Jeso Carneiro

Raimundo “Bucica”

por Célio Simões (*)

Seu nome era quase uma obscenidade, mas era assim mesmo que ele era conhecido. Branco, baixo, atarracado, analfabeto, sem dois dentes na frente, mas trabalhador e inteligente. De batismo, Raimundo Tavares, cujo paradeiro do pai, mãe, irmãos ou parentes sequer sabia informar.

Apareceu assim sem mais nem menos na “Capela”, nossa antiga fazenda, pedindo serviço. Disse que sabia trabalhar com gado e com roça e por isso foi aceito. Sem qualquer compromisso, num tempo que ninguém assinava carteira de empregado. Demorou dez anos.

Nossa propriedade ficava na margem oposta do Rio Amazonas, quase confronte a cidade de Óbidos, aonde todos os ribeirinhos vinham com frequência fazer compras. Arroz, açúcar, sal, sabão, cachaça, fósforos, sapatos, lona vaqueira para fazer vela de canoa e na Pharmácia Esculápio, a mais famosa, do farmacêutico José Cardoso Ayres (avô do meu amigo Ademar Ayres), Cafiaspirina Bayer para dor de ouvido, Mitigal para extinguir coceiras, Elixir 914 como depurativo do sangue; as mulheres adquiriam Fluxo-Sedativo para moléstias do útero e uma tal de Robusterina – a saúde feminina.

Raimundo nunca vinha à cidade. E quando vinha nada comprava. Dizia que não gostava daquela movimentação de gente em torno dele, das pessoas gesticulando e falando alto, do barulho dos poucos carros que resfolegavam ladeira acima ou abaixo, enfim, gostava de ficar na dele, no isolamento campestre que ele mesmo se impusera contemplando as flores avermelhadas dos taxizeiros na época da floração. O sujeito era mesmo esquisito, de pouca conversa, salvo se tivesse provado da “fanta”, quando, falastrão, usava um linguajar chulo.

Meu pai – Francisco Lôbo de Souza – vivia torcendo para que ele fosse embora, pois bonachão que só ele, recusava-se a despedi-lo. A fazenda explorava além da pecuária de corte e de leite, plantação de juta e mandioca. O gado era vendido para marchantes de Manaus, no final de cada ano.

O leite, que viajava em latões, entregue de porta em porta na cidade para fregueses predeterminados, garantia o pagamento dos empregados; a mandioca, além da crueira para o mingau, virava farinha que era consumida à roda do ano com os peixes capturados à larga nos lagos e rios da vasta propriedade, de mais de 2.500 hectares. E a juta, após lavada e enfardada, era comercializada na Companhia Paulista de Aniagens, cujo gerente era o Sr. Magalhães, que a destinava para as fábricas de São Paulo.

Para a pescaria, o acero, a broca da juquira, a coivara, o plantio do capim, a ordenha e o serviço no jutal, Raimundo era imbatível.

Laborava de sol a sol sem reclamações, parando apenas uma hora para o almoço e um leve cochilo, que ele tirava deitado sobre a relva, debaixo da primeira árvore à vista, ao lado de seu inseparável terçado Collins e um cachorro vira lata que ele trouxe não se sabe de onde, batizado de “Fusquete”. Perguntei-lhe certa vez o porquê do nome do animal e a resposta foi incisiva:

– Tu não tá vendo a cara dele?
E mais não disse nem eu entendi, por que não sei o que isso significa e a cara do bicho era igual a de qualquer cão de rua, desses que perambulam às centenas por aí.
– E teu apelido, surgiu de onde?
– Da onde não é da tua conta, seu merderéu…

O rapaz era realmente muito sutil…

O dinheiro que o Raimundo ganhava era jogado fora com farras nos dançarás e barracas de marreteiros das muitas festas de santo feitas pelos ribeirinhos. Comparecia a quase todas, com suas roupas modestíssimas, mas invariavelmente descalço, pois não suportava sapatos; dizia também que se fosse de cueca à festa não acertava dançar.

Geralmente após o folguedo, era encontrado dormindo bêbado no meio da canarana e assim ficava, de cara para o sol, até quase meio-dia. Levantava como se nada tivesse acontecido, voltava para a fazenda e passava o resto do dia trabalhando, sem nem se queixar de ressaca.
Era malcriado e respondão, mas só na aparência. Meu velho ficava uma fera, quando ele contestava uma de suas ordens:

– Raimundo dá um pulo no lago e traz uns peixes para o almoço!

Ao que ele redarguia:
– Vou nada, e aqui não tem macho pra me fazer ir e não adianta que eu não tenho medo de ninguém…

E ato contínuo pegava tarrafa, remo, linha, anzol e ia fazer exatamente o que lhe tinha sido determinado. Por que essa mania contestadora? Nunca entendi.

Uma coisa que havia de sobra na fazenda, por causa de seu extenso aningal, era surucucu, a mais mortífera serpente da floresta Amazônica. Ninguém andava no mato sem prestar absoluta atenção ao menor ruído ou movimento das folhas que caíam das árvores, pois de cada escaninho poderia vir o ataque fatal. Menos ele. Perambulava em seus afazeres com mato pela cintura sem ao menos se preocupar onde estava pisando. Já fora ferrado de arraia, mandis, bagres, levara choque de poraquês, surra de formiga tracuá, dentada de jacaré, porém não estava nem ai para as cobras, que ele conhecia todas só de olhar e dizia que quando criança fora “curado” contra os terríveis efeitos de sua peçonha.

Convenceu-me a fazer a mesma coisa, isto é, submeter-me a tal cura. E foi o que fiz, numa visita ocasional a um lugarejo perdido nos confins do município de Santarém, onde vivia um sujeito conhecido por Didico Assis. Diziam que era um curador sacaca (aquele que já nasce com o dom de curar) e nada cobrava pelos seus serviços, a pessoa dava a quantia que bem entendesse. Após as apresentações de praxe, o homem trasmudou-se. Girou ao redor do meu corpo fumando um longo cigarro de tauari, murmurando algo como uma oração, enquanto a fumaça invadia meus pulmões.

Em um determinado momento, tirou da sacola uma garrafa sem rótulo e me fez ingerir vários goles de uma bebida de gosto tenebroso, uma espécie de mistura avermelhada que tinha o mesmo cheiro da fumaça que exalava da porronca. Antes de dar por encerrada a sessão, amarrou acima de meu tornozelo esquerdo uma fina linha de envira de arumã, um arbusto cujas folhas lembram a da bananeira, recomendando-me que não tirasse em hipótese nenhuma, pois ela cairia com o tempo, sem que eu me apercebesse. E assim aconteceu, pois nunca vi quando a tal envira sumiu.

Eu estava e ainda me julgo curado contra o veneno das víboras, pois, apesar de viver no ambiente urbano de Belém, algumas que encontrei em minhas andanças pelo mato simplesmente desviaram caminho.

Contei minha aventura para o Raimundo, que delirou. Disse que agora já podíamos sair juntos para uma pescaria ou caçada, pois eu não seria mais considerado um trambolho a merecer seus cuidados e atenções.

Certo dia critiquei a falha que ele ostentava na dentição. Falou que perdera os dois dentes superiores num arranca-rabo com dois sujeitos que se engraçaram com a namorada que arranjou durante uma festa. Incentivei-o a ir ao dentista e colocar uma prótese e ele me olhou feito, sem dizer nem sim nem não. Naquele ano, o plantio da juta fora um sucesso e todos os plantadores ganharam um bom trocado, inclusive ele, que vendeu vários fardos na Usina Paulista de Aniagem. Colocou o dinheiro no bolso e saiu por aí enchendo a cara, imaginando-se rico, pois pagava sozinho a bebedeira dos outros amigos. Assim o encontrei nos arredores do mercado municipal, aconselhando-o incisivamente a aplicar em alguma coisa útil a grana que ganhara com tanto esforço. Ir ao dentista, por exemplo…

Três ou quatro dias depois voltei para a fazenda. Encontrei o “Bucica” deitado em um banco de madeira na varanda, rindo para um espelho que segurava na mão direita. Perguntei a um dos vaqueiros o porquê daquela presepada; ele me mandou olhar mais de perto e só assim entendi. No consultório do Dr. Armando Cunha, o melhor odontólogo da cidade, o Raimundo mandara implantar dois dentes de puro ouro e decididamente maravilhado, estava há dias rindo para o espelho, num gesto inconsciente talvez inspirado em Narciso, sem levantar para trabalhar, tomar banho ou fazer as refeições.

Sumiu da fazenda como chegou. Sem dizer realmente quem era, de onde veio ou para onde iria, muito menos explicar a origem de seu apelido pornofônico. O “Fusquete”, seu vira-lata de estimação, esse ficou por lá mesmo, certamente seduzido pela certeza da comida farta que seu enigmático dono, com suas excentricidades e mania de andarilho, jamais lhe poderia garantir.

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(*) Advogado. Membro da Academia Paraense de Jornalismo.

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