozado é que o pai, que tanto aprecia a atitude do filho em doar para o Criança Esperança, na cena seguinte coloca o filho na cama e sequer deita um beijo no pirralho, despedindo-se com um simples boa noite, deixando que um “ET” eletrônico nine o sono do filho.
Ora, na minha apreciação, o Criança Esperança ocupa ou tenta ocupar um espaço que deveria ser integralmente ocupado pelo Governo Federal em suas inúmeras campanhas similares, com o dinheiro do rico orçamento que é fornido pelo imposto pago por todos os assalariados e não assalariados, de forma direta e indireta.
Cuidadosa, a emissora informava que não era preciso se identificar e que o valor das doações, em diversos valores para alcançar qualquer bolso, não poderia ser deduzido do imposto de renda, acrescentando que todo valor arrecado seria repassado a um fundo internacional.
Nesta altura do campeonato, eis que finda a campanha, cabe perguntar: a que título, essa provável montanha de dinheiro arrecadada, é repassada ao fundo? Como pagamento ou doação? Se como doação, e é assim que penso deve ser, tal valor pode ser deduzido do imposto de renda do doador. Então, se não é preciso se identificar e a emissora informa que “o valor não poderá ser deduzido do imposto de renda”, quem se beneficia dessa dedução do imposto de renda?
Por me entender bastante onerado pelos impostos que pago, nego-me a ser inoculado pelo vírus dessa sentimentalidade excessiva, onde artistas prestam-se ao papel de induzidores da piedade alheia e ajudam a garfar o já combalido bolso do povo brasileiro.
Na verdade, sob o manto de uma campanha humanitária, esconde-se uma bitributação! Pagamos imposto que deve atender a finalidade pregada na esperançosa campanha e, apelando para o sentimento de piedade de todos, esvaziam-nos do pouco que nos sobra após o governo nos levar sua parte.
Também nego-me a contribuir pois apesar da gigantesca campanha arrecadadora, uns poucos projetos são superficialmente apresentados como beneficiados pela ajuda financeira do povo. Lógico, poucos se comparados à fúria arrecadadora além do que, em momento algum foi apresentado aos brasileiros e brasileiras, tanto o balanço do montante arrecadado quanto no que foi gasto.
Aliás, entendo que campanha idêntica à campanha das doações deveria ser feita na demonstração da aplicação dos valores arrecadados.
Como penso que a voz do povo é a voz de Deus, há um ditado popular que se aplica ao presente caso: “Ao invés de dar o peixe o melhor é ensinar a pescar”. Também cabe ao governo, através de nossa contribuição fiscal, a tarefa de ensinar a pescar.
E aí eu me pergunto: qual o interesse de uma empresa privada – que, como todas as outras empresas privadas, vive de lucro e têm no balanço o orgulho do seu histórico – apresentar-se tão altruísta gastando tempo, espaço em sua mídia e a imagem de seus artistas para buscar resolver(?) um problema que é do governo? Fica a pergunta…
Pela minha tosca ótica, a emissora morde e os artistas do seu plantel assopram.
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* Santareno, é advogado e economista. Reside no Rio de Janeiro e escreve regularmente neste blog.