Morde e assopra

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por Helvecio Santos (*)

A emissora de maior audiência da televisão brasileira está em vias de finalizar a exibição no horário nobre das 19:00h de mais uma novela. Como não é bom dar sopa ao azar, brevemente estaremos assistindo a chamada da próxima, impedindo que concorrente entre no espaço reservado pelos noveleiros e noveleiras deste Brasil afora.

Nestes tempos de morde e assopra, além dos políticos e suas insípidas, inodoras e repetitivas perorações que nada acrescentam de útil ao cenário nacional, o que também destoava do espaço reservado aos comerciais era a insistência da emissora em, insistentemente, tentar direcionar os corações dos brasileiros e brasileiras para abraçarem uma campanha de doação em dinheiro, só comparável em abrangência à campanha do Natal sem Fome o que, no fundo, no fundo, não destoa do espaço comercial.

Para azar do já sofrido povo, livramo-nos da campanha, mas os políticos continuam a desfilar os cabelos engomados e coloridos e o eterno sorriso de dentes implantados.

Recentemente o ator Mateus Solano, contracenando com uma criança que faz o papel de seu filho, quase chega às lágrimas ao atender pedido da criança para usar o celular do pai e fazer uma doação. Lógico, a doação foi a de maior valor, R$ 40,00 e, claro, esperou até o final da mensagem para ter certeza que a doação fora feita. O gozado é que o pai, que tanto aprecia a atitude do filho em doar para o Criança Esperança, na cena seguinte coloca o filho na cama e sequer deita um beijo no pirralho, despedindo-se com um simples boa noite, deixando que um “ET” eletrônico nine o sono do filho.

Ora, na minha apreciação, o Criança Esperança ocupa ou tenta ocupar um espaço que deveria ser integralmente ocupado pelo Governo Federal em suas inúmeras campanhas similares, com o dinheiro do rico orçamento que é fornido pelo imposto pago por todos os assalariados e não assalariados, de forma direta e indireta.

Cuidadosa, a emissora informava que não era preciso se identificar e que o valor das doações, em diversos valores para alcançar qualquer bolso, não poderia ser deduzido do imposto de renda, acrescentando que todo valor arrecado seria repassado a um fundo internacional.

Nesta altura do campeonato, eis que finda a campanha, cabe perguntar: a que título, essa provável montanha de dinheiro arrecadada, é repassada ao fundo? Como pagamento ou doação? Se como doação, e é assim que penso deve ser, tal valor pode ser deduzido do imposto de renda do doador. Então, se não é preciso se identificar e a emissora informa que “o valor não poderá ser deduzido do imposto de renda”, quem se beneficia dessa dedução do imposto de renda?

Por me entender bastante onerado pelos impostos que pago, nego-me a ser inoculado pelo vírus dessa sentimentalidade excessiva, onde artistas prestam-se ao papel de induzidores da piedade alheia e ajudam a garfar o já combalido bolso do povo brasileiro.

Na verdade, sob o manto de uma campanha humanitária, esconde-se uma bitributação! Pagamos imposto que deve atender a finalidade pregada na esperançosa campanha e, apelando para o sentimento de piedade de todos, esvaziam-nos do pouco que nos sobra após o governo nos levar sua parte.

Também nego-me a contribuir pois apesar da gigantesca campanha arrecadadora, uns poucos projetos são superficialmente apresentados como beneficiados pela ajuda financeira do povo. Lógico, poucos se comparados à fúria arrecadadora além do que, em momento algum foi apresentado aos brasileiros e brasileiras, tanto o balanço do montante arrecadado quanto no que foi gasto.

Aliás, entendo que campanha idêntica à campanha das doações deveria ser feita na demonstração da aplicação dos valores arrecadados.

Como penso que a voz do povo é a voz de Deus, há um ditado popular que se aplica ao presente caso: “Ao invés de dar o peixe o melhor é ensinar a pescar”. Também cabe ao governo, através de nossa contribuição fiscal, a tarefa de ensinar a pescar.

E aí eu me pergunto: qual o interesse de uma empresa privada – que, como todas as outras empresas privadas, vive de lucro e têm no balanço o orgulho do seu histórico – apresentar-se tão altruísta gastando tempo, espaço em sua mídia e a imagem de seus artistas para buscar resolver(?) um problema que é do governo? Fica a pergunta…

Pela minha tosca ótica, a emissora morde e os artistas do seu plantel assopram.

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* Santareno, é advogado e economista. Reside no Rio de Janeiro e escreve regularmente neste blog.


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8 Responses to Morde e assopra

  • Namastê aos participantes desse compartilhar de idéias e sugestões. Desde priscas eras entendi que as oportunidades são dadas a todos e e o aproveitamento das mesmas são por caminhos diversos. Conheço contemporâneos meus que hoje reclamam das ESCOLHAS que fizeram. Ainda hoje se ouve dizer que é bom estudar. Reconheço que os tempos são outros assim como as oportunidades. E o tempo passou, continua passando, não esperando por ninguèm. Num determinado tempo da existência nos deparamos com uma triste realidade: não me preparei para um tempo que se chama hoje da minha existência. E isso é lamentável. Ouço isso com frequencia. Esse é um assunto que requer mais aprofundamento. Onde os costumeiros do blog se encontram, ou o assunto é irrelevante?

  • Caro jb, Namastê! Obrigado pelo “nobre” e pela enriquecedora mensagem prenhe de palavras que infelizmente a cada dia se tornam menos significativas nos realcionamentos cada vez mais utilitários. Sra.Maralice e Sr.Fabrício, obrigado! Cara Telma, permita-me dizer, sua colocação é primorosa. Somente faço ressalva quando referencia “os pobres coitados sem grandes oportunidades como os flanelinhas”. Não aceito essa pobre “coitadização” comum nos dias de hoje. Ano passado quando estive em Santa Santarém, a convite de um amigo fiz uma palestra em uma escola da comunidade quilombola Murumuru cujo tema vem a calhar :”As oportunidades são iguais, os caminhos é que são diferentes”. Penso exatamente assim e minha vida é exemplo disso. Nasci no beiradão do Amazonas entre Óbidos e Santarém e o resto de minha vida é pública. Lá v. bem conhece, quem tem um melhoral em casa é tido como dono de farmácia. Não há luz elétrica, água encanada e ficamos 6 meses n’`agua e 6 meses em terra. Para alicerçar minha afirmação também posso citar os amigos Dr.José Ronaldo Dias Campos, Dr.Aluisio Maciel, Dr.Rubem José Dourado da Fonseca, Dr.Gumercindo Rabelo, empresário Agostinho Coleta do Couto e tantos mais que conheço. São histórias de superação. Os flanelinhas, só pelo fato de serem flanelinhas já sairam na nossa frente. Trabalham no asfalto, a hora e o período que lhes convém e, sem querer alongar mais, é muito comum o flanelinha exercer o seu labor (é trabalho?) em frente ou perto de uma escola. O que o impede de estudar, mesmo que fosse à noite? O que acontece é que normalmente querem ganhar um troco, ir ao pagode e fazer filhos, antecipando fases da vida. Desculpe-me discordar nesse ponto, mas não aceito essa terceirização de irresponsabilidade. Caríssimo Sobrinho Eriberto, obrigado pela manifestação! Nos encontraremos em dezembro em Santa Santarém? A propósito, na CAPITAL DO ESTADO DO TAPAJÓS o futebol está de vento em popa! No RAI x FRAN de hoje o LEÃO ganhou de 2 x 1 e ainda perdeu um pênalte. Não são notícias boas? A todos, TAPAJOARAMENTE, SAUDAÇÕES AZULINAS,

  • Tenho contribuindo com essa campanha a muitos anos e a considero muito séria, já pude ver de perto alguns projetos e garanto que é sério, no entanto também achei muito forçado e até um tanto falso a insistência com que era feito os pedidos de ajuda nas novelas. Quanto aos descontos no imposto que a emissora deixa de pagar, ora por favor! Tem um monte de empresas que mesmo sabendo dessas benesses não dão um prato de comida pra quem precisa, não dá um cobertor pra quem tem frio, o que fica parecendo é que alguns ainda pensam que causas sociais são monopólio das esquerdas.

  • Sabedoria do ditado popular, ”quando a esmola é demais o santo desconfia”. Dr. Helvecio sua análise na mordia caridosa e glamourosa da Globo é perfeita!!!!

  • Helvecio,

    Salve! Se aproveitar da fraqueza das pessoas tem se tornando algo natural, e falo da fraqueza das nossas atitudes confortaveis que acalmam a mente e o coração, a grande verdade é que não fazemos nada de efetivo, que de fato resgate o mundo e erradique a pobreza de uma vez por todas, então nos enganamos e nos rendemos aos apelos da Rede Globo, do SBT e até mesmo da TV e da igreja do Bispo Edir Macedo com programas similares achando que desta forma estamos mudando o mundo para melhor. Isso também inclui os sacerdotes, os pastores, até mesmo os pobres coitados sem grandes oportunidades como os flanelinhas, os supostos mendigos e diante de tudo isso o nosso coração vai se enchendo de culpa, não é a toa que o mau do século é a Depressão.

    Abs,

    Telma

  • Namastê, nobre Helvécio!
    Brilhante, profunda e significativa a mensagem eliciada do texto. É pra refletir e decidir. Creio que essas campanhas humanitárias são ideologicamente deformadas e que não levam em conta os próprios destinatários por não serem amados. Você já deve ter percebido que palavras poderosas em seus significados como amorosidade, compaixão, solidariedade, gentileza e tantas outras, não são pronunciadas o que me induz a pensar que o ser humano de verdade não tem importância alguma.
    Saudações azulinas e tapajoaras.

  • Exato, pois quando a Rede Globo diz que a campanha Criança Esperança não gera lucro é mentira. Porque todo mês de abril, ela (TV Globo) entrega o seu imposto de renda com o seguinte desconto: “Doação feita à Unicef no valor de (aqui vem o valor arrecadado no Criança Esperança)“.

    Ou seja, pelo que vejo a Rede Globo já desconta pelo menos 20 e tantos milhões pra mais do imposto de renda graças aos “corações e bolsos bondosos e sensíveis” que fazem as doações! Agora vai você colocar no seu imposto de renda que doou 7, 15, 30, 40 ou mais pro Criança Esperança. Não pode, sabe por quê? Porque Criança Esperança é uma MARCA somente e não uma entidade beneficente. Já a doação feita com O SEU DINHEIRO para o Unicef é aceito.

    E DETALHE não há crime nenhum aí, você doou à Rede Globo(Pobrezinha) um dinheiro que realmente foi entregue à Unicef, porém é descontado na Receita Federal como doação da Rede Globo e não sua. E o Didi agradece junto com sua Trupe, Realmente, é morde e assopra!!

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