por Paulo Cidmil (*)
Há poucos dias, um breve comentário sobre a credibilidade da revista Veja que divulgou matéria sobre Santarém, produziu reações contrariadas e certa incompreensão sobre o que eu estava afirmando. O fato de fazer denúncias, com toda certeza procedentes, não passa atestado de honestidade ao denunciante.
Tenho a convicção que se o Governo Federal investisse 5 milhões mensais em publicidade na Veja, a onda de denúncias cessaria. E lhe garanto que não sobraria um jornalista, desses que ralaram para produzir as matérias e que agora estão super expostos, na redação da revista.
É fato que existe corrupção, já faz parte das entranhas da política nacional, está presente em todos os partidos, de A a Z. Também é fato que existe muito político honesto e que em alguns poucos partidos a corrupção ocorre de forma isolada, um diretório, uma prefeitura, um deputado não contaminando a instituição partidária como um todo.
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O exercício da política não é para crédulos, nem tampouco para céticos. E o pragmatismo é o caminho dos oportunistas.
Fazer política é alimentar a esperança em dias melhores, é ter compromisso com os anseios coletivos e a determinação de estar sempre ao lado das demandas de interesse público.
Nosso país pós abertura e democratização viveu a experiência de um processo político rico, cuja maior força motriz foi essa esperança em dias melhores. Foram 21 anos sem a plena liberdade de expressão, e essa conquista foi como a retirada da tampa de uma panela de pressão.
Comparado aos dias de hoje, podemos até considerar um período romântico da política nacional. Época em que foi possível fazer política com idéias e projetos de transformação social, alimentados por ideologia e militância.
O poder do capital estava presente, os interesses econômicos e os setores mais conservadores da sociedade impediram as Diretas Já. Mas não conseguiram impedir que candidaturas sem nenhum apoio econômico saíssem vitoriosas das eleições.
Olívio Dutra e Alceu Colares se elegiam no Rio Grande do Sul, Brizola trazendo com ele uma enxurrada de desconhecidos deputados, se elegia no Rio de Janeiro. Luiza Fontenelle foi prefeita em Fortaleza; Luiza Erundina, prefeita em São Paulo. Assim, muitos deputados senadores e prefeitos se elegeram no país.
Em nossa primeira eleição para presidente foi quando presenciamos todas as forças econômicas, parte da mídia e conservadores de todos os matizes se mobilizarem para impedir a chegada de Leonel Brizola à Presidência. Fizeram o mesmo com Lula posteriormente e também nas duas eleições seguintes.
Mas até meados dos anos 90 ainda foi possível assistir à vitória das idéias com propostas de transformação e o discurso em defesa da ética saírem vitoriosos das urnas. Vimos Cristovam Buarque eleger-se governador em Brasília; Jefferson Peres, fazendo discurso em cima de caixote, eleger-se senador pelo Amazonas. Foi assim com Marina Silva, no Acre, Benedita da Silva no Rio de Janeiro.
Campanhas com pouco dinheiro e que alimentavam a esperança do povo na transformação social e dias melhores saíram vitoriosas. Ainda era a força das idéias, e da esperança que essas idéias injetavam na população, que elegia alguns bons candidatos.
Com o impeachment de Fernando Collor começou-se a construir no Brasil o mito da ingovernabilidade sem a construção da maioria parlamentar. O PSDB, que não tinha militância, mas tinha o poder econômico ao seu lado, iniciou o caminho da construção da aliança com os setores mais atrasados e perversos da política nacional em busca dessa maioria.
O PSDB inaugura o período do pragmatismo político, já praticado pelo PMDB e PFL, mas sem possibilidade de hegemonia na política nacional. O PSDB, sem militância, e com muito apoio financeiro, aliado a PFL e PMDB, começa a injetar rios de dinheiro nas campanhas políticas. Transforma os marketeiros em magos dos resultados.
São encantados com as campanhas americanas e nunca conseguiram realizar um arremedo de Congresso, seja do Partido Democrata ou Republicano. As mentes mais esclarecidas da política nacional são também as mais colonizadas, subservientes e deslumbradas com o dito primeiro mundo.
As seqüentes derrotas de Lula e a cartinha exitosa do PSDB funcionaram como a pedra de toque em mentes com ânsia de poder como a de José Dirceu. O PT não herdou apenas a estabilidade do real. Herdou e deu continuidade a forma de fazer política implantada pelo PSDB. O PT se desfigurou, esvaziou de sentido revolucionário a política. A coisa só não saiu pior porque Lula não estudou na Sorbonne e nem em Harvard e honrou seu compromisso com as camadas mais pobres da população.
Se o PSDB comprou a reeleição, o PT copiou o esquema e fez o mensalão; se o PSDB deu as estatais ao sistema financeiro e multis, o PT favoreceu muito mais aos bancos e a especulação financeira seguindo a mesma cartilha; se o PSDB tinha o PFL e a maioria do PMDB; o PT conseguiu a proeza de unir o PMDB e juntar partidos de esquerda como PC do B, PSB e PDT com partidos reacionários e ultraconservadores como PR, PP e a bancada ruralista.
O pragmatismo político adotado pela maioria dos partidos quando no governo foi o que levou à realidade de corrupção e ao inchaço da maquina pública na tentativa de atender a todos os pleitos partidários. Não governam em torno de um programa, mas a partir de acordos para a divisão do bolo.
O pragmatismo adotado pelo PT vai um pouco além: esvaziou de sentido ideológico o ato de fazer política. Destruiu sua militância (militam os que estão empregados). Fez o partido aderir, por ausência de militância e esvaziamento ideológico, às campanhas milionárias, aí também reproduzindo a cartilha do PSDB.
Se o poder econômico na campanha de Collor e a seguir com Fernando Henrique ainda escolhia um lado para apostar, desde a primeira eleição de Lula, e o gradual esvaziamento ideológico dos partidos, passou a colocar dinheiro nas campanhas de todos os potenciais candidatos. Porque o dinheiro, esse não tem ideologia. Ele só quer mais vantagens para acumular mais dinheiro. Nada melhor para o capital que ter os partidos dependentes de seus recursos.
A partir das eleições para prefeito em 2000, outro mito começa a se construir no país: seria impossível eleger-se sem um sólido fundo de campanha. Como passe de mágica começamos a ouvir que uma campanha para deputado federal custaria no mínimo de 5 milhões, que um deputado estadual não se elegeria com menos de 4 milhões. E assim começa a corrida dos partidos por pastas na gestão pública que possibilitassem acesso a gestão de recursos para angariar fundos, via “pedágio” ou “comissão”, como estamos vendo agora no Ministério dos Esportes e do Trabalho.
A corrupção, o uso da máquina pública em beneficio próprio, sempre esteve presente na política nacional. Para as forças hegemônicas ancoradas no capital, se utilizar da política para beneficiar seus negócios e manter o poder, sempre foi a regra. Para os que chamávamos de direita, salvo exceções, cobrar comissão e vantagens era apenas participação nos negócios e puro enriquecimento ilícito.
A novidade é que os partidos que chamávamos de esquerda, que construíram sua legitimidade a partir do movimento social, entraram nesse jogo. Sob o pretexto de “fundos de campanha para eleição de maiores bancadas”; “fortalecimento da estrutura física dos partidos”; “propaganda partidária com maior qualidade”. Começam a prática do “pedágio” ou “comissão” sobre os recursos de programas que administram.
O processo é tão cínico que serão capazes de afirmar ser esse um mal necessário para fazer avançar as conquistas dos movimentos populares. Muitos estão enriquecendo com esses “fundos em benefício do social”.
O ato de fazer política torna-se refém do capital. Estreita-se a cada dia o espaço para projetos políticos independentes, ideológicos, cuja ferramenta são as idéias de transformação e compromisso com as conquistas sociais. A dependência de campanhas milionárias vai minando a essencial da atividade política que é transformar as utopias em realidade, em busca de uma sociedade prospera, com justiça igual para todos e onde todos sejam cidadãos.
O dinheiro que compra voto, cada dia mais presente nas campanhas, vai levando o exercício da política para o esgoto do descrédito. Os altos custos das campanhas transformaram os partidos políticos em uma arena de negócios. E negócio bastante rentável para alguns.
Os partidos não estão com suas bandeiras nas ruas difundindo suas idéias, com propostas de transformação e bem estar social. Os partidos hoje têm estratégias de marketing, estão preocupados em convencer e conquistar o eleitor através de ilusionismo e pirotecnia publicitária. Por incrível que pareça hoje os únicos que vão às ruas defender suas idéias e interesses, são os ultraconservadores ruralistas e o movimento sem terra que não é partido político.
Voltando ao assunto da mídia.
Para todos nós, atentos aos fatos políticos, se impõe a necessidade vital de saber absorver e processar a informação que nos chega pelas diversas fontes de mídia disponível. São múltiplas, contraditórias, tendenciosas, revestidas de imparcialidade ou totalmente parciais. Sem dúvida, todas refletem uma ideologia, um interesse econômico ou social, temos sempre uma visão multifacetada da realidade. Mais do que nunca se faz necessário o exercício de pensar!
A mídia também é mercado, está inserida no mundo dos negócios. Em uma sociedade democrática e capitalista, os interesses econômicos e da sociedade civil tem os seus conflitos necessariamente mediados pela política. A mídia, para além do seu fundamental papel de interesse público que é informar, faz parte desse jogo de interesses existente no seio da sociedade. Ela também é parte do conflito de interesses.
A mídia é uma espécie de engrenagem vital na sociedade contemporânea. É o amplificador do fato, seja ele social, cultural, político, cientifico, econômico, esportivo. Mas faz essa mediação, de acordo com os seus interesses imediatos e ao médio prazo. Quanto maior o veículo menor será sua independência. O fator econômico torna-se imperativo ao negócio.
Não é o mundo dos negócios que depende da mídia para dar visibilidade aos seus produtos e difundir a cultura de consumo, mola mestra do capitalismo. Não são os governos que estão dependentes da mídia para tornar público os seus programas e em muitos casos fantasiar suas ações, os governos pagam alto por isso. Publicidade e divulgação hoje são um mega negócio, sustentam grandes empresas da indústria midiática.
Mas na queda de braço dessas duas super estruturas Estado e poder Econômico versus mídia, a informação e os interesses da sociedade nem sempre serão preservados pelos veículos de informação. Estado e as grandes corporações respondem por mais de 50% do faturamento de qualquer grande empresa de comunicação do país. A margem de manobra e liberdade dos veículos de comunicação tem muitos de seus limites impostos pelo negócio.
Não espere, por exemplo, que Globo, Record ou Bandeirantes, as três maiores redes do país, e especialmente a Globo, mantenham no ar por semanas consecutivas matérias com denúncias antigoverno, se o fizer o alvo será o ministro e não o governo. Em algumas matérias sobre a corrupção, nas entrelinhas, o governo da presidenta até será apontado como moralizador.
Não espere desses grupos jornalismo investigativo sobre as maracutaias do Planalto (seja governo Dilma, Lula ou FHC). O mensalão tem provas tão evidentes que virou inquérito com mais de 40 processados, e esses veículos quando se referem a ele, afirmam em seu noticiário: o suposto mensalão. Só a grande mídia ainda não se convenceu de sua existência.
Poderão até investigar o tráfico nas favelas do Rio ou a prostituição nas estradas brasileiras, dois problemas sociais desprovidos de qualquer traço ideológico. Inseridos no contexto de nossa exclusão social via a absurda concentração de renda e décadas de carência de política educacional.
A revista Veja aparentemente parece trafegar na contramão dessa história. Já se caracteriza como veículo anti Lula, e graças a essa oposição nos é possível ser informados sobre atos de corrupção no governo. Mas também nos tem dado exemplos de péssimo jornalismo, quando na ânsia de perseguir, forçou a notícia em cima de provas inexistentes ou forjadas como no caso da pasta rosa.
E, se você quer colocar à prova a imparcialidade ou neutralidade da revista Veja, peça que a Veja tenha o mesmo empenho em investigar e se opor aos imensos privilégios do sistema financeiro (bancos) ou que contrarie os interesses da FIESP.
Cito aqui alguns veículos de comunicação e analiso um macro sistema, mas a mesma leitura pode ser estendida aos demais veículos de circulação nacional. Essa realidade pode ser verificada em um micro sistema. Um município de 200 mil habitantes por exemplo. Nesses o poder de pressão e persuasão do Estado sobre a mídia pode vir a ser maior, principalmente se pequena for a economia e mercado do município.
Nesses vinte e poucos anos pós ditadura, são inegáveis os avanços e conquistas sociais. E sem dúvida a maior dessas conquistas foi a consolidação da democracia. Mas é possível afirmar também, que os partidos e a política perderam seus horizontes utópicos e que se temos liberdade de imprensa, essa liberdade tem alguns limites impostos pelo mercado e pela forte presença do Estado como cliente no mercado publicitário.
Alguns irão afirmar: hoje temos a internet! Verdade, esse é o grande milagre de nosso tempo. Permite de forma ampla e democrática que todos possam expressar seus pensamentos e visão de mundo, defender seus pontos de vista, mobilizar pessoas. Sem essa ferramenta o texto que escrevo agora, seria talvez no máximo uma carta para um amigo ou companheiro de partido. Mas é bom lembrar que cerca de 75% da informação que circula na internet é pura reprodução de noticias e matérias dos principais veículos de informação, onde, e aqui temos mais um avanço, podemos interferir com nossos comentários, críticas e sugestões.
Não gosto de fazer citações, mas reconheço que Marx estava certo e continua atual quando afirma que o fator econômico é que determina a realidade material de uma sociedade, com conseqüências em todas as áreas do tecido social.
A grana que move a engrenagem é a mesma que determina as direções para onde caminha a humanidade. E, esses caminhos, sempre favorecem aos poucos que detém os meios e o capital. Aproveito e atualizo para o nosso tempo mais uma afirmação de Marx “o dinheiro é a comunidade, ele não aceita nenhuma outra”.
Em uma sociedade desigual como a nossa, não da para defender economia de mercado sem restrições, o Estado mínimo e muito menos permitir que o dinheiro corra solto nas campanhas políticas.
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* Santareno, é produtor cultural. Reside no Rio de Janeiro.